segunda-feira, maio 02, 2011

Seguindo o trilho de Malick

Que legitimidade existe em escrever uma biografia, ainda que mínima, sobre alguém que a quer proteger nos recônditos da sua privacidade? Talvez a pergunta que se impõe seja ligeiramente diferente: de quem – e do quê –, realmente, se fala quando se trata de Terrence Malick? Fero anónimo no campo da expressão cinematográfica dos Estados Unidos da América, o realizador tem assinado cláusulas nos filmes em que trabalha determinando que nenhum registo audiovisual e fotográfico deveria ser divulgado ou utilizado como material publicitário, encontrando-se, cada vez mais, abandonado na sua luta pelo anonimato e contra um mundo marcado pela globalização e massificação de novos meios de comunicação social, faminto pela invasão de propriedade individual e julgamento da mesma. Viu ser contemplado, em 2002, um filme italiano sobre si, Rosy-Fingered Dawn: a Film on Terrence Malick, sem conceder uma única entrevista aos criadores do documentário, na determinação de permanecer longe da exposição pública directa. Ora, partindo do princípio de que um realizador não pode falar mais nada do que de si mesmo e das questões que o assombram, os estudos que sobre ele incidem concentram-se naquilo que Terrence sabe fazer: no seu tipo de cinema distinto e forasteiro na indústria hollywoodesca, na esperança de encontrar o indivíduo que se esconde por detrás das imagens. Malick não explica, não se justifica, não sorri para as câmaras – limita-se a observar, limita-se a filmar.

Malick, com 18 anos, numa peça de teatro escolar.
Pouco antes do fim da II Grande Guerra, no dia 30 de Novembro de 1943, Terrence Frederick Malick nascia, filho de um pai que exercia funções executivas numa empresa de origem assíria relacionada com o óleo, em Ottawa, no estado de Illinois, ou em Waco, no Texas (as fontes divergem). Cresceu no Oklahoma e no Texas, trabalhando em campos ricos em oleaginosas, provavelmente sob a influência paterna, e concluiu, antes de seguir a Universidade, os estudos numa escola privada eclesiástica pertencente à Comunhão Anglicana em Austin, a St. Stephen’s Episcopal School.

Malick como jogador de futebol americano escolar.
Tirou o curso, na honra mais prestigiada, de Filosofia, na Universidade Harvard, sendo a sua excelência reconhecida, em 1965, pela Phi Beta Kappa Society. A partir de uma bolsa de estudos, dirigiu-se para a Inglaterra e para a faculdade Magdalen College, em Oxford, e abandonou, sem tese de doutoramento, a universidade, por causa da sua discórdia com um professor sobre a concepção do mundo em Kierkegaard, Heidegger e Wittgenstein. Em 1969, pela Northwestern University Press, publica a tradução inglesa de «A Essência do Fundamento», de Heidegger, acabando por leccionar Filosofia na universidade privada Massachusetts Institute of Technology enquanto se estabelecia como jornalista freelancer, escrevendo para a Newsweek, The New Yorker e a Life.

A sua aventura no cinema começa quando, em Los Angeles, estuda no conservatório privado AFI, o mesmo local onde outros prestigiados realizadores de lá saíram, como por exemplo David Lynch. Realiza, escreve, compõe e representa no seu primeiro filme, a curta-metragem «Lanton Mills» que lhe valeu o MFA, um precioso western de dezassete minutos que, hoje, apenas pode ser consultado, pessoalmente, nas instalações da AFI. Embora, por vezes, sem ser creditado, após ter coordenado e escrito vários argumentos («Drive, He Said», o filme debutante de Jack Nicholson como realizador, em 1971; «Dirty Harry» de Don Siegel, no mesmo ano; e «Pocket Money», de Stuart Rosenberg, no seguinte), Malick decide realizar os próprios argumentos quando a Paramount decide não levar avante o seu escrito «Deadhead Miles», em 1972.

Martin Sheen e Terrence Malick.
Em 1973, inspirado na história de vida do “spree killer” Charles Starkweather e a sua namorada Caril Ann Fugate e eventos ocorridos em 1958, Terrence escreve, produz, realiza e ainda actua como figurante na sua crua e inesquecível primeira longa-metragem «Badlands», protagonizada por Martin Sheen (que, interrogado por causa da atitude anti-media de Malick, ressalta o carácter humilde e acolhedor do realizador) e Sissy Spacek.

No ano seguinte, escreve o argumento de «The Gravy Train», realizado por Jack Starrett e, quatro anos depois, escreve, realiza e surge também como figurante em «Days of Heaven», filme com Richard Gere e Brooke Adams, onde batalha pela imagem modelar que materializasse as suas ideias cinematográficas, chegando a despedir dois directores de fotografia. O esforço é reconhecido pela Academia, que galardoa o filme com o Óscar de Melhor Fotografia, e pelo Festival de Cannes, onde vence o prémio de melhor realizador.

Malick em 1979.
O maior hiato da carreira de Malick ocorre neste momento, a partir de 1978. Empenhado em desenvolver um argumento, que intitulou «Q», que se debruçasse sobre as origens da vida no planeta, o cineasta desaparece durante o tempo da pré-produção, fugindo para Paris, onde escreve um grande número de argumentos. Trabalhando em «Q» sem rodagem à vista, acaba por casar com Michele Morette em 1985, divorciando-se em 1998, ano no qual se casa com Alexandra "Ecky" Wallace, com quem vive no Texas actualmente (dez anos, em Julho de 2008, Morette viria a morrer em Paris).

Na rodagem de 'The Thin Red Line'
Em 1998 escreve e realiza, a partir de um romance homónimo de James Jones, o grandioso filme de guerra «The Thin Red Line», que o fortifica no panorama dos grandes cineastas norte-americanos. Contando com um elenco recheado de estrelas, que, do ponto de vista da produção, auxiliou a promoção e distribuição da obra a nível internacional, Malick foi agraciado com o Urso de Ouro no Festival de Cinema de Berlim e com sete nomeações para os Óscares da Academia: melhor filme, realizador, banda musical, fotografia, argumento adaptado, montagem e montagem de som, abrindo batalha com o então «rival» «Saving Private Ryan», de Steven Spielberg. Martin Scorsese chegou a considerá-lo como o segundo melhor filme dos anos 90 e o crítico de cinema Gene Sisken como «o melhor filme de guerra contemporâneo».

Pela altura em que se via como freelancer, nos anos 60, Malick escrevera sobre Che Guevara, facto que importa ressaltar dado que, após ter realizado «The Thin Red Line» lhe foi dada a oportunidade, por Steven Soderbergh, de escrever e realizar um filme sobre um dos ideólogos da Revolução Cubana. Malick aceitou e desenvolveu um argumento. No entanto, acabou por desistir em 2004 vendo que o orçamento nunca mais seria determinado (entretanto, Soderbergh faria, com Benicio del Toro, as duas partes de «Che», em 2008), lançando-se a outro projecto, mais pessoal, que pensara na década de 70.

O projecto acabaria por ganhar vida no Natal de 2005, chamando ao filme «The New World», que escreve, produz e realiza, uma biografia reflexiva e naturalista inspirada na vida da princesa índia Pocahontas. A partir de um orçamento de trinta milhões de dólares, cerca de trezentos quilómetros de película foram registados e Malick, obcecado na montagem até o último momento em todos os seus filmes, atrasa o lançamento do filme (à semelhança do que ocorreu com o novo «The Tree of Life»), mostra comercialmente uma versão de 150 minutos que é cortada para ser projectada internacionalmente e, em DVD, lança uma versão alongada de 172 minutos. Apesar das reacções mistas ao filme, Malick vê-o a ser nomeado com o Óscar de melhor fotografia.

Até 2006, Malick produz «The Endurance» (1999); o chinês «Xìngfú Shíguāng» («Happy Times»), de Zhang Yimou, em 2000; «The Beautiful Country», de Hans Petter Moland e «Undertow», de David Gordon Green, ambos em 2004; e «Amazing Grace», de Michael Apted, em 2006. Ainda que não creditado, re-escreve, em 2002, a co-produção alemã, sueca, russa e italiana «Bear’s Kiss».

Em 2008, a Summit Entertainment divulgou os primeiros detalhes de «The Tree of Life», que Malick rodara no Texas durante esse ano, após a morte de Heath Ledger, que protagonizaria o filme não fosse o seu fim trágico. O secretismo rondou todo o projecto até os dias de hoje, adiando consecutivamente a estreia do filme, como acabou por se tornar previsível. Foi, entretanto, anunciado que faria presença na 64ª edição do Festival de Cannes, concorrendo para a Palma de Ouro. Em Portugal, estreia no dia 26 de Maio de 2011.

Terrence Malick acabou recentemente as filmagens da sua sexta longa-metragem, com o título “The Burial” (provavelmente provisório), em Oklahoma, com Ben Affleck, Rachel McAdams, Olga Kurylenko, Javier Bardem e Rachel Weisz.

Poderá restar concluir que talvez, mais que qualquer outro escrito sobre o assunto, a biografia de Malick deva ser entendida, efectivamente, pelos seus filmes, que demonstram a sua partilha máxima, menos anónima e sincera, e que dedica ao público do presente e da posteridade.

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