quarta-feira, junho 08, 2011

Por que vamos ainda ao cinema?

Perguntei no Facebook, há pouco tempo atrás, a razão pela qual vamos ainda ao cinema. Com a multiplicidade de meios de consumo (entendam-se: os DVDs, os Blu-Ray, os alugueres e, por último mas certamente mais relevante, a pirataria, que se prontifica a “apresentar” os filmes mesmo antes da sua estreia entre nós), o simples acto de ter que abandonar o conforto e a privacidade da casa, de nos dirigirmos para uma sala de cinema e pagarmos quatro, cinco ou seis euros por cada bilhete tornou-se, de repente, questionável. Mais ainda se considerarmos a experiência de partilhar um visionamento ao lado de quem não mastigue silenciosamente ou de quem queira, ainda antes do filme acabado, comentá-lo logo com os pares.

A própria exibição, distribuição e produção têm estado sensíveis às preferências e atenção do espectador, entrando numa guerra muda contra o “home cinema”, apostando na ditadura da “comida para consumir no cinema” (pipocas, refrigerantes e afins), na promessa de novidade da tecnologia 3D (que, avaliando pela receita dos últimos filmes, tem dado frutos), e na promoção de filmes “familiares”, que levam ao cinema pais, filhos, amigos e namorados todos juntos.

Como pude prever, as respostas à pergunta na rede social variaram e justificaram-se, por um lado, pelo poder de imersão de um filme visto em sala. Em tempos, o próprio cinema clássico de Hollywood desempenhou o importante papel escapista para um público afectado pela Grande Depressão que, na sala escura, se alienava da sua realidade. Não obstante, há algo que vai além do deslumbre do grande ecrã e da qualidade de som e que justifica este comportamento. Ver um filme no cinema é, tal como também me puderam referir e o realizador iraniano Abbas Kiarostami demonstrou em “Shirin” (2008), participar numa experiência social – e é precisamente a esse tipo de congregação que o espectador não consegue escapar. Ver uma obra, sentindo-a ao lado de um anónimo, era já natural na época do teatro da Grécia Antiga. E lembro que o próprio cinema apenas nasceu no momento da sua projecção pública, em 1895.

Por isso, não há, perante a apregoada decadência das salas de cinema, qualquer razão para alarme. E parece-me que a cultura de pagarmos para vermos um filme no cinema desaparecerá apenas quando este também deixar de existir.

1 comentário:

  1. quem uma vez disse que os filmes da nossa vida e os nossos filmes da vida não passavam do mesmo, esse alguém tinha toda a razão.

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