domingo, setembro 04, 2011

Queer cinema (4/30): João Pedro Rodrigues



João Pedro Rodrigues não é um autor de meias medidas. “A comunidade gay - ou queer, como se diz agora, um tique politicamente correcto que odeio - não é a minha maior fã. Os meus filmes dividem sempre as pessoas”, reconheceu ao jornal i em 2009, numa altura em que internacionalizava “Morrer como um Homem”, trágico melodrama sobre um travesti que se sente pressionado a realizar uma operação de mudança de sexo, embora perante Deus sinta que será sempre um homem. 

Apesar de declaradamente cinéfilo ("A cinefilia tem algo de perigoso: não gosto de filmes de citações. Mas é assim que se desenvolve a intuição, nasce do trabalho de ver filmes e é essa sedimentação que faz o conhecimento", declarou ao Ípsilon) e de ter uma pulsão clássica que vibra em alguns dos seus trabalhos (sobretudo neste referido e na anterior longa-metragem Odete – 2005), João Pedro Rodrigues é uma das vozes mais singulares do cinema contemporâneo português. 

Nascido em 1966 e especializado em montagem pela Escola Superior de Teatro e Cinema (Lisboa), João Pedro Colaço do Rosário Godinho Rodrigues trabalhou como assistente de realização e montagem antes de lançar a sua primeira curta-metragem (Parabéns!, 1997, comédia que nos apresenta João Rui Guerra da Mata, seu colaborador e cúmplice próximo, como Chico, um homem comprometido com uma mulher que o acorda, no dia do trigésimo aniversário, com um telefonema, depois de este ter passado a noite com um jovem rapaz) e dois documentários (Esta é a minha Casa, 1997, e Viagem à Expo, 1999). 

Tendo recentemente lançado Alvorada Vermelha precisamente com João Rui Guerra da Mata (com quem co-realizou China, China em 2007 e se encontra a trabalhar em A Última Vez que Vi Macau) e trabalhado na curta-metragem Manhã de Santo António, que o Ípsilon seguiu nesta reportagem, João Pedro Rodrigues tem já edificada uma extraordinária obra com um terreno que só a ele lhe pertence. 

A sua obra maior é, porventura, também a primeira, O Fantasma, monstruoso (na positiva acepção da palavra) filme que indica os traços temáticos principais das suas longas-metragens, ou seja, o sexo, a identidade e a busca de afectos (se juntarmos a fé e a morte, presentes nos filmes procedentes, teremos completo o círculo de assuntos caros ao realizador). 

Indicado como um dos maiores títulos do cinema dito queer, este é filme é dotado de uma estética invulgar e consistente, demonstrando um sentido absoluto e cru de mise-en-scène, algo que ganha perfeita evidência no novo Alvorada Vermelha. Seguimos por isso Sérgio (Ricardo Meneses), o “fantasma” da cidade, que trabalha para a companhia de limpeza urbana em Lisboa e que tem obsessão por sexo e pelo corpo do homem. 

Não é de forma gratuita, panfletária ou dotada de uma débil compaixão que João Pedro Rodrigues o olha e filma (isto relembrando o pequeno escândalo envolto sobre uma cena de sexo oral explícito), mas sim sensível e – mais que provocadora e ousada – sincera. Sérgio personifica em O Fantasma uma aproximação que nos leva aos princípios primitivos da humanidade, questionando o que é afinal isto de moral, de ser humano e, sobre tudo o resto, de sexualidade.

O filme encontra-se disponível aqui. Este texto cita partes do artigo Os dois fantasmas do cinema português, sobre João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata, publicado no Diário de Notícias e posteriormente aqui.

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