sexta-feira, janeiro 08, 2010

:O Sétimo Continente



Não é por menos que o austríaco Michael Haneke é, na contemporaneidade, considerado dos mais ilustres cineastas vivos: recente vencedor dos prémios europeus de melhor realizador, guionista e filme com “O Laço Branco”, da Palma de Ouro para o mesmo filme e de melhor realizador com o brilhante “Caché - Nada a Esconder” (opinião aqui). Os prémios, entre todos eles, têm plena razão de ser - assistir a um filme de Haneke demonstrou ser-se uma experiência transcendente, como que, observando toda a condição do moderno ser humano transposta para a tela paulatinamente, fizéssemos parte dele.
Muito antes destes dois filmes supracitados, do célebre “A Pianista” ou do polémico “Brincadeiras Perigosas”, foi realizado um filme, o primeiro de todos eles e o mais esquecido pelo público - “O Sétimo Continente”. Se facilmente o poderíamos revelar como um drama familiar bem filmado e composto, a película vai, contudo, para além de todas as convenções, retratando, num estilo cru, verdadeiro e deprimente (oh, se o é…), o decorrer dos anos no seio de uma família de classe média como tantas outras. Esta, particularmente, simboliza toda uma sociedade perdida na incomunicabilidade, na «perda da alma» como muito é referido (aliás, os primeiros vinte minutos, nos quais não percepcionamos nenhum rosto, embora acompanhemos as ditas personagens, ilustra bem como chegámos a uma demência nervosa e que nos é indiferente) e, sobretudo, na apatia que o tempo e a rotina causam. É pelas raras e subtis sequências de choro, de onde personagens como a de Birgit Doll encarnadas magnificamente extrapolam toda a sua dor guardada pelo repetido conformismo, na trágica recta final e no simbolismo evidente que podemos, com certeza, afirmar que, mais do que um grande visionário técnico, Haneke é um escritor de uma qualidade bastante superior e inédita. Pelo seu estilo estranho, de onde reside uma simplicidade que deve ser por demais valorizada, o cineasta não justifica as atitudes da nossa família protagonista, limitando-se a mostrar os "factos", sem (aparentes) juízos de valor, um pouco como Elephant, de Gus Van Sant.  A reflexão, essa, só a posteriori, e pelo espectador mais atento - será este que, provavelmente entontecido com a experiência única que é visualizar “Der Siebente Kontinent”, terá que retirar as ilações que acha serem as mais relevantes para a própria história pessoal (pois, apesar de profundamente depressivo, a película pode bem funcionar como uma terapia de identidade perfeita). Em suma: um drama pleno, original e por demais profundo, não tivesse este a inacreditável capacidade de se mergulhar nas profundezas das nossas mais esquecidas inquietações e da nossa personalidade.
De salientar, para além da perfeição da película, a infelicidade que não tê-la no nosso mercado. Cá entre nós, teremos, para nos satisfazer, “O Laço Branco” para a semana e onde merecerá ser visto: nas salas de cinema.
10/10

4 comentários:

  1. Ainda não vi nenhum filme do realizador, nem o CACHÉ que já me recomendaste e estou muito expectante.

    Dedicarei um ciclo especial a Michael Haneke, tecendo críticas a 3 das suas obras em breve. Mas esta não será uma das contempladas.

    Mas quero ver em breve também.

    Cumps.
    Roberto Simões
    CINEROAD - A Estrada do Cinema

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  2. Roberto,
    vi há pouco A PIANISTA, que me agradou bastante - dos melhores de Haneke, sem dúvida.

    Abraço

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  3. 10/10?
    Também estaria tentado a dar esta classificação.

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  4. Descobri há pouco o blog e sendo um grande fã de Michael Haneke, só te posso dar os parabéns pela divulgação, em português, de um dos grandes cineastas da actualidade.
    Este filme é um dos meus favoritos, perturbou-me como poucos o fazem, com toda a sua frieza. Dar uma classificação é sempre ingrato, uma vez que há uma série de coisas que eu talvez fizesse de maneira diferente. Mas talvez o resultado não fosse tão nu e cru, como Haneke faz.

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