terça-feira, setembro 06, 2011

Queer cinema (6/30): O autor fatale que moveu Espanha

Hoje com 61 anos, o trabalho de Pedro Almodóvar é, provavelmente, o primeiro a surgir na memória do público quando queremos falar de cinema espanhol contemporâneo, depois ou antes de Carlos Saura. Com uma vasta lista de títulos que, no seu conjunto, ajudaram a edificar uma definitiva marca "de autor" apenas sua, podemos considerar a obra do realizador representativa de uma progressão cultural, mais que de um estilo. Efectivamente, Pedro Almodóvar, assumidamente homossexual, foi uma das figuras centrais da Movida Madrileña, ou simplesmente "La Movida", movimento artístico, ideológico e até mesmo social contra-cultura do fim dos anos 70 e princípio dos 80, caracterizado pelo seu carácter alternativo, que florescia após quatro décadas de ditadura.

Não nos admira por isso que "Pepi, Luci, Bom y otras chicas de montón" (1980), que segue uma série de curtas-metragens subversivas rodadas em Super 8 (entre as quais se inclui um nome sugestivo: Dos putas, o, Historia de amor que termina en boda), seja um bom exemplo daquilo que pretendia o cineasta com a sua obra estética e, de certa maneira, politicamente relevante. Esta tragicomédia introduz, de forma provocadora e quase alucinada, os tema da sexualidade e da transgressão que iriam atravessar praticamente toda a carreira de Almodóvar, confrontando-nos, de igual modo, com a imagem da femme fatale, que no seu cinema adquire um carácter feminista (com características de uma mulher forte, independente e que se obriga a lidar com os seus dramas interiores) e simbólico.

Como parece evidente, o cinema de autores como Rainer Werner Fassbinder, Luis Buñuel ou Federico Fellini e, sobre todos os outros, de Alfred Hitchcock tiveram um papel decisivo na criação da ambiência que agora apetece chamar "almodóvariana". E a juntar ao cinema temos, naturalmente, a aproximação à pop art (onde se destaca a figura de Andy Warhol, que o espanhol visivelmente idolatra através dos seus cenários preenchidos com cores vívidas, quentes - ou se quisermos "espanholas"). Há sem dúvida uma tentação, talvez excessiva, de correlacionar a narrativa dos seus trabalhos com a de uma simples telenovela. Ainda que a comparação não seja inconsequente, teremos que pôr à frente na desconstrução das histórias de Pedro Almodóvar os moldes do melodrama clássico (que permitem, por mais complexas que seja o desenvolvimento dramático, uma fácil identificação por parte do espectador), e que o autor adequa, de forma inédita (e daí a principal marca da sua obra), aos seus temas predilectos (vide Fala com Ela, de 2002).

Há igualmente uma paixão pelo absurdo, pela alienação e por um tratamento quase sentimentalista dos dramas vividos pelas suas personagens que tornam possível e, obviamente, visível o humor negro do cineasta. Para citar um exemplo, podemos denotar este gosto em  Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, extraordinária "comédia nervosa" que celebra perfeitamente o kitsch e o disparate.

Ainda que A Lei do Desejo (magnífico drama de 1986 que aborda, entre outros assuntos, dos afectos entre duas pessoas do mesmo sexo) seja uma boa representação daquilo que Almodóvar consegue fazer quanto ao tratamento da (homos)sexualidade, nunca é tarde para recordar aquela que considero ser a sua obra-prima: Má Educação, que em 2004 teve a sua estreia no Festival de Cannes. Debruçando-se principalmente, uma vez mais, sobre o problema da identidade (que o filme Tudo sobre a Minha Mãe faz um vislumbre), La Mala Educación (no seu original), destrói com a presença habitual da mulher para transfigurá-la no trágico corpo travestido de Gael García Bernal, e que surge, tal como Match Point é para Woody Allen, como um drama alienígena para um especialista em comédias.

Ainda que não seja declaradamente auto-biográfico, Má Educação (que demorou cerca de uma década a ser escrito) é porventura um dos trabalhos mais intimistas do realizador, que se quis "livrar" do filme antes que se tivesse tornado numa obsessão. Situado em épocas distintas (anos 60 e finais de 70 e 80), este verdadeiro labirinto atravessa uma verdadeira salpicada de "histórias por resolver" - traumas de infância,  segredos da Igreja, um amor por resolver e um misterioso crime (regressam ao pensamento as tramas de Hitchcock).

Má Educação confirma que o à-vontade em filmar o corpo masculino (inserido num imaginário queer resultante dos espectáculos underground de travestis) é o mesmo que Almodóvar tem quando filma as suas musas (antes Carmen Maura, depois Penélope Cruz, que se juntam no melodrama Volver - Voltar) e que se este consegue escrever com destreza sobre uma femme fatale também o pode sobre um enfant terrible.

Será, por fim, também interessante realçar a mágica omnipresença do cinema no seu trabalho (repare-se na cena singular, em Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, onde a protagonista muda progressivamente os seus sentimentos ao mesmo tempo que dobra as falas de Joan Crawford em Johnny Guitar, de Nicholas Ray). Já em Má Educação, Almodóvar revela uma cinefilia capaz de se colar à realidade (e por isso o filme é brilhante), imagem que tenta reproduzir, de forma menos bem-sucedida, no posterior Abraços Desfeitos.

O filme encontra-se disponível aqui.

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