domingo, março 09, 2008

"Um Amor Feliz", David Mourão-Ferreira

Um escultor à beira dos sessenta anos, uma estrangeira duas décadas mais nova que ele. Além da diferença de idades, ambos estão casados - ele com uma pediatra, ela com um homem poderoso, mas com quem tem pouca intimidade. Os dois conhecem-se num jantar de boas-vindas a um casal seu conhecido e começam a encontrar-se furtivamente, no atelier dele. São estes, simplificando, os elementos que servem de base à história deste romance de estreia (no género) de David Mourão-Ferreira.
"Um Amor Feliz" foi considerado, aquando da sua publicação em 1986, pelo seu autor como sendo "um cântico de amor e de paixão erótica; uma sátira política a certa nova sociedade portuguesa; um romance do romance em que se vêem acareados o narrador e o autor; um ajuste de contas comigo mesmo".
Ora, em relação ao cântico de amor e de paixão erótica, essa é uma boa descrição para a obra. Ao longo das cerca de 300 páginas do livro, vão-nos sendo narrados os desenvolvimentos do romance entre o narrador - cujo nome, "Fernão", só descobrimos perto do final - e Y, uma mulher de 36 anos que ele conhece no tal jantar ao longo do ano anterior. Pelo meio, conhecemos ainda outras personagens, como a mulher do narrador, com quem ele mantém uma relação distante; Floripes, a mulher que trata das limpezas do atelier, responsável pelos diálogos (ou, atendendo à natureza da personagem, será melhor dizer monólogos?) mais engraçados da obra; a filha dela, Zu, de quem falarei mais à frente com mais detalhe; a mãe do narrador, agora num lar com alzheimer; a mulher a quem o romance é dirigido.

Em primeiro lugar, e antes que estejam a pensar que a mulher se chama mesmo Y, deixem-me clarificar esse ponto: logo no início do livro, é-nos expressa pelo narrador a vontade de não divulgar o nome da personagem por achar que não é isso o que mais interessa; diz-nos também que, pelo simples facto de lhe atribuir o nome de Y, já a está a tornar diferente do que ela realmente é. Em relação à personagem em si, é-nos caracterizada fisicamente, na maior parte das vezes; quanto à sua psicologia, normalmente são as suas acções que nos permitem caracterizá-la. É um pouco inibida, a início, devido ao casamento em que se encontra - ficamos a saber inclusivamente que ela e o marido já não praticam relações sexuais há anos -, mas mostra-se, na maior parte das vezes, simpática e é alguém de que passamos a gostar com facilidade.
Posto isto, falemos então da simbologia de Y e Zu. Por várias vezes na obra, o narrador menciona uma personagem do passado - Xô -, com quem ele tivera uma relação no passado. X, Y, Z. Xô representa, então, para o narrador, o passado, Y representa o presente e Zu, a filha da Floripes de 24 anos, poderá representar o futuro, como todos os que leram sabem. Assim, não será muito descabido concluir que talvez tenha sido este o objectivo do autor ao pôr os nomes destas três personagens com aquelas iniciais. Já em relação a estas, temos também a mulher do narrador, que é talvez a única figura que pertence tanto ao passado como ao presente e que continuará a pertencer ao futuro.
A escrita do livro é acessível e fácil de compreender; tem a vantagem de não nos maçar com grandes descrições - não que eu não goste, mas também não sou propriamente apologista de meia página dedicada a descrever um dado lugar ou personagem - e é directa. Gostei particularmente dos diálogos, bem construídos, e que nos mostram como as personagens se relacionam entre si, como neste excerto de uma conversa entre o narrador e a mulher, no capítulo 28:

o“(…) - Nesse caso vou banquetear-me, desculpa lá o sadismo, em qualquer restaurante de Cascais.
- O sadismo está desculpado.
- Não me posso demorar. Já é mais tarde do que supunha.
- E levas essas calças? Não me digas que vais com essas calças…
- O que têm as calças?
- Estão cheias de nódoas.
- Ah!... Não tinha reparado.
- E além disso amarrotadas. Parece que andaste de joelhos a cumprir alguma promessa.
- Enganas-te. Fui…
- Não estou a querer saber aonde é que tu foste.
- Mas eu estou a querer contar-te. Fui dar uma volta. Espairecer até ao campo.
- Acho lindo. Muito bucólico.”
Quanto às descrições, como disse, não abundam, e normalmente dizem respeito ao vestuário das personagens, como esta:
"O mesmo vestido, leve, num vivo tom de verde, não se confunde todavia com o de nenhum dos outros verdes que a rodeiam: antes com todos se harmoniza, como se fosse o verde que ainda ali faltava."


Já quanto à crítica social de que o autor fala naquela frase, ela está presente no livro de forma satírica. É-nos descrito o contexto político da época - uma sociedade pós-25 de Abril -, falando-nos da forma como as pessoas - ou, mais propriamente, o narrador - via aqueles ligados à política, como neste excerto:
"De regresso ao meu caldeirão, mal-humorado, e olhando de novo aqueles oligarcazinhos de meia tigela, que bebiam e comiam de tudo com tão boa boca, avidamente metidos até ao gasganete em negociatas de batatas ou de batotas, em tráficos de terrenos ou de terrores, acudiu-me a conclusão de não ser por acaso que"poder" e"podre", em português, se escrevem fatalmente com as mesmas letras."

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No início, mencionei que a mulher a quem o livro se dirige. A verdade é que "Um Amor Feliz" é um extenso relato dos acontecimentos que preencheram o ano anterior dirigido a uma amiga do narrador - da qual nunca chegamos a saber o nome -, que, também ela mais nova que ele uns vinte anos, com ele cria uma forte empatia nos diversos encontros entre o seu marido e a mulher dele, ambos colegas de profissão. Ela é uma autora de poesia erótica e mantém uma relação romântica com um escritor famoso. Por falar dela, devo então apontar o aspecto que, pessoalmente, menos me agradou no livro: a maior parte das personagens principais é adúltera ou, então, há indícios de adultério. Quanto a vós não sei, mas este é um tema que me faz alguma confusão, retratado no contexto histórico dos nossos tempos, onde, contrariamente ao que se passava há alguns séculos, não há qualquer obrigatoriedade a permanecer num casamento. Contudo, neste aspecto, o livro ganha pontos ao mostrar que pelo menos o narrador não está satisfeito com uma relação clandestina e que espera poder viver com a Y.
Em conclusão, posso dizer que esta foi uma obra da qual gostei muito. Começa muito bem e acaba de forma perfeita, com um final meio em suspenso. Apesar de, lá para o meio, haver algumas partes menos bem conseguidas, li tudo em dois ou três dias. Recomendava este livro por, apesar de ser uma história romântica, nunca ser "lamechas" ou aborrecido. Há sempre algo que nos prende e que nos faz continuar. Um grande romance, sem dúvida.

sábado, março 01, 2008

Sonhos didáticos?

Não é só em Portugal que os alunos já não sabem o que é uma aula. Mas isso, todos sabemos. O que não devem saber é que agora os alunos até se acham no direito de dormir nas aulas. Penso que a ministra devia começar então a ir à Moviflor ver umas caminhas em saldo.
Vou dar-vos um exemplo: um aluno, numa escola americana na cidade de Danbury, no estado de Connecticut, processou a escola por ter sido acordado enquanto dormia na aula. À primeira vista parece absolutamente ridículo (e é) mas a aluna argumenta: como tem problemas auditivos, a pancada que a professora deu na mesa para a acordar causou “danos muito severos no seu tímpano esquerdo”.
Tudo bem que o aluno deve reclamar os danos sofridos... mas não quando a culpa é sua. Dormir nas aulas? Pensava que um aluno deveria estar nas aulas para ir buscar matéria para realizar os testes e ser alguém, no futuro. Mas cada vez mais os alunos pensam que vão às aulas fazer um favor aos pais e aos professores. Será que não percebem que os pais é que lhes estão a fazer um favor em deixá-los ir às aulas? Antigamente, quando a escolaridade não era obrigatória todos queriam frequentá-la, agora que é obrigatória ninguém quer. Lá está a velha história de tirar a papa aos bebés para finalmente eles a quererem comer.
Era fazer-lhes o mesmo.

sábado, fevereiro 23, 2008

Terror nas Montanhas 2

"Saw 2", "Hostel Part: 2" são exemplos de sequelas que conseguiram manter (e, até, superar os originais) em termos de qualidade. No primeiro caso, foi mantido um dos escritores no original, apesar de um outro realizador - Darren Lynn Bousman - ter dirigido o projecto; no segundo, Eli Roth voltou a ocupar o espaço de realizador e argumentista. No final, o resultado conseguiu ser bastante positivo. Em relação a este "The Hills Have Eyes 2", o realizador do remake the 2006 preferiu ficar fora do projecto, dando lugar a Martin Weisz na realização e a Wes Craven (o homem por detrás do original de 1977) e a Jonathan Craven na escrita do argumento. E se pensavam que esta mudança poderia ser positiva...


... Enganaram-se. Alexandre Aja é um prodígio do terror moderno (quem viu o remake e "Haute Tension" sabe do que falo) e, apesar de compreender a escolha dele em não se envolver nesta sequela - seria um passo atrás na sua carreira, afinal -, fazê-la sem ele foi um erro crasso. O argumento, da autoria de Wes Craven e do seu filho - escrito num mês - é fraco, não explica - a menos que achem aquelas linhas introdutórias alguma espécie de explicação - o que aconteceu aos sobreviventes do primeiro, está repleto de clichés, maus diálogos e personagens estereotipadas. É claro que, se o argumento contém tantas falhas, o resto do filme sofrerá inevitavelmente.



O filme começa logo com uma cena bastante intensa a envolver um parto - um pouco semelhante com aquela que inicia "Texas Chainsaw Massacre: The Beginning" (7.5/10), mas mais repugnante -, no qual nos é explicado o porquê de os mutantes terem uma certa tara por violações (novamente, quem viu o remake sabe do que falo). Sim... pensavam que eles violavam mulheres - aparentemente - indefesas por prazer? Nada disso! O seu objectivo, como nos é repetido - desnecessariamente - várias vezes ao longo do filme é procriar! Infelizmente para nós - e para a grávida em questão -, o bebé morre à nascença. A seguir, uma cena semelhante à do remake e conhecemos então as personagens principais, um grupo de soldados - bastante inexperientes, ou estúpidos, cabe-vos a vós decidir, julgando as suas acções ao longo do filme - sobre os quais pouco ficamos a saber: há o mexicano, há uma que tem tatuada no braço o nome do filho, há outro que faz piadas, há aquele que é contra a guerra e é gozado pelos outros, enfim, nada de novo. Também, não é isso que importa a este filme, desenvolvimento de personagens. O que lhe importa realmente é as death-scenes e os confrontos que se vão sucedendo entre soldados e mutantes, agravados quando uma personagem principal decide, após o ataque de um mutante, "aliviar-se", afastando-se dos outros sem os avisar, e é capturada por um mutante que, tal como os camaleões, detém a distinta capacidade de se camuflar - falarei disso mais à frente - sendo de imediato levada para dentro das grutas onde a seita vive. Cabe aos outros - sem a ajuda do seu general, que entretanto morre no calor de um confronto - salvá-la, mas acho que não é difícil adivinhar que tudo acaba por correr bastante mal a todos.



Mencionei no parágrafo anterior as death-scenes e, quanto a elas, pouco há a dizer. A body-count do filme é enorme, mas isso não quer dizer que as personagens morram de formas originais, dramáticas, tensas, ou qualquer coisa do género. Não, a maior parte morre baleada, ou caindo de uma ravina, ou simplesmente desaparecendo arrastada para as grutas. Mas descansem aqueles que pensam que não há gore no filme: há, e bastante, talvez mais do que no primeiro. E devia ser esse o objectivo tanto do realizador como dos argumentistas, mas só isso não é, pelo menos para mim, suficicente. Lá para o meio do filme, tentando combater a mediania com que as personagens vão sendo despachadas, foi incluída uma violação - nojenta - que em nada se compara à do remake, onde havia uma ligação com a personagem e torcíamos para que escapasse. Aqui, apenas assistimos, enojados pelo liquído - estranhamente semelhante a esperma - que teima em sair da boca do mutante que atemoriza a mulher, mas pouco mais. O grande problema é que as personagens são todas tão unidimensionais que não há qualquer uma que nos faça sentir pena do seu destino.


Para além de não terem personalidades realistas - talvez o que é contra a guerra, Napoleon, se perfile como a personagem principal, quer pelas atitudes, providas de um grau de inteligência ligeiramente superior à dos seus comparsas, quer pela sua caracterização -, as personagens estão continuamente a cometer decisões idióticas que só as arrastam para situações mais complicadas. Dispersam-se uns dos outros - propositadamente -, vão explorar o terreno sem as armas, tentam fugir sozinhos, não se agrupam - como seria de esperar, dado que são soldados - e tentam aniquilar os inimigos com alguma estratégia - excepto naquela cena em que duas personagens servem de isco para um mutante -, enfim, nada. A meio do filme - ou mais cedo - já se torna fácil saber quem irá sobreviver e quem irá sucumbir às mãos dos mutantes.

Ah, falando em mutantes, não esperem criaturas muito assustadoras, mas sim imbecis. Sim, a maquilhagem fá-los parecer minimamente perigosos - principalmente aquele parecido com um camaleão -, mas as suas atitudes são incrivelmente previsíveis e não muito inteligentes. Eles limitam-se a lançar-se aos protagonistas - que, por burrice, vão gastando munições desnecessariamente ou vão perdendo as armas - e normalmente ganham o confronto devido à sua força física. Apesar de tudo, apenas um mutante consegue, em certa cena, criar um alvoroço enorme entre o esquadrão de soldados!

Depois de uma cena em que três personagens principais se vingam de um dos mutantes - sim, são precisos três, e admirei-me como não foram todos mortos ali mesmo -, o filme acaba com um cliff-hanger bastante semelhante ao do remake, deixando a porta aberta para uma sequela. "The Hills Have Eyes 2" foi, como vêem, uma desilusão tremenda, e em nada se compara ao remake de 2006, bastante superior. Felizmente para todos, o filme pouco rendeu na bilheteira, limitando trementamente as hipóteses de uma terceira parte alguma vez ser feita!

domingo, janeiro 20, 2008

:Fabuloso


Noutra palavra, perfeito. É como descrevo "Expiação" (Atonement) o filme que ontem fui ao cinema ver. A realização, o argumento, a banda sonora, a cinematografia, o elenco. Perfeito. Querem saber qual é o meu filme preferido, actualmente? Saiam de casa, vão ao cinema, e vejam "Expiação".

quinta-feira, dezembro 27, 2007

Pecados Íntimos (livro & filme)

"Little Children" (ou "Pecados Íntimos", título português que a mim me parece muito melhor adequado à história e, por isso mesmo, se não se importarem, vou tratar o livro/filme por ele) foi um livro primeiramente lançado em 2004, do autor Tom Perrotta, que recebeu aplausos da crítica literária e se tornou um best-seller. Devo admitir que, se não fosse a adaptação para cinema, que estreou ano passado e que conta com Kate Winslet, Patrick Wilson e Jennifer Connelly nos papéis principais, muito provavelmente não pegaria sequer no livro. "Leia o livro, veja o filme." - esta frase começa a já ser comum nas capas das reedições de livros aquando da estreia da sua adaptação cinematográfica, mas a verdade é que esta foi a primeira vez que fiz as duas coisas. O resultado? É só continuarem a ler...!

Acreditem, é preciso muito para que um filme ou livro me consiga fazer torcer para que uma história romântica entre dois adúlteros (que sabem a condição de ambos desde o início) acabe bem. Foi por isso que, de início, quando lia o livro, estava um pouco reticente em relação ao que acharia da história. Comecei, contudo, a virar as páginas e a descobrir uma história rica, bem desenvolvida e estruturada, interessante, cativante e, acima de tudo, surpreendente. Foram precisos apenas alguns dias para o ler, e isso é algo bastante positivo num livro - também, não se alarmem, o livro tem cerca de 350 páginas, apenas.

Basicamente, aqui encontramos Sarah Pierce, uma mãe na casa dos trinta cuja vida passada entre a piscina municipal, o jardim-de-infância, os passeios ao final de tarde e a lida da casa há muito a deprime. Além de tudo isso, ela tem de aguentar a companhia de três outras mães, de nomes Mary Ann, Theresa (a que mais se assemelha a uma amiga, das três) e Cheryl, que não estão muito melhor que ela na vida - como vemos pelas suas conversas, todas estão "cansadas", sendo que nenhuma sente complexos em admitir que adormece durante o sexo, ou que está cansada do marido e um casamento à beira da ruína; Todd Adamson, por sua vez, é um homem de trinta e um anos que, por ter reprovado duas vezes no Exame de Ordem, se vê na posição que, para todos os efeitos, seria a sua mulher a ocupar: a de ficar em casa a tratar do seu filho, Aaron, enquanto estuda para a terceira tentativa em passar o tal Exame. Também ele se vê preso num casamento naufragado na monotonia do dia-a-dia, sendo que a sua mulher Kathy, realizadora de documentários, é, para ele, alguém distante e frio, alguém que rouba a atenção do filho para si, e que apenas serve para o lembrar do insucesso da sua vida profissional. Estas duas personagens são o casal à volta do qual outras várias se englobam, mas fiquem descansados os que pensam que esta é mais uma daquelas histórias lamechas sobre um casal que não consegue ficar junto: existe, à mistura, uma trama sobre um alegado pedófilo que chegou agora à cidade, Ronald James McGorvey, e vários outros dramas familiares que envolvem outras personagens - como o marido de Sarah ou Mary Ann - e que resgatam sempre a história da melancolia em que se podia instalar.

A certa altura, várias personagens estão a discutir sobre o livro "Madame Bovary" (uma cena muito interessante e irónica, pois os paralelismos com a realidade são muitos, a tal ponto de chegarmos a pensar se Mary Ann não dirige os seus argumentos a Sarah e não à protagonista do dito livro, uma adúltera convicta) e eis que Sarah diz, em prol de Emma Bovary: "A questão aqui não é a traição em si. É a necessidade de ter uma alternativa. A recusa da tristeza.", argumento esse que pode ser também utilizado em prol dela mesma. Este é apenas um dos exemplos que podemos utilizar para considerar "Pecados Íntimos" um livro de estudo de personagens, ora reparem nelas. A maioria - se não todas - está mergulhada no passado, presa a uma realidade alternativa. Tomem o caso de Larry, que vive perseguido por um incidente que acabou a sua carreira logo aos 30 e poucos, ou do pedófilo, que, a certa altura, em conversa com a mãe, admite que gostava de conseguir namorar mulheres da sua idade, mas que simplesmente não consegue. Há muito mais aqui do que uma simples história romântica.

Pessoalmente, adorei o livro. Começa muito bem, apesar de haver umas 20 ou 30 páginas lá para o meio que são um pouco paradas mas as últimas 100 páginas são realmente muito boas e conduzem a um final excelente, soberbo, brilhante, metafórico, realista, enfim, um final que me impressionou bastante pela sua imprevisibilidade e que termina o livro em grande. Recomendo (claro) a toda a gente, mas uma nota para os mais susceptíveis: o autor não se poupa a utilizar palavrões nos diálogos - ou mesmo na narração - e, se acham a palavra "preto" um insulto racista, então vão ser várias as vezes em que se vão chatear pois, como disse, o autor não tem complexos e encara a realidade de forma crua e verosímil, chegando mesmo a ser irónico de forma genuína no final, que, se escrito de outra forma, não seria a mesma coisa.

Filme


Falemos, então, do filme (achavam que me esquecia?!), que, como já disse, conta com actores excelentes no elenco principal e tinha tudo para ser uma fiel adaptação mas que, infelizmente, me desiludiu - e eu que ia com boas expectativas, pelas opiniões que já tinha ouvido! A história, pode dizer-se, é a mesma, pelo menos nos traços gerais. As personagens importantes estão quase todas lá, e a estrutura do enredo continua sólida e interessante, apesar de mais calma e arrastada. A primeira hora de filme, mais coisa menos coisa, está bem conseguida, tentando retratar, dentro de possível, aquilo que vimos no livro, com os maiores detalhes. Contudo, na segunda hora, é o descarrilamento total em direcção a um final hediondo, que nada tem a ver com o livro. É agora que peço a quem não queira saber detalhes cruciais da história que não leia o resto do texto. Foram avisados!

Foram várias as vezes que carreguei o botão "pause" do DVD para, por uns segundos, me questionar sobre o que via. São várias as coisas que me fizeram pensar, e que me aborreceram - para não dizer outra coisa. Por exemplo, como é que Kathy, no filme, é tratada quase como uma figurante, tendo apenas uma ou outra cena de destaque? No livro, a cena em que ela pergunta a Todd (ou Brad, no filme, não percebi o porquê de mudarem o nome dele ou o nome do local onde Ronald vive!) por Sarah é inesperada e contribui para o drama da história - aqui, não tem nem metade do efeito. E nem me façam falar do fim-de-semana que ela e Todd passaram na praia, que muito valeu à história e ajudou a fundamentar as acções futuras de Todd - não me esqueço daquela fala de Kathy, quando ela lhe pergunta se ele olha para Sarah como apenas um romance de Verão, que diz "Já agora, deixa-me dizer-te uma coisa. Caso ainda não tenhas reparado: o Verão está a acabar". Quanto ao drama pessoal da personagem de Larry com a mulher, podem esquecê-lo. À parte de uma menção numa conversa, a mulher dele não tem qualquer papel na história, por isso podem esquecer a cena da Igreja, por exemplo - e, com isto, muita carga emocional da história foi desperdiçada. Bertha, a melhor amiga da mãe de Ronald - May -, também foi eliminada. Não que a personagem tivesse uma importância de outro mundo, porque a história, ao contrário do que se passava no caso anterior, podia ser contada sem ela, mas é sempre estranho a ausência dela, especialmente na última parte do filme, onde ela ganhava um pouco de destaque na cena do hospital. Richard - o marido de Sarah - foi também desperdiçado pelo filme, ao ponto de que, na última parte, é completamente ignorado e deixa o final ainda mais vazio pois... que é feito dele? No livro, como sabem, ele parte para a Califórnia para um encontro do Clube de Fãs da Slutty Kay - esta foi uma boa storyline -, e liga a Sarah a dizer que o casamento deles está acabado. No filme nada disso acontece, pelo que, em relação à tal Kay - que, afinal, se chama Carla -, só a cena em que Sarah apanha o marido com as cuecas dela e a masturbar-se importa. Já em relação a Mary Ann, podem esquecer também a sua intervenção no final, já que o filme não se dá ao trabalho de gastar uns cinco minutinhos de forma a poder incluí-la - a cena com o marido, em casa, e posteriormente no parque infantil foi também esquecida. E que dizer do dia que Todd e Sarah passam na praia, enquanto ele se balda ao Exame? Aqui nem aparece, para choque meu. Pior: na contra-capa do DVD existe uma foto deles os dois na praia a beijar-se, levando-nos a pensar que a cena acontece, quando nem 1 minuto lhe é dedicado! Claro que, com isto tudo, ninguém podia esperar um final fiel ao do livro - se fosse, eu até perdoava um pouco a ausência de Bertha e o mau desenvolvimento das personagens de Richard e Kathy -, pelo que o resultado é, para quem adorou ler, desastroso e deturpado. Se havia um pequeno twist, no livro, na cena em que éramos levados a acreditar que Ronald ia atacar Sarah, aqui nada disso acontece, já que a cena foi incluída mas deturpada; por outro lado, Mary Ann foi eliminada, como já disse; Larry faz as pazes com Ronald, sim, mas nada com a mesma carga dramática como no livro; Sarah e a filha têm um final diferente também; em suma: nada da união entre ex-polícia, adúltera, pedófilo e bisbilhoteira, numa roda a fumar, em perfeita harmonia, como no livro, e lá se foi a metáfora que tanto apreciei - já para não falar que o final trata a relação de Sarah e Todd (ou Brad) como se não fosse mais que uma sub-narrativa, o que é chocante. Por outro lado, o filme acrescenta uma cena em que somos levados a acreditar que Jean tomou conhecimento do caso entre Sarah e Todd para depois não lhe dar desenvolvimento. Confesso que fico a pensar qual a sua utilidade, já que, no livro, nada de vagamente semelhante acontece, e só nos leva a criar uma antipatia para com Jean.


Contudo, o filme tem coisas boas. Ver Kate Winslet e Jennifer Connelly, duas das minhas actrizes favoritas, juntas no ecrã é sempre algo muito bom, por exemplo; a realização é boa, e conta com bons detalhes - vejam a cena na piscina que retrata o passar do tempo; a história continua concisa e com lógica na sua estrutura, mas mais pobre; a cena do encontro entre Sheila e Ronald está mais chocante aqui. Porém, no final, sabe a pouco, e o pouco que é, desilude. O filme ainda tenta criar tensão, desnecessariamente, no fim, ao fazer a filha de Sarah - inexplicavelmente -desaparecer por momentos, mas isso não chega. Não vou ter a presunção de dizer o que devia ficar e o que devia ser retirado do filme, apenas digo que não me importava que ele fosse vinte minutos mais longo, desde que incluísse muita coisa que foi descartada. E isso, sim, talvez o elevasse ao nível do livro.

segunda-feira, dezembro 17, 2007

"Orgulho e Preconceito", Jane Austen



Com uma edição de bolso de apenas 278 páginas, numa edição - com imperfeições - da Europa-América, mentiria se a dissesse que a sua pequenez não me cativou pois, apesar de não ser um requisito indispensável, o tamanho de um livro é, para mim, um factor a ter em conta - pelo que não advinho horas muito prazerosas diante das cerca de 800 páginas d'"Os Mais", livro que terei, obrigatoriamente, de ler para a disciplina de Língua Portuguesa -, já que nem sempre existe disponibilidade para a leitura. Porém, como começava agora as férias, senti que tinha tempo suficiente e o livro revelou-se de tal forma interessante que o acabei em cinco dias.

Bem, mas o que dizer sobre a obra? Antes de mais, quero falar das características que me levam a considerá-la um romance histórico e que são fáceis de adivinhar: o grau com que nos são retratadas as paisagens, quer urbanas, quer rurais e a forma como nos é descrita a forma de pensar e agir da sociedade de então, esta última originando, indirectamente, o título do livro pois, ao longo da história, é-nos muito falado do orgulho dos privilegiados e do seu preconceito em relação às classes inferiores a si. Ficamos, então, de forma geralmente irónica, a saber como a sociedade se regia no início do século XIX, data em que este livro é publicado pela primeira vez, coisa que me agradou.

Quanto à escrita, como já salientei, é muito boa. Sempre atenta aos detalhes, mas sem aborrecer, a escritora não perde tempo e, a cada capítulo, existem sempre novas situações a acontecerem. Devo, contudo, denunciar a forma rotineira como grande parte da história se passa pois, se por um lado nos mostra quais eram os divertimentos das diferentes classes, por outro começa a ser previsível ao ponto de sabermos que, ao final de um capítulo, um novo jantar, almoço, baile ou qualquer cerimónia do género será planeado. É por isso que, tendo consciência desse mesmo aspecto da história, Austen astutamente introduz, com grande regularidade, novas e diversificadas personagens na história, evitando assim a repetição que se poderia, a alguma altura, instalar e tornar a leitura enfadonha. Se bem que também essa ideia acaba por ter uma outra face pois, um pouco mais à frente na história, chega a ser confuso lembrar os laços que unem as muitas personagens e as relações entre si.

Em relação à história, o romance apresenta-se com o mote de que "é uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro na posse de uma bela fortuna necessita de uma esposa" e alonga-se pelas suas quase três centenas de páginas a dar-lhe uma conclusão. Não vos querendo estragar muito a experiência, o enredo começa com a chegada de um jovem rico - o Sr. Bingley - à vizinhança, e somos levados a crer que será ele o par amoroso da protagonista Elizabeth Bennet, a segunda de cinco irmãs, coisa que não se sucede, pormenor que apreciei pois foi um bom... twist, digamos, para a história já que seria um cliché se assim fosse. As peripécias que se vão sucedendo à volta das duas famílias principais - Bennet e Bingley, precisamente - são muitas e quase sempre muito interessantes, apesar de, claro, haver aquele aspecto rotineiro da história. Bem construída, a narrativa oscila entre o drama e o romance, mas sempre com um toque de comédia lá para o meio, pelo que são várias as vezes que nos enternecemos e que torcemos pelas personagens, bem como são muitos os momentos em que nos rimos com elas - e, neste campo, nada me fez mais rir que a dinâmica da relação dos pais de Elizabeth. Só tenho é a lamentar a forma como algumas personagens são descartadas da história, como por exemplo Mary, uma das irmãs de Elizabeth, que, comparada com algumas das outras, é quase uma figurante ao longo de toda a história, e nunca tem oportunidade de se afastar da unidimensionalidade que a caracteriza.

Se, ao fim de umas meras vinte páginas, este livro já se candidatava a ser um dos meus favoritos, quando o fechei pela última vez foi com a certeza de que era o meu favorito - não sou uma pessoa com uma lista de livros lidos infinita, mas já li alguns autores e posso dizer que, perante a monumentalidade deste livro, um "As Palavras Que Nunca Te Direi", de Nicholas Sparks, empalide, quer pelo seu cariz melodramático, quer pela sua natureza fútil, por completo - tanto que, passados quase 200 anos, ainda há pessoas a ler um, enquanto que duvido que o mesmo aconteça com o segundo. Há qualquer coisa na história, aliás, há muita coisa, que nos faz olhar para "Orgulho e Preconceito" com outros olhos, e não há como não sentir uma certa nostalgia perante o espaço temporal retratado.
Diria que é de fácil leitura, e só tenho mesmo a queixar-me da teatralidade inicial dos diálogos. Li as últimas 170 páginas durante o dia de hoje e, sendo eu um leitor casual, que farão os que estão mais habituados! Acho que agradará a quem procure uma boa história romântica, mas não "lamechas" Quanto a mim, falta ver o filme.


P.S.: Obrigado, Isabel, por mo recomendares!