terça-feira, novembro 08, 2011

Ver Tarkosky / ver Tarkovsky / ver Tarkovsky


Quando ontem, no Centro Cultural de Belém, na conferência (melhor será dizer: sessão de perguntas e respostas) de Andrei Tarkovsky (filho), acompanhado pelos comissários da exposição “Luz Instantânea – Fotografias, itinerários e saudades de Andrei TarkovskyAlberto Ruiz de Samaniego e José Manuel Mouriño, alguém denunciou a dificuldade de encontrar uma cópia de DVD com imagem fidedigna dos filmes do realizador soviético, falou-se sobretudo de respeito para com o realizador. 

Isto porquê? Primeiro: porque, aparentemente, existem inúmeras diferenças, de cópia para cópia, de um mesmo filme de Tarkovsky – sobretudo a nível da imagem (vide exemplo em cima: um fotograma de O Espelho, longa-metragem de 1975, decomposto em três versões distintas). Segundo: porque, de acordo com o que foi dito na sessão, só podemos respeitar o autor se virmos a obra de acordo com a versão (e visão) que foi originalmente idealizada. 

Neste caso e seguindo o raciocínio questionamo-nos: por que razão o CCB faz um ciclo de Andrei Tarkovsky exibindo DVDs comerciais e não as cópias de 35 mm (recuperadas e restauradas pela Fundação Andrei Tarkovsky, de Florença)? E, tomando como princípio de que o equipamento de projecção é inexistente, outra pergunta: por que é que a Cinemateca Portuguesa, cujo objectivo passa também pela “divulgação do património cinematográfico”, salvaguarda nos seus arquivos filmes que, muito raramente, vêem actualmente luz do dia e outros que, quase sempre todos os meses, são projectados? 

Este problema atira-nos para um debate ainda mais profundo (os critérios de programação e a missão da Cinemateca e a pertinência de um ciclo cinematográfico no CCB) e dispara, contra o espectador, uma certa frustração: se eu não consigo aceder às cópias de 35 mm dos filmes de Andrei Tarkovsky, como hei-de ficar próximo da sua concepção inicial e, por conseguinte, como posso não desrespeitá-lo? 

A conclusão a que nos obrigamos a chegar é simples mas infeliz: não existindo a sua divulgação o desrespeito é, em instância final, para com o espectador.

7 comentários:

  1. Pertinente chamada de atenção mas, se me permites, não posso deixar de fazer dois reparos ao teu texto:

    1) as cinematecas e fundações não são distribuidoras, logo não é com facilidade que se cedem/emprestam cópias em 35mm de alguns filmes, estejam eles restaurados ou não;

    2) se a Cinemateca Portuguesa possui, nos seus arquivos filmes, que raramente vêem a luz do dia, é porque o seu estado é frágil e/ou pouco apropriado para projecção.

    De resto, partilho da tua inquietação sobre a dificuldade crescente de se ver cinema em película. E é impossível não acrescentar uma pergunta: como evitar, então, o domínio da projecção digital em detrimento do formato 35mm?

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  2. estou inteiramente de acordo. Cineastas como Andrei Tarkovski só em película e em grande tela.

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  3. Samuel: tens razão, mas a discussão da Cinemateca é outra. Falo de Tarkovsky, se saber se podem ou não serem projectadas - até agora só se pode especular. E quanto à projecção digital: não é ela que me incomoda, se fosse em digital poderíamos ter a expectativa de uma certa qualidade de imagem. Porque, pelos vistos, a exibição do DVD retira as características fotográficas originais do filme. Obrigado pelo teu comentário interessante.

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  4. Flávio, no que à projecção em digital diz respeito, esta só "retira as características fotográficas originais do filme" se a transferência para esse formato for mal planeada/concretizada...

    Mas, mesmo em película, poucas vezes observas a visão inicial de um cineasta relativamente a um determinado filme. Um projeccionista competente pode exibi-lo com a janela e lente correctas mas, ao fim de um ano de existência, a cor da imagem já não é idêntica ao master, o som está diferente, a duração do filme pode ser menor, etc. (desculpa se estiver a ser muito "técnico").

    Não é fácil programar Cinema em película em Portugal, por razões que, talvez, não precisarei de me alongar. Se a Cinemateca já tem dificuldades, imagino o CCB...

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  5. Julgo (estarei sempre a especular) que o CCB não tem condições de o fazer.

    Quanto ao digital: aparentemente, ainda não saiu uma "transferência" que se iguale ao planeamento fotográfico original, daí a questão levantada de versões de DVDs diferentes.

    Quanto à película: penso que resumes a coisa quando escreves que, "mesmo em película, poucas vezes observas a visão inicial de um cineasta relativamente a um determinado filme." Daí que ache um pouco inconcebível que, tendo convidado o presidente de uma fundação que se responsabiliza de restaurar e conservar cópias do Tarkovsky-pai, não dê uso às mesmas. Falta de material ou não: se apontam a falha do DVD, se afirmam que vê-lo é desrespeitar o autor, por que razão há um ciclo com DVD? Nisto estamos de acordo (e em tudo o resto).

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  6. Talvez não seja uma questão de não querer dar uso às cópias restauradas em 35mm. Talvez (e isto é pura suposição) não foi possível obte-las por não se chegar a acordo quanto aos valores do seguro do transporte ou impossibilidade de arcar com os custos desse mesmo transporte...

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  7. Sim, provavelmente, é uma boa suposição. De qualquer das formas, fiquemos com a ironia: dizem que só respeitamos se vemos a de 35 mm e passam em DVD.

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