segunda-feira, agosto 23, 2010

Ordet - A Palavra

Vergílio Ferreira, no seu Para Sempre, tentando responder-se recordando episódios da sua própria narrativa, questiona, por diversas vezes, qual é, de todas elas e de todo o falatório que a humanidade prossegue ao longo dos tempos, a palavra essencial, a palavra última, a palavra verdadeira, a Palavra da Vida. À sua semelhança (e à da restante demanda existencialista da filosofia, particularmente a de Kierkegaard), Dreyer procede à revitalização da busca pela Palavra, da busca pela Vida – e assim cria, após uma série de dificuldades, Ordet, que brilha no patamar das mais brilhantes das obras-primas e, sobretudo, no das mais essenciais. Neste conto belo e ecuménico como poucos o conseguem ser, construído como que num seguimento de detalhados e portentosos frescos (perfeitos enquadramentos, planos sequência, luz e composição cénica), assistimos ao choque intemporal de ideias, à discussão inútil de mentiras desacreditadas. Assistimos, também, à hipocrisia das religiões institucionalizadas (particularmente as referentes ao Cristianismo), à falsidade beata e obscura dos seus crentes, mas, ao mesmo tempo e com os mesmos contornos, à absoluta crença na racionalidade científica e na negação do inexplicável ou do concretamente inexistente. Tanta cavaqueira e superstição, tantos monólogos e diálogos, para nos restarmos ao silêncio: entre tudo, todos e todas as convenções (ou disparates) sociais, morais, enfim, ideológicos, assistimos à Fé do ignorado, do ridicularizado, do impossível e do inacreditável, nas ruínas ou nos montes, sobre um tecto de uma casa a querer sê-lo ou sobre um eterno e desconhecido céu. Tanta discussão para nos restarmos à verdade, ao incompreensível, ao sorriso e lágrimas finais, à aceitação da Vida e da Palavra.

6 comentários:

  1. Aquilo de que falas é tremendamente interessante e certamente que gostarei desse filme.

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD - A Estrada do Cinema «

    ResponderEliminar
  2. Há um filme americano de 1950 chamado "Stars in My Crown" que se debruça também nestas temáticas e que tem uma cena-chave semelhante à cena final deste filme. É o filme mais pessoal do Jacques Tourneur (comprometeu-lhe, de certa maneira, a carreira em Hollywood) e é formidável. Não vou tão longe como dizer que é melhor que este "Ordet" (que é, também, formidável), mas é tão bom como, certamente.

    ResponderEliminar
  3. Sim, obra-prima Flávio. E belo, tremendamente belo.

    Nunca vi o filme do Tourneur de que falas João, mas fiquei curioso.

    ResponderEliminar
  4. Ainda não explorei Dreyer, mas adorei o texto.

    ResponderEliminar
  5. http://cinemajb.blogspot.com/2010/08/guilty-pleasures-os-jardins-proibidos_30.html

    Já estão publicados ;)

    Abraço

    ResponderEliminar
  6. Roberto, sim, certamente :)

    João, procurarei, obrigado pela sugestão.

    Sem dúvida belíssimo, Álvaro.

    Diogo, vê, adorarás. Obrigado.

    JB, thanks ;)

    ResponderEliminar

Assine, sempre que possível, o seu comentário.