quinta-feira, maio 12, 2011

«2001, odisseia Malick»

Vasco Câmara, enviado especial do Público no Festival de Cannes deste ano, antecipa o novo filme de Terrence Malick, «The Tree of Life»:
Um fantasma do cinema americano dos anos de 1970 regressa a Cannes, em competição. Será na segunda-feira, com "Tree of Life", que é também uma odisseia cósmica. Como reagir perante um fantasma?
Parece um professor universitário na reforma - é esse o testemunho de um antigo patrão do Canal +, Pierre Lescue, que em 2003 por pouco não trabalhou com ele num projecto sobre Che Guevara, que daria um filme de Steven Soderbergh. Lescue viu então chegar até si um americano de blazer azul que tratava por "tu" o futebol francês e perante isso quase caiu da cadeira. Era Terrence Malick, que, formado em Harvard, ensinou filosofia no MIT antes de ser admitido no American Film Institute e que, muitos anos antes, trabalhara em poços de petróleo em Waco, Texas, EUA.

As relações entre os dois são hoje tensas porque, à beira do projecto, e perante o horizonte de não fazer um filme só com voz off como queria, Malick partiu para "O Novo Mundo" (2006). "Este homem é incapaz de transigir, o que é, primeiro que tudo, uma qualidade. É fechado, fala pouco, mostra-se susceptível", disse Lescue, citado pelo Le Monde num dossier sobre Cannes, onde se apresenta o novo filme do realizador, "Tree of Life". A mítica absence of Malick é colmatada com um possível retrato-puzzle feito com testemunhos de quem trabalhou ou de quem não chegou a trabalhar com ele, como John Travolta, a primeira escolha para o papel de "Dias do Paraíso" (1979) que seria de Richard Gere.

"Ele não nos exige nada, mas espera tudo de nós", diz Jack Fisk, decorador nos filmes de Malick, e marido de Sissy Spacek, a actriz de "Noivos Sangrentos" (o primeiro Malick, em 1973, tinha o realizador 28 anos). Fisk admite que a rodagem de Dias do Paraíso, prémio de realização em Cannes, foi a mais esgotante em que participou. E foram dois anos de montagem. Ninguém tinha percebido, antes disso, o que seria o filme, rodado, como todos os do realizador, de forma oposta ao que se ensina nas escolas, já que a equipa não se impõe ao plateau, é ao plateau, e no caso de Malick, é à natureza, que se obedece.

Ninguém tinha percebido, nem Malick - que, segundo o actor Nick Nolte ("A Barreira Invisível", 1999), "vai atrás de uma forma de inspiração divina. Mesmo que isso possa parecer estranho, penso que ele espera do seu filme que ele lhe diga do que é que fala". A montagem faz nascer um (outro) filme. Que o diga Adrian Brody, que pensou ter sido o protagonista de "A Barreira Invisível" até à estreia, em Nova Iorque, onde descobriu que o seu tempo de ecrã não excedia cinco minutos.

Sem saber o dia seguinte

Brad Pitt testemunha, ao Le Monde, que para "Tree of Life", o filme de que é co-produtor e intérprete - um pai de família no Midwest dos anos de 1950, um pedaço da América religiosa, severa, lacónica -, utilizou o background comum entre a personagem e a sua infância.

Pitt nasceu no Missuri, filho de um pai autoritário que um dia deixou sem olhar para trás. E o seu laconismo de homem do Sul é bom para o cinema de Malick, acredita o actor, mas, até pelas suas funções de co-produtor, está neste momento nas revistas como ponte para chegar ao invisível Malick e não é parco em palavras.

Durante a rodagem, contou à revista Studio, nunca soube o que seria o dia seguinte. Percebeu, no entanto, e com isso foi desestabilizado, que Tree of Life tomava a dimensão de odisseia cósmica - essa componente é já uma das expectativas que o filme, regresso de Malick à competição 32 anos depois de "Dias do Paraíso", está a gerar; Pitt confirma as comparações com "2001 Odisseia no Espaço", de Stanley Kubrick.

"Tree of Life" incorpora um antigo projecto do realizador, Q, sobre a criação do Universo, em que o cineasta trabalhou nos anos de 1980 e para o qual enviou equipas para filmar vulcões e glaciares. Foi nessa altura que se afastou, no rescaldo do fracasso de "Dias do Paraíso", um retiro que durou 20 anos - "Ele confirmou-mo", contou Travolta, ""Sim, há qualquer coisa na máquina hollywoodiana que me faz pânico"".

Desde então, o seu território tem sido o do mito, construção de uma invisibilidade que só tem paralelo com Kubrick. Não aparecendo, permitindo o contacto telefónico com esperançosos entrevistadores mas desaparecendo de novo, fez-se fantasma de um tempo, o do cinema americano dos anos de 1970 e dos seus sonhos épicos.

Quando, finalmente, voltou, em 1998, o regresso não podia deixar de ser lido como teste aos novos tempos, um "e se...?" impossível, na verdade: como é que os anos de 1970, os da nova Hollywood, os de um público adulto que respondeu aos desafios utópicos lançados pelos movie brats, se reconheceriam nos anos em que o cinema se transformara em fábrica de blockbusters para público infantilizado?

Esse 1998 foi o ano de "A Barreira Invisível", filme sobre a guerra como queda do homem, e Malick fez figura do soldado que esteve anos escondido na floresta sem se dar conta de que o mundo mudara. Virgem das imagens e do cinema, lançou o seu transbordante transcendentalismo.

Continua um mistério

Nesse ano, Steven Spielberg, colega de geração, estreava "O Resgate do Soldado Ryan", o seu filme sobre a "guerra justa", a II. Não foi preciso descobrir as diferenças. Spielberg e Lucas tinham, anos antes, mudado o mundo com o blockbuster e posto fim ao visionarismo de uma geração.

Malick ficara indiferente ao comboio da História, como, aliás, as personagens dos seus filmes. Um e outras, Malick e as suas personagens, são várias vezes "acusados" de naïveté, em alguns casos de reaccionarismo por permanecerem imóveis, viradas para monólogos interiores; há ainda uma nostalgia new age...

Para o espectador, essa indiferença perante o tempo é, de qualquer forma, intimidante. Algo próximo do hipnotismo imobiliza qualquer distância crítica. Mallick é o fantasma vivo de uma queda, a do cinema americano dos 70s.

Encerrou-se no mito - mas já tem outro filme, história de amor com Ben Affleck, Javier Bardém, Rachel McAdams.

Palavras de Jack Fisk, decorador dos filmes e amigo: "Apesar de ele ser meu amigo, continua um mistério para mim."
[fonte]

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