segunda-feira, maio 17, 2010

Muito bem,

Cavaco. Fez o que tinha a fazer.

domingo, maio 16, 2010

Solaris

Que há para além de nós, do contínuo espácio-temporal que prende cada ser humano à sua residência terrestre? Tarkovsky, com Solaris, a sua primeira aventura pela ficção científica, não ousa sequer responder a isto porquanto, tal como as personagens criadas, se apercebe da aparência presente na factualidade e segurança que julgamos ter da nossa existência e do nosso conhecimento concreto das coisas, acabando então por o rejeitar com veemência, assim como a curiosidade mórbida que nos afunda o pensamento.

Interessa ao mestre russo explorar, numa primeira fase, o sentimento do homem de ambição desmedida de alcançar e conquistar o espaço sideral e o grande e escusado salto que este pretende fazer à mascarada ignorância do mistério que é a sua essência vital, levando os cientistas astronautas a se depararem com o angustiante e imenso vazio que há no universo. Numa segunda fase, já aceite, com a acalmia e anti-positivismo necessários, a consideração de que não há possibilidade de saber muito mais, são tratadas as já conhecidas ideias que defendem o urgente recasamento do homem com a Natureza e a procura tranquila e pessoal da alma e dos verdadeiros desejos lá residentes (algo que dará mais ênfase no subsequente Stalker). Estão, por outro lado, bem salientes as considerações sobre a real e absurda postura do protagonista, representante da contemporânea humanidade, perante a mortalidade e o amor – é de forma implacável e cruel que este é posto ante a (im)possibilidade de a morte de alguém querido regredir, neste caso a da mulher que tragicamente perdeu na Terra. Nesta circunstância, fantasiosa e quase que disparatada, o cineasta, escondido atrás da divina e paradoxal transparência opaca do Oceano, estuda a reacção que temos quando nos encontramos frente ao desconhecido e ao que não é logicamente explicado pelo saber adquirido, investigando, de igual maneira, a forma como erradamente racionalizamos os sentimentos (o amor, particularmente) e como essa teorização alimenta a nossa zona de conforto interior. Assim sendo, chegamos a duas concludentes e cruas reflexões – a que sustenta a vivência dos momentos como algo de percepcionado e sentido intersubjectiva e intimamente, ainda que estes sejam colectivamente partilhados, e a que defende o conhecimento (da existência, da identidade, do amor, do espírito e do mundo) alcançado apenas por via da libertação do considerado não-conhecimento (científico, rígido e “universal”). Apresentadas estas conclusões, que são, como seria de esperar, recusadas e ridicularizadas pelos restantes figuras intervenientes nesta parábola, são tratadas, por fim, a incomunicabilidade moderna da humanidade (apresentada, de forma mais edificativa, pela longa sequência do trânsito no Japão, captando, com angustiante sensibilidade, as estradas e vidas que se entrecruzam de forma mecânica) e a moralidade que é, desacertadamente, imposta em cada sociedade. Tarkovsky, partindo do vislumbre dos “Caçadores na Neve” de Bruegel e da transposição para a actualidade, e partindo da firme convicção de que, no futuro, o homem se encontrará perdido no sentimento de vergonha (tal como é dito na obra), preconiza a utopia de uma nova sociedade – a que será construída, após um empenho deste em se descobrir e aceitar, baseada numa plena interacção harmoniosa com a floresta e com o outro, e no generalizado, fraterno e vivido (não racionalizado) sentimento de amor.

Solaris é, sem sombra para dúvidas, uma obra-prima do cinema e das melhores do autor, sublime na sua estrutura formal e na forma como se é servido desta para atingir o transcendente, misteriosa na sua essência, como afinal o é a própria imensidão do universo e da nossa alma.

quarta-feira, maio 12, 2010

Arte & Deus

Na tentativa (escusada, já se viu) de não escrever nada a respeito da visita papal ao nosso minúsculo país, foram hoje realizadas, após a sua estadia e discurso no Centro Cultural de Belém, como podemos observar na fotografia de cima, perante centenas de reconhecidos artistas e intelectuais portugueses, algumas reflexões sobre a relação da Arte com Deus (esclareça-se: o todo-poderoso preconizado pela Bíblia), como esta aqui: E se a arte voltasse a aceitar Deus? O nosso Manoel de Oliveira não hesitou em afirmar, a título de exemplo, que os tipos de arte, como o cinema, estão “intimamente voltados para o homem e o universo, para a condição humana e a natureza Divina” (isto num contexto de discurso cristão, como ele frontalmente o assumiu). Nas restantes intervenções, incluindo na exercida pelo santo padre, podemos com facilidade encontrar dois pontos de encontro: o assumir de um divórcio entre a Igreja e a Arte (e, por conseguinte, a urgência de as voltar a unir), e de uma aparentemente necessária relação entre ambas, como se a verdadeira expressão artística tivesse sempre que envolver um lado com Deus (como a imagem cristológica que Tarkovsky procurara, quando vivo, nas suas obras). Será, portanto, no mínimo lógico julgarmos um filme crítico da religião e ateu como anti-filme, anti-cinema, anti-artístico – e então entramos no universo supostamente idílico, o da rejeição que presenciamos tão bem até o século XIX (com todas as perseguições, etc.). Há aqui toda uma enjoativa contradição que se prende, única e exclusivamente, na minha perspectiva, aos dogmas, também eles nauseabundos e paradoxais, que a Igreja Católica patrocina, sufocada nos seus próprios pecados, se esse é o termo que usam ainda, sufocada numa arte do passado, procurando na contemporaneidade a falsa salvação do abismo que tem caído nas últimas décadas. Essa contradição, se ignorada, poderá cair sob a ideia, poderosa e perfeitamente plausível, de que a arte, como o cinema, deverá procurar a cerne da condição do criador e da sua alma, reflexiva de uma humanidade que terá, isso sim com urgência, de deixar de procurar resposta e comodismo numa exterior e superintendente invenção que, no final de contas, é a sua mais misteriosa criação.

terça-feira, maio 11, 2010

Persona

Há dias, sobretudo nos que vão merecendo uma profunda introspecção, que me lembro da existência de um filme que, seguramente, se enquadra naquele género de obras que são capazes de mudar vidas, consciências e, como feliz e última consequência, identidades. É, pois, sobretudo sobre isso que discorre este magnífico, magnífico Persona, uma reflexão psicanalítica, única e imbatível sobre a individualidade do ser humano e a sua afirmação no meio social, a explosão do ego revoltado, o caminhar para um inconsciente recôndito e assombrado pelos fantasmas das mais essenciais questões da vida. Para além do mais (e para dizer algo que será sempre pouco para uma análise, posterior, pessoal e profunda, sobre a fita), é um tratado sobre a aparência versus realidade, a fusão de personagens e todo um universo bergmaniano verdadeiramente solipsista (apesar desta ideia estar implícita em vários momentos, sobretudo nos finais), dando a impressão, chocante e misteriosa, que tudo o que acabamos de ver não foi obra do mestre sueco, foi obra dos nossos sentidos, da nossa experiência pessoal e memória – que é, em última instância, aquilo que nos torna EU. Há, assim e de forma imprevisível, uma reviravolta que (con)funde o espectador como o actor, denunciando a persona que não o faz ser EU, mas fá-lo ser o falso mundo que o rodeia. Onde está, então, a nossa verdadeira existência, a pedra basilar da nossa alma? Neste experimento cinematográfico (do melhor que o cinema foi vendo em toda a sua história), verdadeiramente libertador (a qualquer nível, seja formal, narrativo...), a identidade não dá lugar para o colectivo – porque nós somos para nós, nós somos o universo que criamos, nós somos os falsos actores da peça de teatro, eterna e dilacerante, que Ingmar Bergman concebeu para atingir a totalidade do seu próprio EU, fugindo da sua persona com um magistral golpe de génio.

segunda-feira, maio 10, 2010

Nota de despedida (Rúben)

Quando se fala em "O Sétimo Continente", surgem-nos no pensamento os textos do Flávio, sinceras expressões do seu apreço pelo cinema, e da vontade de o compreender. Os méritos do blog são os méritos dele, os elogios que se tecem a este espaço nenhuma outra pessoa os merece. A boa escrita dele cativou leitores, o seu empenho e dedicação fizeram com que regressassem continuamente.
As minhas contribuições pouco mais foram que breves didascálias, e por me terem permitido partilhá-las estou grato ao Flávio e ao blog. Saio, porque devido a razões pessoais, não sinto necessidade de aqui continuar como colaborador. Não obstante isso, faço um balanço positivo da minha passagem por aqui, e este post não anuncia uma desistência - por cá permanecerei, apenas dando um passo atrás e ostentando a designação de visitante (nunca fui nada além disso, verdadeiramente). Porque "O Sétimo Continente" nunca foi uma viagem entre as três pessoas que o decidiram criar, mas entre todos os que o frequentam, penso que o Flávio não tem por que se sentir desencorajado. Um bem-haja a todos, e um grato reconhecimento do feedback que fui recebendo.