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quarta-feira, agosto 31, 2011

Um naufrágio na confusão do mar algarvio

Com a sua sexta longa-metragem “Cisne” prestes a estrear no Festival de Veneza e nas salas de cinema portuguesa, recordamos “Água e Sal”, um filme com tom intimista de Teresa Villaverde. Este artigo foi publicado originalmente no Diário de Notícias, no dia 26 de Agosto de 2011.
Fazendo parte da nova geração de cineastas que surgiu no final dos anos 80, Teresa Villaverde (nascida a 18 de Maio de 1966) que, ao contrário dos colegas, não estudou na Escola Superior de Teatro e Cinema, apresentou-se como um raro exemplo de persistência. Estreou-se, pela primeira vez, como actriz em À Flor da Pele (1986), escrito e realizado por João César Monteiro, e como argumentista em Filha da Mãe (1990), de João Canijo, que co-escreveu com o realizador, Oliver Assayas e Manuel Mozos.

Apenas um ano depois, assina aquela que seria a sua primeira longa-metragem: A Idade Maior (que escreveu e realizou), com Vincent Gallo, Maria de Medeiros e Joaquim de Almeida, e que reconstitui Portugal no início da década 70 antes da Revolução dos Cravos e em plena época de Guerra Colonial (tema querido por parte dos realizadores portugueses).

Mais tarde, Medeiros regressaria em 1994 no seu segundo filme, Três Irmãos. Depois de ter lançado, em 1996, a curta-metragem O Amor não me Engana para a televisão, Teresa Villaverde surpreendeu, dois anos depois, o público e a crítica com o desafiante e premiado Os Mutantes, que emana uma evidente preocupação social, debruçando-se sobre os habitantes de bairros marginais.

Foi no princípio do novo milénio, em 2001, que Villaverde decide apresentar aquele que considerou ser o seu filme mais livre: Água e Sal. Rodada em Cabanas, no Algarve, a sua quarta longa-metragem foi ao Festival de Cinema de Veneza (na secção “Cinema do Presente”, onde foi galardoada com uma menção honrosa) “como uma história normal, com uma mulher normal a quem acontecem coisas normais”, onde “às vezes passam nuvens”, segundo a própria sinopse.

Na verdade, esta é a história de Ana (a actriz italiana Galatea Ranzi, cuja voz é dobrada por Carla Bolito), a mãe de uma jovem criança presa a um casamento deteriorado com a personagem que Joaquim de Almeida interpreta. Durante uma viagem que o marido e a filha fazem, a vida da protagonista é consumida por um trabalho profissional e pelo encontro que tem com estranhas personagens: um desconhecido (Miguel Borges) que Ana salva de um acidente ocorrido perto da costa algarvia e que acaba por desejá-la; um jovem (Alexandre Pinto) que ama desesperadamente uma rapariga (Ana Moreira, que protagoniza Transe, o quinto filme de Villaverde) aprisionada pelo pai; a sua amiga Vera (Maria de Medeiros); ou o amante interpretada pelo cantor Chico Buarque, com quem Villaverde tem uma relação muito próxima.

Com uma fotografia interessante (assinada pelo director Emmanuel Machuel, responsável pela imagem de títulos como O Dinheiro, de Robert Bresson) e uma estética liderada pela força do mar algarvio (de onde provém a inspiração para o título da longa-metragem), Água e Sal, produzido por Paulo Branco, tem um tom declaradamente intimista e autobiográfico, já que a realizadora admitiu, em declarações ao jornal Público em 2002, que sentia “que este filme foi o que mais precisei de fazer, pessoalmente”. Filme apontado pela confusão que o preenche (a dada altura do filme, a protagonista reconhece: “Estou à procura, não sei bem de quê”), Teresa Villaverde reagiu declarando que a afligia “o facto de, se vamos falar da confusão, termos que ter a cabeça arrumada. Eu quis falar da confusão, mergulhar nela e assumir a minha própria confusão”.

Depois de ter filmado Transe (2006), filme sobre o tráfico humano, a realizadora portuguesa prepara-se para regressar a Veneza com a sua mais recente longa-metragem: Cisne, que conta com Beatriz Batarda, Miguel Nunes e Israel Pimenta no elenco e que poderemos ver nas salas de cinema portuguesas já no próximo dia 8 de Setembro.

quarta-feira, maio 04, 2011

IndieLisboa 2011 [1]: Xavier e os seus amores imaginados

O IndieLisboa dá o início já no dia de amanhã, às 21:30, tendo como filme de abertura, projectado na cerimónia, a segunda longa-metragem do jovem cineasta canadiano Xavier Dolan, Amores Imaginários, que o lançou com apenas vinte e um anos de idade. O filme, que não está em competição e será amanhã analisado, procede o interessante e semi-autobiográfico J’ai tué ma Mère (ler crítica), a crónica de uma relação disfuncional entre uma mãe e o filho adolescente. Estreia, comercialmente e em Portugal, no dia 19 de Maio (trailer em baixo). Ainda no Cinema São Jorge, projectar-se-ão «Winter Vacation», filme chinês de Li Hongqi, e «Vampires», do belga Vincent Lanno. Paralelamente, o Grande Auditório da Culturgest passará, às 21:15, «Carlos», de Olivier Assayas, filme com mais de 5 horas de duração que se debruça sobre uma organização terrorista e que, entre nós, estreia no dia 2 de Junho. O Pequeno Auditório terá «Todos vós sodes Capitáns», filme espanhol de Oliver Laxe e, no Teatro do Bairro, o filme francês «Rubber», de Quentin Dupieux, será exibido.

O novo filme de Xavier Dolan foi opinado (post original aqui) pelo jornalista e um dos autores do sound+vision Nuno Galopim, artigo que transcrevo e faço minhas as suas palavras:
Foi uma das boas surpresas da edição 2010 do IndieLisboa. Com evidente carga auto-biográfica, e integrado na secção Cinema Emergente, o filme J’ai Tué Ma Mère revelava o jovem realizador canadiano Xavier Dolan num emotivo - e muito gritado - debate entre um filho (por si interpretado) e uma mãe. O estranho encontro com tão inesperada proposta fez desde logo de Les Amours Imaginaires um dos títulos mais aguardados da edição deste ano do IndieLisboa. Tanto que acabou mesmo por repartir com Assayas o estatuto de filme de abertura.
O novo filme mostra não apenas maiores ambições na narrativa e no pensar de uma imagem, como reflecte o que parece ser um orçamento menos próximo do quase nada que se sentira no filme de estreia. À ambição (que nunca fez mal a nenhum artista) não corresponde contudo igual poder de concretização.

Cruzada com pequenas vinhetas de tertúlias (ou são entrevistas?) que, mesmo concentrando alguns dos melhores instantes de humor do filme, acabam por não conseguir um relacionamento consequente com a linha narrativa central, Les Amours Imaginaires é, em traços muito largos, a história de um triângulo amoroso (mais desejado que realmente concretizado). Na verdade é mais um jogo de poder nas mãos de um dos vértices (o loiro Nicolas), os outros dois (Francis, interpretado pelo próprio Dolan, e Marie) imaginando um amor perfeito que, contudo, não está nas suas mãos.

Apesar de ocasionais momentos que reafirmam no jovem realizador um talento a acompanhar, Dolan junta contudo demasiados ingredientes neste segundo filme e perde a mão na hora de dosear os temperos. Uma colecção simplesmente fabulosa de canções (onde encontramos The Knife, Vive La Fête, Indochine ou uma versão de Bang Bang em italiano, por Dalida) e um trio de personagens que garantem alguma solidez ao centro de gravidade da narrativa impedem mesmo assim que o tropeção seja maior. Mas, garantidamente, fica aquém das expectativas.




[este post foi actualizado às 16:06, no dia 05/05/2011]