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quarta-feira, agosto 08, 2012

Nova Metropolis 0.5 já online

Chegou um pouco mais tarde do que gostaríamos que fosse habitual mas ei-la: a nova edição da revista Metropolis (referente ao mês presente de agosto, número 0.5). “0.5”, claro, por ainda nos encontrarmos na versão “beta” de um projeto que encontrará total concretização no próximo setembro (mês em que a Metropolis será, ao mesmo tempo, um site e uma revista online). 

Há algumas novidades: o desenho de página progrediu como também o modo de leitura (é já possível descarregar a revista em formato .pdf). 

Durante este mês poderão ler mais conteúdos em relação ao número inaugural da revista. Entre eles, reclamam especial atenção o balanço de dois festivais de cinema: um, português, o Curtas Vila do Conde, escrito pelo João Lopes e por mim; outro, da República Checa, do festival de cinema de Karlovy Valy, escrito pelo novo mas já familiar colaborador Rui Pedro Tendinha

Entre críticas, especiais (dedicados a filmes, realizadores, séries de televisão e ao blockbuster do momento, O Cavaleiro das Trevas Renasce, que merece honras de capa), poderão ler, ainda, da minha autoria, uma retrospetiva da obra de Bruno Dumont acompanhada por uma crítica ao seu mais recente Fora, Satanás. Para além de um texto breve de opinião sobre 48 (Susana de Sousa Dias), está de regresso a rubrica “A Dois Tempos”, que este mês se debruça sobre dois momentos de dois filmes-irmãos: Vergonha e Fome, de Steve McQueen

A edição 0.5 (e, também, 0) da revista Metropolis pode ser lida a qualquer momento no portal oficial: www.cinemametropolis.com

terça-feira, dezembro 06, 2011

Para os Cahiers temos Moretti

Já se tornou num hábito. Desde 1951 (com alguns anos em branco), no final do ano, a revista de cinema francesa Cahiers du Cinéma lista e divulga aqueles que considera serem os dez melhores filmes do ano. Os de 2011 já estão escolhidos e elegem “Habemos Papam – Temos Papa”, a mais recente longa-metragem de Nanni Moretti que está, actualmente, nas nossas salas de cinema, como o melhor dos melhores. A surpresa (que, em boa verdade, o deixou de ser com a passagem dos anos) é que, em segundo posição e em ex-aequo com a Palma de Ouro A Árvore da Vida, de Terrence Malick, encontramos O Estranho Caso de Angélica, de Manoel de Oliveira.

As curiosidades? Primeiro: nos três anos passados os Cahiers fizeram menção a filmes portugueses (em 2010, a Morrer como um Homem, de João Pedro Rodrigues, em 2009, a Singularidades de uma Rapariga Loira, de Manoel de Oliveira e, em 2008, a Juventude em Marcha, de Pedro Costa). Segundo: o cineasta português veterano já foi mencionado nas listas da mítica publicação francesa 10 vezes (em 1981, com Francisca, que esteve na primeira posição; em 1989, com Os Canibais; em 1990, com Non ou a Vã Glória de Mandar; em 1993, com Vale Abraão; em 1998, com Inquietude; em 1999, com A Carta; em 2001, com Vou Para Casa; em 2002, com O Princípio da Incerteza; em 2009 e em 2011).

A lista deste ano faz menção ainda a filmes como Hors Satan, de Bruno Dumont, Melancolia, de Lars Von Trier, e a Super 8, de J. J. Abrams:


1. Habemus Papam - Temos Papa, de Nanni Moretti
2. O Estranho Caso de Angélica, de Manoel de Oliveira 
em ex-aequo com A Árvore da Vida, de Terrence Malick 
4. Hors Satan, de Bruno Dumont 
em ex-aequo com Essential Killing - Matar para Viver, de Jerzy Skolimowski 
6. Melancolia, de Lars Von Trier 
em ex-aequo com Un été brûlant, de Philippe Garrel 
8. Super 8, de J.J. Abrams 
em ex-aequo com L'Apollonide, de Bertrand Bonello 
e com O Atalho, de Kelly Reichardt

domingo, junho 12, 2011

Entrevista a Bruno Dumont


Bruno Dumont, um dos mais interessantes cineastas contemporâneos, respondeu a uma série de questões que lancei que serviu de base para escrever este artigo publicado no Diário de Notícias. Publico de seguida a entrevista integral ao realizador francês.

Como relaciona este filme com a França actual, onde o debate religioso é tão visível, especialmente agora que a lei não permite determinados aspectos da prática religiosa (como a utilização pública das burcas)?
Hadewijch é mais uma tentativa de fazer tábua rasa às instituições religiosas e políticas – mostrando a sua violência intrínseca e a alienação dessa superstição – para uma procura espiritual nova e laica.

Acredita que a laicidade política pode promover intolerância religiosa?
A crença em Deus e as religiões são para mim arcaísmos que deveriam estar fora do alcance da política. Mas a política actual é em si uma outra forma desse arcaísmo autoritário que deve ser ultrapassado.

Tem alguma relação pessoal com Deus?
Nenhum. Estou apenas a tentar quebrar o que abrange esse conceito e explorar o seu mistério.

Em Hadewijch, as personagens vão da fé extrema para serem extremistas. Será a fé a razão pela qual as coisas escalam a este ponto ou será o mundo em volta deles o gatilho que faz com as que pessoas se comportem desta forma?
A fé é uma forma alienada de desenvolvimento espiritual do homem: um anel totalitário que contém nos seus germes o poder destrutivo de uma acção terrorista, a sua manifestação extrema.

De que forma vê Hadewijch como uma catarse e metáfora para o interior da alma?
Hadewijch é Puro Amor e é a parte de cada um de nós que deseja desesperadamente Amar e Ser Amado. Hadewijch é este pequeno teatro que parte de nós mesmos, pelo que o filme é a visão e a representação umas vezes em catarse e outras em metáfora.

O Nassir fala sobre o invisível. O que é o invisível para si? Como o considera no cinema?
O invisível é todo a área da interioridade que é irrepresentável para nós, salvo através do cinema que, a par das coisas visíveis, consegue descobrir as proporções certas e, assim, dar-nos visões e, logo, representações.

A violência é inevitável ao comportamento humano?
Sim, mas pode e deve ser transformado pela cultura, pela civilização: pacificado por eles.

Apesar da violência, haverá algum sinal de esperança na última sequência do filme? E pelo que devemos ter esperança?
Hadewijch é testada e mostra o caminho espiritual: a única forma nova de amor humano, longe de Deus.

Hadewijch é uma mística do século XII. Por que escolheu esta referência?
Foi ela que, através dos seus poemas e das suas Visões, me deu a ver a forma mística do amor puro.

O que o fez decidir levar a protagonista do filme para um lugar do mundo árabe a um certo ponto do filme? Onde era já agora?
É um dado artificial num contexto histórico. É partir de uma certa comunidade para uma outra contrária e inimiga. Num western americano dos 50 ou 60 seria como estar entre os índios. É como não estar em nenhuma parte ou em todas ao mesmo tempo.

James Quandt, um jornalista, classificou o seu trabalhou como uma força motriz do chamado “Novo Cinema Francês Extremista”. Como se relaciona com esta ideia? Vê a sua obra como parte de um movimento?
Não posso ter essa perspectiva, encontro-me no meio do que fiz e não na extremidade de qualquer coisa. O jornalista fala provavelmente partindo de onde se encontra e do seu ponto de vista.

Toma o minimalismo de Bresson e a intensidade psicológica de Bergman como referências do seu cinema? Que cineastas admira mais?
Não penso nisso e entretanto o tempo passou. Olho para mim sem saber exactamente por onde e por quem já passei. Todos nós somos formas acumuladas de cinema e somos humildemente o seu movimento perpétuo.

Como passou da Filosofia para o Cinema?
Como não conseguia passar pela porta, fui pela janela.

«Hors Satan», o novo filme que acabou de apresentar em Cannes, parece ser mais radical. Pode falar-me disso?
Hors Satan é o resultando de Hadewijch: face a um novo mundo longe de Deus, o combate contra Satanás, nas paisagens sagradas dos nossos jardins espirituais.

Por uma nova demanda espiritual


Pouco depois de ter apresentado no Festival de Cannes 'Hors Satan', o seu filme mais recente, o realizador francês fala-nos sobre 'Hadewijch', que acaba de estrear em Portugal.

Bruno Dumont é um cineasta que cultiva o silêncio. Evidentemente, esta característica não significa que, na economia das palavras, não acabe por reflectir a plenitude do pensamento que descreve a sua obra. Tomemos como exemplo Hadewijch, que nos mostra a palavra como ditadora da religião e da mentira em contraste com o silêncio, revelador da verdade e do mistério espiritual que parece rodear-nos.

Nascido em 1958 no Norte de França, Bruno Dumont realiza o seu primeiro filme apenas aos 39 anos. Sendo-lhe vedada a admissão a uma das mais conceituadas escolas de cinema francesas, foi professor de Filosofia enquanto filmava anúncios para o nicho da indústria pesada e da maquinaria. É curioso como, durante este período de descoberta de como absolutamente tudo se podia tornar interessante se filmado, Dumont tenta desenvolver as suas questões interiores não na filosofia mas na literatura, chegando a escrever, como um romance, La vie de Jésus. Só depois o transforma em filme, quando, ao tentar vender o projecto aos produtores, é impulsionado a realizá-lo (e fê-lo tão bem que foi contemplado com o Prémio Jean Vigo, em Cannes). "Como não conseguia passar pela porta, fui pela janela", diz-nos Dumont, sobre a sua passagem da filosofia para o cinema.

Em 1999, Dumont dirige L'Humanité (Grande Prémio, Melhor Actor e Melhor Actriz no Festival de Cannes) sob o signo da última cena da sua estreia cinematográfica, girando em torno de um polícia que sofre por não se poder expressar e, mais tarde, em 2003, Twentynine Palms, projecto que, ao contrário dos filmes precedentes, escreve em apenas duas semanas e filma na Califórnia. Profundamente violento, implacável e por vezes gráfico nas suas imagens, Bruno Dumont foi considerado pelo jornalista James Quandt como uma das principais figuras do movimento do Novo Cinema Extremista Francês. Porém, ainda que Dumont considere que a violência é inevitável ao comportamento humano, devendo este ser "transformado pela cultura, pela civilização", revela-nos: "Não posso ter essa perspectiva; encontro-me no meio do que fiz e não na extremidade de qualquer coisa." Da mesma forma, rejeita as ligações do seu cinema com os de outros autores, como o de Robert Bresson ou de Ingmar Bergman. "Olho para mim sem saber exactamente por onde e por quem já passei. Todos somos formas acumuladas de cinema e somos, humildemente, o seu movimento perpétuo."

Após ter lançado Flandres no grande ecrã em 2006 (Grande Prémio no Festival de Cannes), Bruno Dumont regressa ao cinema em 2009 com Hadewijch, filme sobre a decadência de uma jovem católica devota que, após ter sido expulsa do convento, responde pelo nome da mística Hadewijch do século XIII ("foi ela que, através dos seus poemas e das suas visões, me deu a ver a forma mística do amor puro", diz Dumont) e vê a sua relação com Deus posta à prova quando trava amizade com um radical islâmico que a convence a preparar um atentado terrorista. "Hadewijch é mais uma tentativa de fazer tábua rasa às instituições religiosas e políticas - mostrando a sua violência intrínseca e a alienação dessa superstição - para uma demanda espiritual nova e laica", explica-nos o cineasta, face ao surgimento do seu filme num tempo em que a França de Sarkozy proibiu a utilização de burcas. "A crença em Deus e as religiões são para mim arcaísmos que deveriam estar fora do alcance da política. Mas a política actual é em si uma outra forma desse arcaísmo autoritário que deve ser ultrapassado", admite.

Empenhado em "explorar o seu mistério", Hadewijch é um filme que lida de forma muito particular com a fé, que o autor descrente considera ser "uma forma alienada de desenvolvimento espiritual do homem, um anel totalitário que contém nos seus germes o poder destrutivo de uma acção terrorista, a sua manifestação extrema".

No final, apesar da perdição, contemplamos uma ténue noção de esperança: "Hadewijch é testada e mostra o caminho espiritual: a única forma nova de amor humano, longe de Deus." Hors Satan, o seu novo filme, ainda sem data de estreia entre nós, é o seguimento de Hadewijch: "Face a um novo mundo longe de Deus, o combate contra Satanás."

Este artigo foi originalmente publicado no Diário de Notícias, no dia 11 de Junho de 2011.

quinta-feira, junho 09, 2011

À procura de Deus


Visto pelo realizador como “uma metáfora para o interior da alma”, Hedweijch, a quinta longa-metragem de Bruno Dumont que acaba de estrear entre nós, é uma autêntica resposta à alienação religiosa
Foi o jornalista James Quandt quem em 2004, na revista norte-americana ‘Artforum’, assinalou o surgimento de uma nova corrente cinematográfica perante a proliferação de filmes franceses com narrativas que aliassem a violência e a sexualidade gráficas, chamando-a de “The New French Extremism” (que podemos traduzir como Novo Cinema Extremista Francês). Dessa nova vaga, esteve como protagonista, para além de Gaspar Noé (‘Irreversível’, em 2002) ou Catherine Breillat (‘Romance’, em 1999), Bruno Dumont.

O realizador, que iniciou carreira leccionando Filosofia, estreia-se no cinema com 39 anos em 1997, com o controverso ‘La Vie de Jésus’ (galardoado com a Câmara de Ouro no Festival de Cannes), definindo de ora em diante a sua obra e visão. Inspirado pelo cinema de Pasolini, Rosselini e Bergman, realizou então mais três longas-metragens: ‘L’Humanité’, em 1999 (Grande Prémio, Melhor Actor e Actriz em Cannes); ‘Twentynine Palm’s, em 2003, e ‘Flandres’ (Grande Prémio), em 2006. Profundamente interessado nos conflitos interiores das suas personagens, Dumont ajudou a esbater a ténue fronteira entre a pornografia e o cinema de autor. No entanto, ao enquadrar o sexo, serve-se dele para demonstrar a animalidade das acções humanas e não o prazer que delas se pode extrair. O radicalismo do seu cinema, que se justifica em parte por um cruel realismo e minimalismo, é também resultante da ausência da expressão de sentimentos dos protagonistas, que os vivem intensamente dentro de si. É, por isso, um cinema de ideias sobre o vazio, voltado para dentro do indivíduo.

Na sua quinta longa-metragem, Dumont exacerba ao máximo o extremismo psicológico, debruçando-se sobre a fé. Inspirado em Hadewijch da Antuérpia (mística flamenga do século XIII), que serve de título para o filme e de nome que Céline, a protagonista, assume após ter sido expulsa do convento por causa do seu fanatismo, Dumont constrói uma jornada decadente que coloca à prova o seu amor por Deus. A partir do contacto com o mundo, o realizador observa, distante e cauteloso, Hadewijch, que trava amizade com um radical islâmico (que, à sua semelhança, acredita viver num mundo afastado do divino) e prepara um atentado terrorista.

É interessante como os olhos que filmam esta espécie de Joana d’Arc devota não são os mesmos de Dreyer. Bruno Dumont, ao contrário de si, é descrente e propõe-se a mostrar como a loucura leva Hadewijch à perdição. Em paralelo a ‘Twentynine Palms’, este é um filme que ganha um fôlego renovado nos últimos minutos, remendando pontas que foi livremente soltando ao longo da obra. Apesar de todo a violência e absurdo religiosos, parecemos descobrir, pela primeira vez, a esperança numa humanidade distante de Deus.

Este texto foi publicado originalmente no dia 4 de Junho de 2011 na revista Notícias Sábado do DN e JN.

segunda-feira, maio 16, 2011

Cannes [6]: O dia em que Malick dividiu Cannes em dois

Hoje terá sido, na maior das probabilidades, o dia mais esperado de todos nesta edição do Festival de Cannes – a crítica viu, pela primeira vez, o quinto filme de Terrence Malick, The Tree of Life, às 8:30 da manhã. 32 anos depois de ter sido galardoado com o prémio de melhor realizador na Riviera (com «Dias do Paraíso»), Malick apresentou a longa-metragem longe do festival (o realizador nem chegou a voar para Cannes). A ausência, que decepcionou grandemente os jornalistas presentes (a maioria nem uma fotografia tinha visto dele), foi sentida durante toda a conferência de imprensa que seguiu o visionamento. As reacções ao filme foram bastante tão efusivas quanto díspares. Durante a projecção, o nome de Terrence Malick que surgiu nos créditos iniciais suscitou imediatos aplausos. No entanto, no fim da mesma, ovações e apupos misturaram-se.

Na imprensa nacional, o crítico de cinema João Lopes escreveu, no sound+vision, que «The Tree of Life é um acontecimento mágico que nos faz mudar de planeta, conseguindo transfigurar um melodrama familiar numa celebração cósmica. Se pode haver filmes que justificam que se diga a um espectador que nunca viu nada assim... este é um desses filmes.»

Vasco Câmara (Ípsilon) duvida e escreve que «nos filmes de Malick: há motivos, temas com aparência de corpos (por isso Brad Pitt fica bem a fazer de alguém de existência e moral hirtas: porque é um actor hirto), errantes (Sean Penn aparece por lá, faz de filho de Brad Pitt na actualidade, a corporizar a corporate America). E sem voz própria, apesar da aparente pluralidade que se ouve em off. A esses corpos (cada vez mais desalmados) a câmara faz tangentes, aproxima-se e afasta-se a seu bel-prazer, com uma coreografia que já se tornou reconhecível e que Pitt descreveu bem como alguém a apanhar borboletas. Há qualquer coisa de autoritário, intimidante, no cinema de Terrence Malick. Como se não houvesse a possibilidade de contracampo. Só ele fala. Deus?»

Pelo contrário, José Vieira Mendes vai mais longe e diz: «na verdade do olhar estético de Malick não se podia esperar melhor: mais uma obra-prima com contornos de uma sinfonia visual, com inspiração em Mahler, mas com uma poderosa e marcante banda sonora de oscarizado compositor francês Alexander Desplat. E depois é uma profunda e tocante reflexão filosófica sobre a vida e a morte, um ensaio sobre a criação do mundo e a relatividade do tempo. A narrativa não-linear, segue mais ou menos de uma forma intemporal uma trágica e intimista história de uma família americana da classe media dos anos 50 (os décors e o guarda-roupa fazem lembrar às vezes 'Revolucionary Road'). Mas com um discurso de dimensões épicas e transcendentais. O próprio título do filme não podia ser mais evocativo e explicativo apesar da sua concepção algo abstracta e desordenada: a árvore da vida é o símbolo da maioria das religiões e da teoria darwinista. Ou seja uma combinação da natureza com a espiritualidade, algo que é difícil deixar alguém indiferente mesmo que não se compreenda esta proposta e reflexão de Malick, que está ao nível de um '2001, Uma Odisseia no Espaço', de Stanley Kubrick

O enviado do Expresso Francisco Ferreira escreve: «"The Tree of Life" vai provocar reações extremas, defesas apaixonadas, "búúús" intermináveis. No seu gesto experimental e metafísico, o valor da interpretação afasta-se do sentido mais comum do termo (note-se a propósito que, num filme de duas horas e vinte, Sean Penn não aparece mais do que dois ou três minutos, no início e no fim). Os planos do filme encadeiam-se numa torrente de imagens ("O Novo Mundo", filme anterior de Malick, já tinha gerado este efeito) como se fossem no fundo um plano só, uma fonte inesgotável. São imagens sem paralelo, nunca ninguém as inventou assim. Dos anos 50, parte-se para uma cosmogonia a que o cinema nunca deu forma. Não faltará quem se lembre de "2001 - Odisseia no Espaço", quem diga que Kubrick e Malick são almas gémeas, que tocam a mesma sinfonia. São filmes incomparáveis, é certo. Mas a aura de ambos tem a mesma medida. O mesmo abismo. Partem do particular para o incomensurável, até à origem dos tempos. Pai só há um, podia ter dito Jack. O que se pode acrescentar? Que o êxtase, no cinema, é um imenso problema: ele sempre foi mais poderoso quando soube ser austero e simples. Mas o sagrado de Malick - e este filme não fala de outra coisa - extasia. O seu eterno é transbordante. Uma trip sideral, um delírio perpétuo. Refugiados na armadura do seu cepticismo, os cépticos não tardarão a cerrar fileiras. Mas não é isso que interessa, o desafio pede mais, o cinema pede mais: o que interessa é saber se Malick, que não é austero nem simples, chegará ao mesmo sublime pelo caminho mais difícil. Um filme assim, com a ambição extraordinária de transportar a humanidade para o que não é humano, de tocar no sibilino, é o filme de todos os riscos. Não tem meio termo. Só resiste se o seu gesto artístico partir de uma confiança incondicional em si próprio. Malick tem essa confiança. E é por isso que "The Tree of Life" é um filme único.»



Por sua vez, a imprensa internacional também manifestou críticas entusiasmadas. Peter Bradshaw, enviado do The Guardian (Reino Unido), escreve que «o filme magnífico de Terrence Malick desce lentamente como uma espécie de nave-protótipo: é um épico cósmico de proporções vangloriosas, uma reprimenda ao realismo, um repúdio da ironia e comédia, uma meditação sobre a memória e um suspiro de horror e temor sobre a misteriosa inevitabilidade de amar e de perder quem amamos.»

Por sua vez, a crítica de cinema Stephanie Zacharek chamou ao filme um «trabalho de enorme pretensão mascarado de auto-absorção», questionando a razão pela qual Malick, se é reconhecido pela sua habilidade de contar histórias por imagens, tem a necessidade de usar tanta voz-off.

Apesar das opiniões extremistas, houve ainda quem se posicionasse no meio-termo, caso do crítico Dave Calhoun que crê que «nem sempre comunica bem e, quando o faz, é às vezes banal, mas também é incrivelmente belo».

Durante a conferência de imprensa, que pode ser visualizada integralmente aqui, o actor Brad Pitt foi quem mais respondeu às questões dos jornalistas e esteve acompanhado pela actriz Jessica Chastain com quem contracena e pelos quatro produtores Sarah Green, Dede Gardner, Grant Hill e Bill Pohlad (que, quanto à ausência de Malick, respondeu que «ele não quer discutir sobre o seu filme, porque deseja que o público o receba como um poema e que cada um possa interpretá-lo como quiser»). Brad diz-nos que «seriam precisos vários dias para explicar o processo de criação do filme. O argumento foi escrito com muito talento, com muita densidade, mas Terrence Malick não queria segui-lo literalmente. Ele gosta de agarrar a verdade ao voo. É por isso que o filme exala uma impressão de frescura. Além disso, foi quase tudo filmado com luz natural. (…) Este filme é universal, Terrence Malick espera comover todas as culturas.»



O dia foi também marcado pela exibição de «Hors Satan», obra fora de competição principal (mas na secção Un Certain Regard) do grande cineasta Bruno Dumont que se celebrizou por dizer: «não sou crente, o meu filme só contém a exigência de qualquer outra fé no cinema». O estilo do filme, ao que parece, radicaliza-se mais que nunca, apelando às sensações do espectador, fazendo-o viver uma autêntica experiência.

A competir para a Palma de Ouro esteve ainda «L’Apollonide», de Bertrand Bonello, filme decadentista situado no princípio do século passado que tece a crónica do quotidiano das prostitutas que vivem dentro de um bordel secreto. Exercício estético e não político, Bonello diz na conferência de imprensa (a ser vista aqui) que «tudo o que tínhamos a esse respeito era o ponto de vista de homens: pintores, autores... O que eu queria era o ponto de vista das mulheres, o olhar que elas tinham sobre os homens.»

Fora de competição esteve o primeiro filme de Eva Ionesco – «My Little Princess».

terça-feira, abril 06, 2010

Twentynine Palms

Um homem e uma mulher viajam, de carro, por Twentynine Palms, onde o deserto e os abertos planos demonstram ser o palco da sua união bipolar e secreta. Tudo e nada sabemos dos dois, tudo e nada eles sabem de si. Assim é que Bruno Dumont, o francês que assinou este outro ensaio sobre a humanidade, filma, com uma câmara clínica, fria, atenta, sem pudores e (acima de tudo) sincera, o sexo, o amor ou as suas intenções, a amizade, a compaixão, a entreajuda e, sobretudo, o que de pior o ser humano pode demonstrar, afastando-se da moral de um lugar que deixa de ter, progressivamente, nome. Pois, perante uma belíssima fotografia, a Morte é quem governa e nos envolve – numa primeira parte, vendo-se inimiga de dois seres que teimam em ignorá-la (seja na estrada, seja numa piscina), numa segunda, vendo-se vencedora ante uma separação, destrutiva (por se antever na progressão relacional que se dava) e horrível (por via de uma catalisadora e inesperada circunstância). É, efectivamente, um filme difícil, amoral na mais profunda essência. Os longos e contemplativos enquadramentos do homem em interacção com uma natureza quase morta, fazem-me crer que esta grande obra não é nem percepciona o vazio ou o niilismo, de todo. E aí reside a sua basilar importância – por subsistir uma humanidade que, tendo que se consciencializar da sua capacidade orgânica de tudo fazer, pode escolher o caminho que há-de seguir. Twentynine Palms é, apenas, um desses destinos.
8/10