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quarta-feira, agosto 31, 2011

Caça ao leão veneziano começou ontem



Começou ontem a 68.ª edição do Festival de Cinema de Veneza, que perdura até o dia 10 de Setembro, que abriu com a longa-metragem escrita e realizado por George Clooney, The Ides of March, que o crítico de cinema e editor do Ípsilon Vasco Câmara considerou, no blogue onde acompanha os desenvolvimentos do festival, "evidente, mas liso como um poster".


A mostra de 2011 conta este ano com dois filmes portugueses (que estão incluídos na secção "Horizontes", presidida pelo vencedor da Palma de Ouro na penúltima edição do Festival de Cannes, Apichatpong Weerasethakul): Cisne, longa-metragem de Teresa Villaverde, e Palácios de Pena, "curta" de Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt

A competir pelo Leão de Ouro, encontram-se os 23 filmes: “The Ides of March”, de George Clooney (filme de abertura, EUA), “Tinker, Tailor, Soldier, Spy”, de Tomas Alfredson (Reino Unido), “Wuthering Heights”, de Andrea Arnold (Reino Unido), “Texas Killing Fields”, de Ami Canaan Mann (EUA), “Quando La Notte”, de Cristina Comencini (Itália), “Terraferma”, de Emanuele Crialese (Itália), “A Dangerous Method”, de David Cronenberg (Alemanha e Canadá), “4:44 Last Day on Earth”, de Abel Ferrara (EUA), “Killer Joe”, de William Friedkin (EUA), “Un Été Brulant”, de Philippe Garrel (França), “Taojie (A Simple Life)”, de Ann Hui (China), “Hahithalfut (The Exchange)”, de Eran Kolirin (Israel), “Alpeis (Alps)”, de Yorgos Lanthimos (Grécia), “Shame”, de Steve McQueen (Reino Unido), “L'Ultimo Terrestre”, de Gian Alfonso Pacinotti (Itália), “Carnage”, de Roman Polanski (França), “Poulet Aux Prunes”, de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud (França), “Faust”, de Aleksander Sokurov (Rússia), “Dark Horse”, de Todd Solondz (EUA), “Himizu”, de Sion Sono (Japão), e “Seediq Bale”, de Te-Sheng Wei (China).

Fora de competição destacam-se as estreias de Steven Soderbergh, com "Contagion", Madonna com "W.E.", e Al Pacino com o auto-retrato "Wilde Salome". Relativamente aos documentários, um dos mais esperados é sem dúvida "Tharir 2011" (o título diz tudo), de Tamer Ezzat, Ahmad Abdalla, Ayten Amin e Amr Salama.

O presidente do júri é o vencedor do Leão de Ouro de 2008 (The Wrestler), Darren Aronofsky.


sábado, abril 09, 2011

O tio Boonmee que se lembra das suas vidas anteriores

Quando, no ano passado, Tim Burton atribuiu a Apichatpong Weerasethakul a prestigiada Palma de Ouro no Festival de Cannes, considerou O tio Boonmee que se lembra das suas vidas anteriores um «sonho belo e estranho», localizado nas fronteiras da fantasia que ele próprio produz. Poder-se-á porventura receber esta criação, chamaremos onírica (ainda que tal não confirme no final) do cineasta tailandês, com os horizontes devidamente abertos como um filme que se quer, pela originalidade, fundamental.

A história, ou a antítese da mesma (parece não importar), é resumida no título, como que simplificando todo um processo de descoberta infantil, no sentido em que as fábulas do género fazem o mesmo e servem de ponto de partida para o que será contado. O filme é composto por diferentes fragmentos, viajando livremente nas vidas passadas do protagonista que se prepara para abraçar a morte, filmados, também todos eles, de maneira distinta, quebrando uma desejada continuidade, quer no argumento como na forma. E é precisamente aqui que reside o meu principal problema com este surrealismo, onde vale tudo e mais alguma coisa, e atentado à unicidade estética e narrativa: Apichatpong filma objectos diferentes, somando-os sem gerar um todo. Ainda que passe por tolerável o seu imaginário tão mitológico e religioso como realista e cru, composto por fantasmas e estranhas aparições e criaturas, caminhando pela floresta adequando a câmara à disposição da sequência, torna-se quase insuportável acompanhar a imposição dos enquadramentos após abandonarmos o nosso tio-protagonista.

O realizador abandona, assim e com este estranho filme (golpe político, puro panteísmo visual ou devaneio budista), provido de um fim irritantemente desarmonizado, uma identificação, justificada pelo mito da reencarnação / renovação. É cinema duro, para certas sensibilidades, sim, mas que não convence.