sábado, julho 02, 2011

Música com Cinema (4): Radiohead e M.I.A.


Just, dos Radiohead
Realização: Jamie Thraves
1995


Muita tinta fez correr aquela cena no final de Lost In Translation na qual víamos as personagens interpretadas por Scarlett Johansson e Bill Murray segredando algo um ao outro. Nunca saberemos o que disseram. Mas sabemos que algo foi... A ideia das palavras ditas mas não escutadas (ou lidas) é também um elemento-chave na narrativa que acompanhamos num dos melhores telediscos dos Radiohead. Realizado por Jamie Thraves, cineasta com algum trabalho em cinema e, sobretudo, aventuras várias pelo mundo dos vídeos musicais (trabalhou entre outros com Roisin Murphy, Blur ou Coldplay), Just foi a sua primeira obra. Numa rua londrina (em concreto um espaço perto da Liverpool Street station, em Londres), um homem caminha e acaba por se deitar no chão. Os transeuntes passam, troperçam e perguntam-lhe o que se passa. De uma janela o vocalista e demais elementos dos Radiohead espreitam a cena. As legendas, que acompanham o teledisco, vincam a ideia de uma narrativa que assim avança, independentemente da letra e melodia da canção que ao mesmo tempo vamos escutando. A dada altura o homem pergunta se querem mesmo que explique porque está no chão. E antes de revelar perde perdão pelo que vai dizer, adivinhando-se uma qualquer calamidade. As legendas então deixam de aparecer. Vemo-lo movendo os lábios... Mas não lemos. Nem escutamos. Os rostos dos que escutam ficam gélidos... E o plano seguinte mostra que, à volta do homem, quem o escutou a ele se juntou e está, também agora, deitado no chão.

Just é um soberbo exemplo de teledisco narrativo. Contudo, em vez de optar pelo caminho fácil que seria a transformação em pequeno guião da letra, toma antes a canção como banda sonora de uma história. Como se de uma curta-metragem se tratasse.

O disco

Os Radiohead eram, nos anos 90, uma das mais aclamadas bandas de guitarras no Reino Unido. Antes da reorientação de rumo (por terrenos mais electrónicos) que chegaria com Kid A no ano 2000, procuravam a exploração de formas mais clássicas da canção pop/rock, atingindo resultados notáveis nos álbuns The Bends (1995) e OK Computer (1997). É do alinhamento do primeiro destes dois discos que Just foi retirado para, em Agosto de 1995, ser editado no formato de single. Como as demais canções do álbun, Just é uma canção de forma clássica, essencialmente assente sobre um poderoso trabalho de guitarra e, como em outros instantes dessa etapa na obra dos Radiohead, um tema feito de contrastes entre fluxos de intensidade eléctrica e episódios de mais discreta placidez. 

Nuno Galopim

Born Free, de M.I.A.
Realização: Romain Gavras
2010


Escrito pela própria cantora e realizado pelo cineasta francês Romain Gavras, “Born Free” nada mais é que uma alegoria histórica e política com a incómoda capacidade de percorrer o absurdo de uma existência. Filmado a partir de um estilo documental, seguimos uma unidade militar SWAT que têm a missão de capturar pessoas do sexo masculino que são… ruivos. Aludindo ao episódio intragável do Holocausto nazi, M.I.A confronta-nos, primeiro, com a necessidade de associar ao poder a noção de discriminação e preconceito, e segundo, com a capacidade de nos rebelarmos contra a autoridade. Violento e perturbantemente cómico, este autêntico filme encara-nos com a matéria de que somos feitos.

2 comentários:

  1. Muito bom como sempre! Já agora sugiro que dês uma olhadela ao Coffee And Tv dos Blur e ao All Is Full Of Love da Björk ;)

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  2. sabes que o romain gavras é filho do costa gavras, right? e quando à curta metragem que é o videoclip da M.I.A. o mesmo autor filmou uma longa, protagonizada pelo Vincent Cassel com a mesma temática (ou aproximada) do video. o filme tem algumas imagens bonitas mas nunca chega a concretizar de forma eficaz a sua mensagem, mas não deixa de ser interessante. ;)

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