quarta-feira, setembro 26, 2012

O amor não basta

Nova Iorque, 1997. Na agitação das ruas da metrópole dois homens encontram-se e a vida de cada um transforma-se. A solidão torna-se um lugar estranho. É uma premissa clássica – de boy meets girl ficamos apenas com o boy –, que continua a ser a tendência do cinema gay contemporâneo, como tem demonstrado a 16.ª edição do Queer Lisboa. Como ultrapassar este lugar-comum?

Talvez Keep the Lights On, que repetiu ontem às 17h15 na sala Manoel de Oliveira do Cinema São Jorge, consiga responder-nos à questão. É a mais recente longa-metragem do norte-americano Ira Sachs, autor que nos trouxe títulos populares como Casamentos e Infidelidades, em 2007, e debruça-se numa relação disfuncional entre um realizador de documentários (possível alter ego de Sachs, que também realizou alguns) e um advogado. O desejo do primeiro, que quer ter sexo com regularidade, luta contra o do segundo, um toxicodependente.

É um combate condenado à autodestruição mas que vai sobrevivendo até a exaustão. Como se o amor, enquanto existir, bastasse para a união das duas personagens – é o que, pelo menos, parece que nos diz Ira Sachs neste melodrama, tão triste como a própria vida.

Os tons melancólicos com que Keep the Lights On está desenhado são intensificados pelo trabalho do diretor de fotografia ateniense Thimios Bakatakis (responsável pela imagens de títulos como Canino ou Attenberg), cujo pensamento sobre a luz nos remete para uma ideia de passado (importa dizer que estamos a ver um filme raro por ser filmado em película). Uma marca temporal, sim, mas também completamente atual (o diretor do festival João Ferreira lembra, no seu texto de apresentação do filme, que a imagem faz ponta com as “lentes vintage” dos nossos dias: do Instagram ao Hipstamatic).

A maior referência está, no entanto, na música omnipresente de Arthur Russel, importante figura da cultura downtown nova-iorquina dos anos 70 e 80. A música que acompanha o filme parte não apenas de uma escolha do realizador mas de um trabalho conjunto com o antigo companheiro de Russel (que morreu vítima de sida em 1992) e por Matt Wolf, que realizou o documentário Wild Combination: A Portrait of Arthur Russel (exibido em 2009 no Queer Lisboa).

Este texto foi publicado originalmente no Diário de Notícias (25 de setembro de 2012)

segunda-feira, setembro 24, 2012

Diz-me o que fotografas...

Bem-vindos às imagens do século XXI: que nos aliciam pelo anonimato – mas que se revelam fugidias como a água que nos escapa por entre os dedos. Nos dois (!) minutos (ou nos seis segundos do teaser que aqui pode ser visto) de Pix (título sugestivo, que de imediato nos coloca nos misteriosos códigos da Internet), ontem exibido no Queer Lisboa 16, o realizador Antonio da Silva mostra-nos um pouco daquele que pode ser um eterno work in progress: imagens retiradas de uma aplicação para smartphones que possibilitam aos utilizadores encontrar outros que, perto de si, estejam igualmente despertos sexualmente. O corpo masculino parte-se aqui em vários pedaços: nos bíceps, abdominais ou pénis – tudo em função da sedução: virtual, contemporânea. E a imagem perde-se eventualmente no abismo daquilo que o autor chama o “mercado do desejo”. Correção: não é a a imagem, mas toda uma identidade que se dilui. O nosso rosto chama-se hoje iPhone.

Para sempre James Dean



Fez “três filmes inesquecíveis” (recordemos: A Leste do Paraíso e Fúria de Viver em 1955 e O Gigante em 56) e pouco depois morreu – resume-se assim, seca e objetivamente, a grande tragédia de James Dean naquela que era uma das mais aguardadas sessões do Queer Lisboa 16: Joshua Tree, 1951. A acompanhar o título está uma designação que tem tanto de irónico como de curioso, tanto de mentira como de verdade: A Portrait of James Dean. Mas na estreia no território das longas-metragens do californiano Matthew Mishory (presente na sessão) não vemos um nascimento de um ícone – antes uma juventude que flutua acompanhando um filme que toca, sempre à deriva, numa figura maior que a própria imaginação. 

Será, tristemente, por isso que Joshua Tree, que se senta à sombra do gigante Dean, nunca chega realmente a enfrentar “o” ator. Apenas desenha, com grande sentido de virtuosismo (na música, nos efeitos da imagem como o slow motion publicitário, no belíssimo preto e branco...), as cenas da vida atribulada de “um” ator – sobretudo cenas que queiram explorar o nascimento não de um ícone mas de todo um imaginário sexual. É a liberdade na vivência da homo/bissexualidade que nos cativa: nas cenas da piscina, com os banhos de sol tomados pelo protagonista e colegas. Como se ali se estivesse a vivenciar um universo de total transigência, muito para além daquele tempo.

Aguardamos uma nova "estreia" de Mishory – como aguardamos, pacientemente, um filme que consiga tocar sem medos no intocável Dean.

Corpo alienígena

Troncos nus, pernas que se cruzam e pés apoiados lateralmente sobre o metatarso. Eis o que podemos descobrir entre as imagens de La Table aux Chiens, documentário que foi ontem exibido às 19h15 na sala 3 do Cinema São Jorge. Uma síntese curiosa que nos demonstra o principal objetivo do projeto de Cédric Martinelli e Julien Touati: desconstruir o corpo masculino e dar-lhe uma dimensão quase alienígena, como se o espectador fosse um astronauta acabado de aterrar num planeta desconhecido com vida.

O foco do olhar dos dois realizadores está portanto no movimento do corpo, mais precisamente no kathakali, dança tradicional do norte da Índia que se cruza com a performance e que nos atrai pela riqueza dos gestos e da caracterização das personagens. Em cada deslocação e cada olhar notamos que há sempre um pensamento e uma ordem. E é sobre a preparação do resultado final que La Table aux Chiens quer incidir.

O treino na escola do kathakali é intensivo e leva os alunos ao limite do seu esforço. Entre os indianos há dois intrusos: a câmara, que olha para os corpos com uma certa carga de erotismo (o que provavelmente justifica a sua presença no Queer Lisboa 16), e o corealizador Julien Touati, que se integra perfeitamente nas aulas. No final, o resultado é uma experiência transcendental em que a espetacularidade da dança se impõe sobre as imagens da preparação antes vistas.

Valerá a pena, portanto, descobrir esta média-metragem (a duração é apenas de 40 minutos) que segue as mais recentes tendências do cinema documental contemporâneo: cada vez mais calado e mais preocupado em expressar o seu discurso sobre um tema apenas através das imagens e da sua montagem.

Este texto foi publicado originalmente no Diário de Notícias (23 de setembro de 2012)

domingo, setembro 23, 2012

A grandeza do grande plano


Experiência tão comovente quanto radical, o documentário ontem exibido no Queer Lisboa 16 filma a preparação que resultou no enorme panorama do trabalho de Marina Abramović no MoMA em 2010 (focando de forma protagonista a performance interativa que desenvolveu ao longo de vários dias, sentando-se à frente de visitantes durante horas). E é, também, ele próprio um retrato retrospetivo daquela que se propôs, continuadamente, a provocar o sentido dos nossos limites. Incluindo, naturalmente, os da própria arte. Em  Marina Abramović: The Artist is Present, primeira "longa" Matthew Akers que foi sem dúvida um dos pontos altos do segundo dia do festival, vemo-la como uma mulher que procura a redentora compreensão. 

Confesso-me absolutamente assombrado com a experiência de me ver diante de (um espelho de) Marina Abramović e de, através dela, ver o espelho de toda uma humanidade. Eis o grande plano utilizado em toda a sua “grandeza”: ao nos dispormos a ver, com a maior aproximação possível, o tempo que decorre da paralisação do indivíduo não podemos deixar de nos sentir comovidos – porque a humanidade não está na ação que nos distrai, mas no rosto que ignoramos, o reflexo da nossa identidade. O grande plano é, por isso, o plano humanista por excelência (Kiarostami soube-o bem e, em 2008 e com essa crença fundamental, fez um dos mais belos filmes dos últimos tempos: Shirin).

sábado, setembro 22, 2012

Entre lençóis

Filme-sensação da rota dos festivais pelos quais passou, chegou ontem o título que esgotou a sessão de abertura do Queer Lisboa 16. É um facto secundário mas que não deixa de carregar uma força irónica: Weekend já tem edições domésticas no estrangeiro em DVD e Blu-Ray (uma delas é da Criterion – o que pode demonstrar o seu sucesso entre o público com mais exigências) e percorre há algum tempo o circuito de torrents na Internet. Não admira que fossem muitas as segundas (ou terceiras...) vezes de alguns espectadores, ansiosos por ter uma experiência de intimidade em grande ecrã. 

Foi, afinal, isso que aconteceu: uma espécie de espectáculo da realidade em que dois homens se cruzam durante algumas horas e ficam no fim na solidão de onde vieram. O filme vai crescendo, sem dúvida, como se a mera imagem de uma cama com os lençóis vividos nos revisitasse a querer dizer-nos alguma coisa: estás sozinho, a vida é cruel, procuras o amor para te compreenderes. Uma imagem que nos diz isso só pode estar carregada de realidade. Weekend balança-se entre o “social” (que entra nas conversas sobre o assumir a homossexualidade ou nas imagens sobre a tensão entre agarrar ou não agarrar uma mão) e qualquer coisa de mais profundo, aquilo que é a força motriz deste filme. Isso é a intimidade, vista como a consumação sexual, o confronto a partir do diálogo (elemento-chave no filme – por vezes destroçado pela fraqueza das falas e inverosimilhança) – enfim, a partilha do tempo. 

A segunda longa-metragem de Andrew Haigh pede mais disso – e, no entanto, somos por vezes confrontados com um horror ao cliché. O filme preocupa-se tanto em servir de reação (ao ser antirromântico, ao investir as suas energias no realismo e dar espaço a diálogos que façam alusões ao indesejado – como o momento Notting Hill) que parece esquecer-se de que pode estar perante um novo cliché: o homem de barba, urbano e solitário, visto com um olhar que faz ponte com uma "estética Tumblr". 

O problema, importa relembrar, não é este novo lugar-comum (a nós não nos importa se corresponde ou não à norma) – é, justamente, o seu tratamento. Apesar disto, os protagonistas já têm mais humanidade que muita da produção que caminha por aí e que consegue facilmente uma estreia comercial em sala. Mas falta-lhes mais. Porque sentimos, cada vez mais, que as personagens do cinema gay precisam de deixar de falar do facto de serem gays.

sexta-feira, setembro 21, 2012

Aplaudir / Não aplaudir



Há um plano em Para Roma, com Amor em que uma das personagens – uma jovem italiana, que chegou à capital com o companheiro e que procura nesse dado momento um corte de cabelo (quase como Robert Pattinson mas longe de uma limusina) – que pode ser visto, por um lado, como uma exposição ou, por outro, como uma resposta à desilusão com que temos vistos os seus filmes mais recentes: é um movimento de câmara descrito em 360 graus (com um insuportável arrasto na imagem), que abandona a personagem para dar lugar a uma cidade, cheia de vida, sim, mas caótica e intimidante. Cartão-postal? Ou será que estamos perante um dos breves momentos em que Woody Allen se recusou a fazer cedências? (Afinal, não esqueçamos, o tempo é factor determinante no mainstream norte-americano – um momento com uns segundos “a mais” e que “não dizem nada” e pode ser fatal). 

A dúvida permanece, mas parece que o filme se envolveu num processo de autodestruição sem retorno: na produção (um dos casos que se conhece: de vários títulos sugeridos, Para Roma, com Amor foi o que mais rapidamente foi aceite – o pior, portanto), na recepção (grande parte da crítica, sobretudo a italiana, atacou ferozmente a sua visão da cidade e dos romanos, superficial e previsível) e na promoção (o realizador afirmou recentemente que não gostava de nenhum dos seus filmes, confirmando o abismo entre o idealizado e o concretizado). 

Tentamos por isso compreender: por que é que Woody Allen insiste em nos mostrar, como um guia que esquece a vida que há nas ruas secundárias da capital (quem o recorda é mesmo a personagem interpretada por Alec Baldwin), os mesmos monumentos de sempre? E por que motivo há momentos e personagens de frívola banalidade? Parece, a dada altura, que Allen está a conversar consigo mesmo: através, por exemplo, da personagem de Ellen Page, a sensual Monica (o nome parece até remeter-nos ao imaginário bergmaniano, do qual o realizador nunca se despega), que numa cena nos diz: “acho tão sexy um artista que não faz concessões...” 

E, apesar de tudo, temos Woody Allen. Espirituoso, nunca aborrecido. Repartido em vários volumes e “histórias para todos os gostos”, como um Roma je t’aime ou um ABC do Amor com segmentos cruzados (mas que nunca se conhecem), narrados por um polícia-sinaleiro rapidamente esquecido. Um dos elos possíveis é também um dos temas maiores (e que tão bem tratou ao longo da sua obra): a infidelidade e a tensão entre o desejo versus princípios conjugais. É o que encontramos no episódio do jovem casal da província italiana (há adultério com prostituta e com ator de cinema), do casal de estudantes norte-americanos (há adultério do rapaz com melhor amiga da namorada) e, ainda, no episódio do “otário” italiano da classe média (há sexo extramatrimonial com várias mulheres enquanto se encontra na fama). 

Longe deste possível elo deparamo-nos com o quarto e melhor capítulo, protagonizado precisamente por Woody Allen, que reserva para si o melhor papel. É curioso perceber como as personagens mais comoventes, que têm mais vida e mais coração, são aquelas que o autor nos diz que não são as mais sábias, mas as mais cansadas: o casal Woody Allen / Judy Davis (maravilhosa na sua fragilidade e contradições, que dá uma lição de interpretação à maioria dos outros atores, planos e desajeitados). Aqui, a anarquia com que o realizador se introduziu ao mundo está dissimulada no delicioso gag do duche, que possibilita o trabalho sobre a mise-en-scène (de longe) mais interessante de todo o filme. 

O momento de “sabedoria" faz-se, sim, no episódio mais “cansado”: a insuportável fábula moralista protagonizada por Roberto Benigni, que tem os seus fifteen minutes of fame através da projeção da sua vida pela comunicação social (Moretti, pelo contrário, demonstrou o absurdo dos media em poucos segundos, num dos momentos iniciais de Temos Papa). Por sua vez, Alec Baldwin é também o grilo falante do episódio dos jovens americanos, que surge quando é preciso e é visto por todos também quando convém. A sua personagem parece materializar o nonsense apenas latente: como um surrealismo que se quer expressar mas é engolido na convenção. 

No fim não se sabe se Woody Allen, autoproclamado imbecile, estará consciente de que não tem nada a provar a ninguém: pode continuar a fazer o seu roteiro turístico pela Europa, ou decidir-se a arriscar, como há sete anos fez em Londres. Precisamo-lo menos cansado.

Ler ainda >> As Faces de Woody, retrospetiva crítica da obra do realizador no n.º 1 da revista Metropolis