quinta-feira, fevereiro 07, 2013

Marfa Girl – potência e solidão




Marfa – território de beleza profunda, quase hipnótica, desenhado por paisagens semidesérticas do Oeste texano (as localidades mais próximas ficam a mais de 30 quilómetros). O que é que nos chama para lá? O mito da independência, de uma história dos EUA que se fechou em si mesma, de um abismo que relocalizou James Dean numa solidão exteriorizada (falamos de quando George Stevens o filmou em Gigante).

50 anos depois foi a vez de descobrirmos Marfa pelos irmãos Cohen (Este País não é para Velhos) e por P. T. Anderson (Haverá Sangue) – uma cidade no meio de nenhures, “sem tempo”, lançada para o cinema como se pudesse ser filmada agora ou daqui a 100 anos. Larry Clark presentifica-a: o que vemos é a Marfa transformada oásis para os artistas, a Marfa das luzes-fantasma (já as recordavam Rolling Stones, em No Spare Parts, inédito de 1978 finalmente lançado em 2011), a Marfa que não evita os problemas de ser uma localidade fronteiriça, invadida pelos imigrantes e por aqueles que, suficientemente loucos, ou então seguros, se deixam ficar por lá, debaixo de um céu que não acaba.

“Aqueles” é a juventude esquecida, os James Dean que ficaram por lá – e Larry Clark filma-os com o maior amor e sentido moral do seu cinema. Como? Primeiro, aceitando que o sexo é parte incontornável – e necessária – para um espírito potente; depois, filmando os corpos com a mesma configuração da paisagem de Marfa (tudo aqui nos parece com energia, tudo é puro); por fim, vendo o desejo como aquilo que há de mais intransmissível.

O que resulta daqui é simples: a proteção de tudo isto pela comunidade, que acaba afinal por se tratar da proteção familiar, resiste a tudo aquilo que a quer perturbar – e assim entramos em tudo aquilo que parece haver de western em Marfa Girl, que desenha um conflito entre o protagonista e um guarda fronteiriço (invadido por uma pulsão sexual e solitária que acaba, ao contrário dos outros que vigia e ameaça, por ser a sua própria destruição). 

Pela sua desarmante simplicidade, o novo filme de Larry Clark é também um respeitoso exemplo que nos relembra que é preciso sempre uma adequação dos meios de produção com um olhar concentrado e cheio de vigor (Marfa Girl foi feito por uma micro-equipa e, não só por isso, por pouco dinheiro). Surpreende-me assim ver o filme a partir de uma janela do computador – não o veremos com certeza numa sala de cinema, já que Larry Clark o “estreou” no seu site oficial (se bem que houve passagem pelo Festival de Roma, onde venceu o prémio de melhor filme) e assim terminar com uma distribuição que, financeiramente, lhe seria desvantajosa. O futuro vê-se, aos poucos, por aqui – é o mito do cinema norte-americano a começar a abandonar para sempre o grande ecrã...

(O texto no Diário de Notícias sobre Marfa Girl)

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