quinta-feira, julho 07, 2011

O fim de um fenómeno globalizante


Quando vemos que milhares de jovens e duas centenas e meia de jornalistas insistem em permanecer acampados em Trafalgar Square perto de uma passadeira vermelha, na capital inglesa, mesmo sob a chuva própria de Londres, confirmamos a certeza de que estamos perante um fenómeno que é, ao mesmo tempo, mediático e fanático.

Harry Potter dispensa, por isso, apresentações – e a própria promoção do último filme demonstra, curiosamente, que basta a anunciação (simbólica, mais que apocalíptica) de que “tudo acaba” para que o público saiba sobre o que é que está defronte de si: o fim de um ícone cultural que, para além de ser seu contemporâneo, é fabricado e alienante. 

As proporções das aventuras deste feiticeiro inexistente estendem-se, inevitavelmente, à internet (o IMDb preparou um especial no seu portal; o Youtube transmite a cobertura ao vivo, entre as 16 e as 19 horas, da apresentação do filme e promove a utilização das redes sociais - Twitter, Facebook, MySpace ou os próprios blogues - para que se fale do evento), indispensável para mover as atenções na era virtual da globalização – que, por sua vez, está longe de terminar. 

Harry Potter e os Talismãs da Morte: Parte 2” [trailer] estreia em Portugal no dia 14 de Julho e, no dia seguinte, nos Estados Unidos da América.

segunda-feira, julho 04, 2011

Double Feature [3]: Mistérios de Lisboa e O Discurso do Rei

O Double Feature é um espaço de opinião regular sobre dois DVDs lançados (ou reeditados) pelas distribuidoras portuguesas. O comentário que segue foi publicado no dia 25 de Junho de 2011, na revista Notícias Sábado integrante do Diário de Notícias e do Jornal de Notícias.

Mistérios de Lisboa, de Raoul Ruiz
Clap Filmes
★★★

O grandioso feito cinematográfico (e televisivo) assinado por Raoul Ruiz, cineasta e teórico chileno radicado em França, é um filme-“novela” na verdadeira acepção do termo. Galardoado com inúmeros prémios em redor do mundo e considerado o melhor filme do ano pela Cahiers du Cinema, esta adaptação do homónimo Mistérios de Lisboa, de Camilo Castelo Branco faz-nos viajar a Portugal do século XIX e ao rol de personagens que fazem parte do destino do protagonista, Pedro da Silva (Afonso Pimentel). Esteticamente ambiciosa, esta obra impressionante de 6 horas parece, com longos e ritmados planos-sequência, dançar com as suas personagens. O filme conta com os desempenhos de Adriano Luz, Maria João Bastos, Albano Jerónimo e muitas outras caras do teatro e do cinema portugueses.


O Discurso do Rei, de Tom Hooper
Zon Lusomundo
★★★

O grande vencedor da edição dos Óscares da Academia deste ano trespassa o género da biografia para revelar uma história de responsabilidade e resiliência numa Inglaterra próxima da guerra. Colin Firth (Óscar de melhor actor principal) interpreta o papel de Bertie, Rei George VI (pai da actual rainha), que tem um problema de gaguez que lhe consome a vida. A partir de fotografia sóbria e, em dados momentos, invulgar, Tom Hooper (Óscar de melhor realizador) dignifica, com requinte classicista, a figura do rei e a sua luta desesperada, que leva a cabo ao lado da mulher (Helena Bonham Carter) e do terapeuta da fala e amigo (Geoffrey Rush). Apesar de não trazer nada de novo e extraordinário para o cinema norte-americano, o Óscar de melhor filme é sobretudo um título que se empenha em dar esperança aos desfavorecidos.

5 perguntas (i): Diogo Figueira

Diogo Figueira, autor do blogue de cinema A Gente Não Vê, abre a rubrica semanal 5 perguntas, que confrontará vários convidados com uma série diferente de questões sobre a sua relação com o cinema. Muito obrigado, Diogo, pela tua colaboração - e apelo aos leitores que visitem o seu espaço.

★★★★★

1. O melhor filme português?

Há vários recantos que me falta explorar e teria mais para falar se a questão fosse invertida. De qualquer forma, os dois filmes portugueses que, até hoje, mais prazer me deram ver são de tal maneira diferentes, em conteúdo e forma, que não poderei deixar de nomear os dois: "Recordações da Casa Amarela", de João César Monteiro, e o recente "José e Pilar", de Miguel Gonçalves Mendes. O primeiro pela sua causticidade, pela subtileza do diálogo através do subtexto, aforismo de mestria da escrita para cinema, que tão bem praticam os grandes escritores internacionais e que nunca tinha visto ser feito por cá, ou tão bem. Ainda pela personagem de João de Deus, na qual vejo a personalidade mais marcante do cinema português, muito daquilo que nos falta, personagens capazes de entrar numa lista portuguesa de personagens memoráveis. Enfim, pelo tom irónico e satírico que o filme pratica, que adequadamente ou não, mas pelo menos curiosamente, me faz lembrar a escrita de José Saramago (apesar de não ser uma parábola). O meu único problema com o filme é o ritmo. O segundo, pela sensibilidade, pela beleza do pormenor, pela genialidade das reflexões, pela subtileza e encaixe perfeito dos momentos captados, pelo perfeccionismo da câmara e da montagem que fazem do filme não um fic-doc (como é The Hurt Locker ou Close Up) mas sim um doc-fic, forjando dali dois personagens igualmente memoráveis, que nos atingem com a dimensão mística da ficção, do ideal. Já admirava Saramago, enquanto escritor, e foi muito bom ficar a conhecê-lo longe do sensacionalismo da imprensa.

2. Interdição ou legalização do descarregamento gratuito de filmes na internet?

Legalização, com limites. A favor da interdição há as óbvias questões do lucro, dos direitos autorais, etc. Mas a favor da legalização está o factor mais forte de todos: a publicidade. Se eu não conhecer o trabalho do Iñarritu e puder descarregar o 21 Grams ou o Babel, gostando, a probabilidade de querer ir ver Biutiful será muito maior. Tenho ouvido, por diversas vezes, vozes que, ao combinar ir ao cinema, apelidam "Tree of Life" de "seca". Não fazem a mínima ideia do que estão a falar. Não sabem de que trata o filme, não sabem que é Malick (então este), nada. Mas se virem The New World ou The Thin Red Line, aí as coisas poderão mudar de figura. Actualmente, é financeiramente incomportável para qualquer mínimo assíduo de filmes ir ao cinema ver tudo o que quer. Portanto, as escolhas serão sempre feitas. O que sugeriria era que fosse legalizado o download de filmes cuja estreia no país em questão tivesse sido há mais de um ano. Ou isto ou algo nestes termos. Assim, sempre que um filme sai, existe um período médio em que não pode ser descarregado, mas, a partir daí, não haveria problema - e o seu download poderia fazer certas pessoas ir ver o próximo filme do realizador/argumentista/actor em sala. Repare-se, as pessoas têm sempre de fazer opções. Aqui, apenas 1) se ajuda a tomar a opção (contribuindo, eventualmente, para um enriquecimento do conhecimento cinematográfico da população); 2) contorna-se o inevitável, já que a pirataria é, a meu ver, inexterminável. Surge a questão da venda dos DVDs. Os DVDs que se vendem agora continuar-se-ião a vender na altura porque os motivos para comprar um DVD não são a necessidade de ver o filme mas sim a vontade de ter o sentimento de posse sobre aquele objecto (seja que razão for).

3. Que filme viu mais vezes em sala?

Felizmente, um dos meus favoritos, There Will Be Blood. Duas vezes. Não há outro filme, segundo me lembro, que tenha visto duas vezes em sala, ainda. Em DVD, vence também There Will Be Blood e em VHS ou The Lion King ou The Jungle Book.

4. Digital ou película?

Nem um nem outro; ambos. A película certamente que tem as suas vantagens sobre o digital ou não seria advogada por mestres como Paul Thomas Anderson (e conheces o respeito e veneração que tenho por ele) ou Wally Pfister (ganhou até um Óscar na passada edição dos prémios). Por outro lado, o digital certamente que também comportará as suas, ou não seria advogado por mestres como David Fincher (a belíssima fotografia de The Social Network ou Benjamin Button, ambos nomeados para o Óscar) ou Roger Deakins (estreou-se em digital depois de True Grit e adorou). Eu acho que em última análise o que deve ditar a questão é o orçamento. Se há pouco dinheiro, faça-se em digital. Se há muito dinheiro e somos o Christopher Nolan, faça-se em película. De qualquer forma, acho que o segundo tenderá a desaparecer e acontecerá sem os maremotos de lamentos histéricos que muitos proclamam, com pouco conhecimento de causa já que, como se vê, o digital pode dar uma grande fotografia. Última nota, a película é mesmo, mesmo cara. É uma monstruosidade. E os cineastas portugueses teimam em não aceitar isso.

5. O filme que mais anseia que estreie?

Sem hesitar, os dois de Paul Thomas Anderson: The Master, já em rodagem, e Inherent Vice, em processo de escrita (ainda por cima já li o livro). Depois, Django Unchained, de Tarantino, Midnight in Paris, de Woody Allen (em terras lusitanas), entre muitos outros. O eterno não-concretizado Napoleão, de Kubrick, vale? Bom, agora resta-me esperar para que realmente nunca seja feito.

domingo, julho 03, 2011

Post(ers) [1]

Submarine (2010), de Richard Ayoade

sábado, julho 02, 2011

Música com Cinema (4): Radiohead e M.I.A.


Just, dos Radiohead
Realização: Jamie Thraves
1995


Muita tinta fez correr aquela cena no final de Lost In Translation na qual víamos as personagens interpretadas por Scarlett Johansson e Bill Murray segredando algo um ao outro. Nunca saberemos o que disseram. Mas sabemos que algo foi... A ideia das palavras ditas mas não escutadas (ou lidas) é também um elemento-chave na narrativa que acompanhamos num dos melhores telediscos dos Radiohead. Realizado por Jamie Thraves, cineasta com algum trabalho em cinema e, sobretudo, aventuras várias pelo mundo dos vídeos musicais (trabalhou entre outros com Roisin Murphy, Blur ou Coldplay), Just foi a sua primeira obra. Numa rua londrina (em concreto um espaço perto da Liverpool Street station, em Londres), um homem caminha e acaba por se deitar no chão. Os transeuntes passam, troperçam e perguntam-lhe o que se passa. De uma janela o vocalista e demais elementos dos Radiohead espreitam a cena. As legendas, que acompanham o teledisco, vincam a ideia de uma narrativa que assim avança, independentemente da letra e melodia da canção que ao mesmo tempo vamos escutando. A dada altura o homem pergunta se querem mesmo que explique porque está no chão. E antes de revelar perde perdão pelo que vai dizer, adivinhando-se uma qualquer calamidade. As legendas então deixam de aparecer. Vemo-lo movendo os lábios... Mas não lemos. Nem escutamos. Os rostos dos que escutam ficam gélidos... E o plano seguinte mostra que, à volta do homem, quem o escutou a ele se juntou e está, também agora, deitado no chão.

Just é um soberbo exemplo de teledisco narrativo. Contudo, em vez de optar pelo caminho fácil que seria a transformação em pequeno guião da letra, toma antes a canção como banda sonora de uma história. Como se de uma curta-metragem se tratasse.

O disco

Os Radiohead eram, nos anos 90, uma das mais aclamadas bandas de guitarras no Reino Unido. Antes da reorientação de rumo (por terrenos mais electrónicos) que chegaria com Kid A no ano 2000, procuravam a exploração de formas mais clássicas da canção pop/rock, atingindo resultados notáveis nos álbuns The Bends (1995) e OK Computer (1997). É do alinhamento do primeiro destes dois discos que Just foi retirado para, em Agosto de 1995, ser editado no formato de single. Como as demais canções do álbun, Just é uma canção de forma clássica, essencialmente assente sobre um poderoso trabalho de guitarra e, como em outros instantes dessa etapa na obra dos Radiohead, um tema feito de contrastes entre fluxos de intensidade eléctrica e episódios de mais discreta placidez. 

Nuno Galopim

Born Free, de M.I.A.
Realização: Romain Gavras
2010


Escrito pela própria cantora e realizado pelo cineasta francês Romain Gavras, “Born Free” nada mais é que uma alegoria histórica e política com a incómoda capacidade de percorrer o absurdo de uma existência. Filmado a partir de um estilo documental, seguimos uma unidade militar SWAT que têm a missão de capturar pessoas do sexo masculino que são… ruivos. Aludindo ao episódio intragável do Holocausto nazi, M.I.A confronta-nos, primeiro, com a necessidade de associar ao poder a noção de discriminação e preconceito, e segundo, com a capacidade de nos rebelarmos contra a autoridade. Violento e perturbantemente cómico, este autêntico filme encara-nos com a matéria de que somos feitos.

José e Pilar a quererem viajar aos Óscares

A Internet tem, como outros movimentos o conseguiram comprovar, o poder de agregar opiniões e forças em prol de um interesse comum. Com o cinema, particularmente em Portugal, ocorre o mesmo (relembro a petição, ainda activa, da mudança da programação de cinema na RTP2). Tiago Ramos, do blogue de cinema e televisão Split Screen, anunciou hoje a criação de uma petição online para que o documentário realizado por Miguel Gonçalves Mendes sobre uma fase da vida de José Saramago e Pilar del Río – “José e Pilar” –, que conquistou o apreço de grande facção dos portugueses (numa altura em que se assinala um ano da morte do Nobel da Literatura português e o lançamento do filme em DVD e banda sonora), seja seleccionado pelo ICA para representar Portugal na cerimónia de entrega dos Óscares, a ocorrer para o ano que vem.

O surgimento de uma petição deste género relembra uma ausência de fundamentação de escolha que situa Portugal na lista de países que mais se candidatou para a Academia sem ser nomeado (credibilizando-se a Academia norte-americana, descredibilizar-se-á o ICA ou os filmes feitos em Portugal?), fomentando o desapreço dos espectadores pelo seu próprio cinema (ao entenderem a Academy of Motion Pictures, Arts and Sciences como o órgão mais relevante na entrega de prémios de cinema…) Apesar de, naturalmente, não o ser, a nomeação para um Óscar não deixa de ter o seu lado simbólico, sendo que a identidade de um povo depende também do seu reconhecimento no estrangeiro. E parece que este está empenhado, graças às ferramentas sociais actuais e confiança no produto realizado, em contornar a situação, levando “José e Pilar” aos Estados Unidos da América.

A petição pode ser lida e assinada aqui. O blogue oficial, no qual poderemos acompanhar o desenvolvimento da mesma, é este. A página de Twitter, esta. E, claro, a página do Facebook também existe e poderá ser acedida aqui.