sexta-feira, maio 27, 2011

Jaime - entre a poesia e a loucura



António Ferreira Gonçalves dos Reis foi um realizador português. Nascido a 27 de Agosto de 1927, em Vila Nova de Gaia (na freguesia de Valadares), foi um auto-didacta no que diz respeito às Belas Artes. Nos anos 60, começou a exercer o cineclubismo (na Cinemateca do Porto), e a produção cinematográfica (em 1962 é assistente de realização de Manoel de Oliveira, com o filme O Acto da Primavera).

Após ter feito dois documentários e passado pela poesia e literatura, António Reis realiza o primeiro filme, objecto de estudo neste trabalho: «Jaime», que viria a estrear em 1974. Apoiado pelo Centro Português de Cinema, o realizador português colabora pela primeira vez com a sua mulher, Margarida Martins Cordeiro , figura que estará doravante mais presente na sua obra. No genérico, surge como assiste de som e montadora – dois aspectos fundamentais para compreendermos a obra ímpar que é «Jaime».

Jaime Fernandes, que cede o primeiro nome para título do filme que é feito posteriormente à sua morte, nasceu em Barco (Beira Baixo), foi beirão e trabalhador rural, passando, ainda, pela pintura e desenho. Aos 38 anos de idade, foi internado durante mais de três décadas no Hospital Miguel Bombarda por ser esquizofrénico-paranóico. Bastaram cinco anos para considerarem o pobre camponês um génio, logo após especialistas em artes plásticas analisarem toda a sua obra.

António Reis descobriu, aparentemente por um acaso, em 1971 (passavam dois anos da morte de Jaime Fernandes), um desenho da sua autoria num gabinete clínico do Hospital e partiu à investigação. Reuniu mais cem desenhos do autor e propôs um documentário que se propusesse a retratar a sua existência. Podemos, porém, dificilmente entender este filme na categoria de documentário. «Não conheci o Jaime e no decurso de todas as investigações que fiz, ele escapou-me sempre», confessa o realizador.

Apesar disto, o filme, quando estreado e lançado em festivais de cinema, foi deveras aclamado, posicionando-o como um dos maiores exemplos do Novo Cinema Português. Venceu inclusive diversos prémios. Entre eles contam-se o Prémio Melhor Filme de Curta Metragem no Festival Locarno, o Grande Prémio à Curta Metragem no Festival de Toulon, ou o Prémio Melhor Filme, no Festival Méridiens, em França, marcando ainda presença na Grécia ou Edimburgo. Financiado pela Fundação Gulbenkian e pela Telecine Moro, o filme, de 35 mm a cores, tem a duração aproximada de 40 minutos. Trespassando as barreiras do documentário e mesmo da ficção, António Reis faz questão de assinalar que «Também não é um filme de artes plásticas. É o Jaime, um homem preso entre a memória e a imaginação, livre, apesar de prisioneiro da doença...».

Como devemos entender, portanto, esta obra cinematográfica de excepcional importância? Se fugirmos à facilidade de incorrermos à categorização em género, como devemos pensar «Jaime», o filme, como devemos entendê-lo à luz do seu criador, António Reis, e do protagonista, o Jaime ele mesmo? É a esta questão que me proponho reflectir de seguida na continuidade deste texto, apoiando-me na obra de Jaime Fernandes, as opiniões de António Reis sobre o mesmo e, evidentemente, nas minhas próprias considerações pessoais sobre a média-metragem, intercalando-as com as de dois autores sobre a arte em geral: Charles Baudelaire e Paul Klee.


Antes de mais, o filme «Jaime» inicia-se e encerra-se com fotografias de Jaime Fernandes. Esta é uma obra sobre um artista. Tal como a mulher do realizador (assistente de realização aqui) afirma na monografia do Cineclube de Faro em 1997: «Não pudemos falar do homem, fizemos um filme à volta do Jaime e daquilo que ele tinha deixado. (...) não podendo abordar o homem, não podendo abordar médicos ou enfermeiros que dessem um testemunho válido, nós utilizámos o material que ele deixou, os lugares onde ele viveu e um pouco a família (a esposa) e o Rio Zêzere. E fizemos uma coisa o mais honesta possível, sem estar a “puxar” pela análise psiquiátrica. Foi o respeito pelo doente, pela pessoa. Um respeito por um artista.» Por esta declaração, surgem-me duas ideias em pensamento. A primeira delas: a visão do criador sobre a existência de Jaime faz-se pelo seu trabalho porquanto o vê, sobre tudo o resto, como um artista. E isto reforça a segunda ideia a ser reflectida: António Reis parece adoptar a postura humilde, porventura envergonhada ou zeladora pela privacidade, de Jaime Fernandes (a fim de evitar um qualquer «abuso» de invasão da sua privacidade), de querer fugir de si mesmo como artista, como intérprete ou como figura autoral omnipresente que um realizador, nesta vaga cinematográfica contemporânea, deveria metaforizar.

É curioso perceber, no entanto que, caso tenha sido esta a tentativa de António Reis (a de não se mostrar ele mesmo como artista, mas expor exclusivamente a figura mítica de Jaime), foi então um esforço infrutífero. Isto na medida em que António Reis não se consegue dar a esconder: para perceber quem é Jaime, fá-lo através dos seus desenhos e olha o mundo na perspectiva alucinada e genial deles. Dito de outro modo, para perceber quem foi Jaime, Reis junta-se a ele fundindo-se como uma verdadeira metamorfose. O cineasta olha os olhos de um louco e olha o mundo com os olhos de um louco: porque aquele estilo, em termos de imagem, som e montagem, denuncia uma simbólica adequação da forma com a mente do artista-Jaime, denunciando que o realizador entra e está nele, Jaime e António como se fossem um só. A arte presente neste filme é, por isso, dupla: há, numa primeira camada, a sensibilidade presente nos trabalhos pictóricos do internado, apresentando Jaime como um artista; numa segunda camada, há a visão de António Reis sobre essa pessoa, tão original que o posiciona como autor.


Invisíveis ao espectador, ambos parecem experimentar a vida ao mesmo tempo: Jaime como um espectro presente no trabalho e nas deambulações imagéticas do realizador; e António como sombra de Jaime, querendo (sobre)viver, olhar e sentir de acordo com as suas normas (ou a sua própria inexistência…). Podemos, pois, entender «Jaime», antes de qualquer outra coisa, como uma experiência. Se pudermos pedir emprestadas as palavras da realizadora Agnés Varda, «nesta respiga de imagens, de impressões, de emoções não há legislação. Em sentido figurado, respigar é uma actividade mental. Respigar factos, respigar actos, respigar informação. Para mim, que tenho uma memória fraca, são as coisas que recolho que resumem as viagens que faço». Ajustando a «Jaime», podemos dizer que há uma “respiga” de impressões (por parte do realizador) que definem parte da existência e obra artística de Jaime Fernandes e que remodelam a do próprio Reis.

Sem fugir a esta ideia de fusão autoral, recordemos Charles Baudelaire que, por sua vez, nos apresenta o Sr. G. «Para dizer a verdade, desenhava como um bárbaro, como uma criança (…)». Enquanto, com o Sr. G., senhor que não assinava as suas criações, realizando-as compulsiva e obcecadamente, uma atrás de outro (à semelhança do protagonista deste filme), Jaime, ao contrário dele, manteve-se num estado dir-se-ia quase “primitivo”. Portanto, podemos para já dizer que Sr. G. é igual a Jaime na ausência de correspondência de uma assinatura que designasse que era o autor da obra, mas, no entanto, Sr. G. é diferente no sentido em que, ainda que tenha descoberto «por si mesmo todos os pequenos truques do ofício», teve uma evolução no campo da criação, ao contrário de Jaime, que, identificando-se com um exclusivo arquétipo, permanece no mesmo registo de desenho. Vítima da esquizofrenia, desordem do foro psicológico que lhe afecta regiões do cérebro que impediam a progressão nesse campo, Reis é como um artista parado no tempo, uma criança eterna.


Isto remete-nos para as considerações de Charles Baudelaire sobre a experiência do mundo do ponto vista, primeiro, do Sr. G., e depois das crianças. Sr. G. era aquilo que Baudelaire considerava ser o «homem do mundo». Como escreve o autor: «Ele interessa-se pelo mundo inteiro; quer (…) apreciar tudo o que se passa na superfície do nosso esferóide». De certa maneira, podemos considerar Jaime Fernandes como uma espécie diferente de «homem do mundo». É um homem do seu mundo. Isto na medida em que está parado num estádio da sua existência, recordando, com fresca impressão, o seu trabalho no campo e os animais. Para demonstrá-lo, Jaime funde-se, como António ao artista, com o seu gado. A identificação de si como animal configura-o como uma espécie nova estranha à nossa experiência de vida: daí que os seus trabalhos pictóricos nos sejam tão sedutores mas horríveis, ao mesmo tempo. Se considerarmos os seus desenhos ainda, passemos à concepção de Baudelaire da experiência do mundo por uma criança. A sua percepção é uma «percepção aguda, mágica à força de ingenuidade» tal como a de Jaime sobre o seu passado.

Esta percepção infantil e deslumbrada do mundo transparece na vitalidade da forma. Apenas se distingue no sentido em que a forma é intransigente, isto é, não permite mudança e é sempre a mesma. Como uma percepção infantil congelada. Mas Jaime Fernandes parece ter uma perfeita noção do espaço que ocupa, seja em papel ou em acetato que desenhe. Como se disse, há um arquétipo só dele e que é seguido. Dá um efeito de estranheza e curiosidade que António Reis soube adequar bem.

E assim passamos para a forma do filme «Jaime» e não apenas dos desenhos do internado. António Reis, em termos de imagem, quis demonstrar como a arte é um ofício reservado à solidão pessoal. Mostra-nos apresentando uma série de palavras escritas por Jaime, registos do hospital, deambulações e locais vazios.


Para agravar o efeito de estranheza, o realizador, a nível do som, escolhe várias composições de forma inédita, mas eficaz. Por exemplo, as imagens do exterior do Miguel Bombarda e da Beira Baixa onde Jaime viveu são acompanhados pelo compositor alemão barroco Georg Philip Telemann, cuja espontaneidade é análoga à água que vemos. Podemos, com justiça, afirmar que este é um tipo de junção poética – isto no sentido em que se quer mostrar uma união mágica, panteísta e harmoniosa entre o homem e a natureza, o humano e o não-humano. Precisamente como Jaime nos seus desenhos se juntava aos animais. A vida, a descoberta e o devir associam-se à mutação da natureza. Esta ideia poética distingue-se de outras junções musicais presentes no filme.

Quando entramos no hospital ou na obra de Jaime, reagimos com as sensações de surpresa e sufoco porque António Reis, na montagem, quis adequar o espectador àquele espaço mental desordenado. Assim sendo, introduz-nos às intermitências musicais de Stockhausen, que nos afunda num universo situado entre a loucura e a poesia, como a arte de Jaime.

O tríptico musical termina com a versão de Louis Armstrong da canção «St. James Infirmary». Os sons “jazzisticos” correspondem, mais uma vez, à desordem da existência invisível do camponês-artista. Para além do mais, a canção fala-nos da grave proximidade da morte e do fim, como que encerrando e homenageando essa vida que foi. A associação poética de António Reis é de uma originalidade que lhe pertence apenas a ele.

Para percebermos como pode isto funcionar ao contrário, podemos remeter para as associações entre a pintura e a música na obra de Paul Klee: nela, encontramos a ordem absoluta da música nas pinturas do autor, “aprisionada” no desenho estático.

oltando ao ponto essencial, António Reis e Jaime Fernandes são em «Jaime» uma força criadora dissolvida, combinada, una e invisível. O realizador, ao entrar, ao enquadrar os desenhos de Jaime, não está a reproduzir o visível, tal como também não está o internado. Ambos tornam visível.

É talvez por isso que o impacto deste filme surja ao nível dos sentidos do espectador. É uma obra de arte poética sem precedentes e que reforça a crença de que a arte não escolhe inteligências nem tem fronteiras.

Bibliografia
1. António Reis e Margarida Cordeiro – A Poesia da Terra, propriedade do Cineclube de Faro e com colaborações de vários autores.
2. A Arte, de France Farago – Porto Editora.
3. O Pintor da Vida Moderna, de Charles Baudelaire – Vega.
4. Jaime - entre o documento e a invenção poética, análise de Ana Isabel Soares da Universidade do Algarve.
Filmografia
1. Jaime, de António Reis
Webgrafia
2. Blogue “ANTÓNIO REIS” - http://www.antonioreis.blogspot.com/

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