domingo, janeiro 10, 2010

:As noites de Cabíria



Quando “As Noites e Cabíria” estreou, dois anos após o bem elogiado “A Estrada”, Fellini defrontou-se uma receptividade mista no que tocou à agradabilidade da protagonista e do tema em questão. Hoje, é das películas mais bem reconhecidas do cineasta italiano - e razões não faltam para isso defender.
Roma, anos 50 - Cabíria é uma prostituta ingénua mas determinada a esconder os seus sentimentos, procurando nas viagens nocturnas pela capital italiana, o amor verdadeiro. E assim se apresenta o mote para toda uma narrativa fascinante. Enquanto nossa protagonista, brilhantemente protagonizada por Giulietta Masina, Cabíria apresenta-se como alguém plenamente ingénua e algo perdida numa infantilidade neoténica, iludida nos romantismos sub-reptícios dos homens com que relaciona. A sua personalidade vincada, defeituosa (humana!) e rude é acentuada em função das suas desilusões e mágoas, mas são, sobretudo, os seus amigos que melhor conhecem o coração de Cabíria e conhecem a sua pureza. Posso, sem sombra de dúvida, remeter a experiência que foi visualizar o mundo feminino desta obra para os trabalhos de Almodóvar, que também lidou com a prostituição em “Tudo sobre a minha Mãe”. Já este, “As Noites”, é, contudo, apesar de um filme rodeado numa atmosfera de brincadeira, música e humor naturalmente subtis, uma película que lida, através de uma sensibilidade notável, com a rejeição, a dor da não reciprocidade amorosa e a mágoa e o medo da solidão. É, pois, uma película que lida com a depressão de uma forma nunca antes vista - há uma certa altura em que Cabíria entra em nós e, se a rejeitamos inicialmente como ser humano, num dado momento já a compreendemos e com ela sofremos. Não é, como já se viu, uma história de amor. É uma história de sobrevivência, altamente depressiva mas com a mensagem de que, apesar de todas as tréguas, vale sempre a pena tentar e iluminar a esperança.
Federico Fellini transpõe para o grande ecrã um guião difícil de se lidar, mas fá-lo com uma competência tal que imagens como a de Cabíria no palco do hipnotista ou na recta conclusiva da película ficam cravadas na mente do espectador mais deliciado, como eu o fui, durante duas deslumbrantes horas. Por fim, resta-nos salientar o facto de que poucos finais, na história do cinema, poderão igualar o grandiosíssimo de “As Noites de Cabíria”.
9/10

4 comentários:

  1. Ainda não vi nem sei se verei este mês. Muitos apontam-no como obra favorita do realizador. Anseio pela crítica.

    Cumps.
    Roberto Simões
    CINEROAD - A Estrada do Cinema

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  2. Curioso que quem conhece a fundo a obra de Fellini, também costuma apontar este filme como seu favorito.

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  3. Masina era uma diva, na sua aparente ingenuidade e fragilidade.
    Mas eu gosto mais de "La Strada".

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  4. Roberto e Tiago,

    não é o meu preferido mas é um excelente filme - tem dos melhores finais de sempre.

    O Homem,
    verei hoje A Estrada. Espero adorar ;)

    Abraços

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