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sexta-feira, julho 08, 2011

Double Feature [4]: Biutiful e Belleville Rendez-vous

O Double Feature é um espaço de opinião regular sobre dois DVDs lançados (ou reeditados) pelas distribuidoras portuguesas. O comentário que segue foi publicado no dia 18 de Junho de 2011, na revista Notícias Sábado integrante do Diário de Notícias e do Jornal de Notícias.



Biutiful, de Alejandro González Iñárritu
Castello Lopes Multimédia
★★★


Depois de ter realizado uma trilogia escrita pelo colega Guillermo Arriaga (da qual fazem parte os filmes Amor Cão, 21 Gramas e Babel), o mexicano Alejandro González Iñárritu assina o argumento e a realização de Biutiful, um olhar sobre os problemas marginais de Barcelona, como a ilegalidade da imigração, da corrupção e da exploração do trabalho. A personagem desarmante de Javier Bardem, vencedor do prémio para melhor actor no Festival de Cannes, completa este quadro decadente e por vezes exagerado, representando um pai que luta por sobreviver com o seu débil estado de saúde, família disfuncional e sentimento de culpa, e representando a espiritualidade ausente na sociedade moderna.

Belleville Rendez-vous, de Sylvain Chomet
Atalanta Filmes
★★★★

Uma das melhores animações da última década, esta longa-metragem do francês Sylvain Chomet (criador do recente O Mágico), reeditada recentemente em DVD e nomeada para dois Óscares da Academia (melhor animação e canção original), apresenta-nos Madame Souza, emigrante portuguesa, Bruno, o seu cão obeso, e Champlion, o seu neto melancólico que é raptado pela máfia quando este decide participar na Volta de França. Dirigido a todo o tipo de público e dotado de uma singularidade que em nada se assemelha às criações da Disney, Chomet mistura na aventura o detalhe com um humor simples e improvável, acabando ainda por contar a história, mais que por diálogos, através da música e dos gestos.

quinta-feira, dezembro 24, 2009

:Os 10 melhores filmes da década '00



Este Natal estará marcado, um pouco pela blogosfera cinéfila portuguesa, pela iniciativa “Os 10 Melhores Filmes da Década 2000” — como tal, não deixem de visitar e procurar os outros locais onde se encontrem presentes diversas listas. Definir os dez melhores filmes desta primeira década do milénio, que atravessou o fim da minha infância e o início da adolescência, é, na minha perspectiva e apesar de estar directamente envolvido nesta iniciativa, mais do que difícil. É impossível — pela simples razão que muitos foram a fitas que marcaram o mundo da sétima arte, pelo que, sem elas, o futuro que avizinhará não se demonstraria da mesma forma. Dito isto, reuni, na lista que segue, sem repetição de realizador (para evitar favoritismos e alguns esquecimentos) e sem ordem de preferência, os dez filmes que grandemente me marcaram, quer pela sua qualidade artística, quer pela forma como conseguiram mudar a minha visão do mundo e de mim. Deu-me uma pena tremenda, ao tentá-la pôr heterogénea, não incluir na lista, por exemplo e pelo menos, um filme da Disney, Mysterious Skin, Match Point, Memento, O Novo Mundo, O Senhor dos Anéis, e uma data de etc. (mas vocês saberão bem, quer lendo as minhas opiniões ou vendo as minhas classificações, quais são, verdadeiramente, os meus filmes preferidos). Mas, bem, a lista é vida e ei-la:




Hilariante, belo, mágico, fabuloso — eis como uma personagem, uma história e um visual tão rico se coadunam numa das películas mais estranhas, marcantes e positivistas de sempre.



Frenético e por demais inteligente, o cineasta brasileiro capta hiperactivamente aquilo que acabaria por ser um dos filmes mais cruéis e espectaculares de sempre.



O melhor da trilogia de Iñarritu, que atravessou, através de diferentes contextos e histórias filmadas, e com desempenhos magníficos, as profundezas da condição humana.



O melhor de Von Trier é mais do que subversivo em estética e narrativa — é sim um exemplo de como se pode fazer um verdadeiro drama psicológico, englobante a toda a humanidade e negativista até à última cena. [crítica]



Um triunfo da arte contemporânea e um ensaio inesquecível e incompreendido da adolescência e da educação actuais, captados subtil mas magnificamente por Van Sant, que, nesta década, se demarcou no meio artístico com películas que me moldaram e distinguiram em grande medida. [crítica]




A filha do criador d’O Padrinho criou, a partir de uma cidade onde a Multidão reina a Solidão, duas narrativas reais, que se enlaçaram em pequenos e inesquecíveis momentos que fazem de Lost in Translation um dos filmes mais interessantes e magníficos.



Pondo de lado toda a polémica (até porque não há, de todo, motivos para a sua existência) que a abraça, a obra de arte de Ang Lee atinge o topo dos grandes romances da sétima arte, pela subtileza, beleza e realismo que a envolvem.




A obra-prima máxima e subvalorizada de Aronosfky que, ao lado do revolucionário Requiem for a Dream, o tornou numa das mais fascinantes e brilhantes mentes da década.




A perfeição de Wright é inegável e a sua segunda longa-metragem demonstrou-o na exactidão, através da adaptação do romance filosófica e narrativamente sublime de McEwan.




Apesar de correr o risco de o filme ser o mais contestado em aparecer neste tipo de listas, estou em crer, veementemente, que tudo n’O Cavaleiro é muito bom — desde a realização encarnada como ninguém, das interpretações, da acção e da forma como a mensagem "precisamos, no mundo em que vivemos, de superheróis que não sejam super" é transmitida.

Apresentada a lista, que considerações têm os leitores a fazer? Quais seriam as vossas escolhas? O que tirariam e porquê? Enfim, e não menos importante: bom Natal para todos!


Outras listas que integram esta iniciativa:

domingo, maio 17, 2009

:Cada um o seu Cinema - mas só em Lisboa


O interessantíssimo projecto que, a propósito do festival deste ano de Cannes, juntou realizadores como Gus Van Sant, Alenjando González Iñárritu, Lars Von Trier, Wim Wenders, Kar Wai Wong, Manoel de Oliveira e Roman Polanski, está em exibição, para grande surpresa minha, apenas em Lisboa. Ora, um filme de tal importância não deveria rondar - não sei, deixem-me pensar! - o norte ou o sul do país, talvez? Sinceramente, não compreendo. Em vez de manterem filmes como "Quem Quer Ser Bilionário?" ou "O Leitor" ainda no cinema (refiro-me ao do Arrábida Shopping) tragam novidades, por favor, está bem? Até que não era pedir muito...

domingo, setembro 23, 2007

:Má Educação



Numa altura em que a RTP aposta em patentear filmes de grande sucesso (como foi com "O Segredo de Brokeback Mountain"), foi ontem exibido o que considero ser o melhor filme de Pedro Almodóvar, "Má Educação", com o meu actor preferido, Gael García Bernal. Saibam a minha opinião, a seguir.

Dizem muitos ser esta película autobiográfica, baseada na infância de Almodóvar, e se for, acho que todos os elementos estão presentes para ver como o realizador espanhol bem mostrou a construção de um filme ajustado da vida real. Vencedor de inúmeros prémios, o filme tornou-se um fenómeno cultural, gerando imensa polémica no ano em que saiu (2004). O argumento do filme é, tenho de admitir, um dos mais complexos com que me deparei, pois a ficção e a realidade são misturadas, mas extraordinariamente chegamos ao fim com as dúvidas todas respondidas.
Espanha, anos 60. Ignacio e Enrique são dois rapazes que descobrem o amor um pelo outro num colégio religioso. No entanto, as suas vidas são separadas e o seu amor interrompido. 20 anos depois, Ignacio, agora actor, entra no escritório de Enrique, cineasta, com um argumento que conta a história dos dois…
Esta foi uma sinopse muito compreendida do que realmente é "Má Educação". Uma personagem não menos importante como o padre Manola (Giménez Cacho) juntou os ingredientes certos na sua personagem para que esta fosse a que mais polémica tivesse. A pedofilia está presente de uma maneira verdadeiramente arrepiante. Pelo amor surreal presente num triângulo de homens, não tenho a certeza se posso distinguir o filme como sendo apenas dramático. Gael García Bernal, depois de Amor Cão (de Inãrritu) e O Crime do Padre Amaro, trouxe consigo mais uma personagem que nunca iremos esquecer. Um aspecto importante a notar é a banda sonora, composta por Alberto Iglesias, que escreveu músicas que emocionam, pela posição que tomam ao longo de cenas índescritivelmente emocionantes. Nesta história, todas as personagens são os culpados das suas desditas, todos guardam e partilham segredos que ainda nos chocam pela sua densidade emocional e psicológica. É imperdível, um dos melhores filmes contemporâneos.
9/10