segunda-feira, abril 20, 2009

:Rebecca / Frei Luís de Sousa


Comparar o drama que fez com que Almeida Garrett merecesse estudo nas escolas secundárias com o único filme de Alfred Hitchcock a ganhar o Óscar de melhor filme parecer-nos-ia provavelmente, inicialmente, burlesco e inexequível. Todavia, são inúmeras as semelhanças que Frei Luís de Sousa e Rebecca possuem, merecedoras, claramente, de um especial destaque e reflexão.
Comecemos, primeiramente, por apresentar as obras em questão. Frei Luís de Sousa é uma peça dramática portuguesa escrita por Almeida Garrett no século XIX, que, através de diversos elementos românticos e trágicos, nos apresenta a angústia e o temor sentidos pelo inexplicável desaparecimento de D. João, marido de Madalena de Vilhena. Esta, depois de compridos sete anos à sua espera, casa-se com Manuel de Sousa Coutinho, tendo Maria de Noronha. O constante receio de Madalena, avivado pelo escudeiro Telmo Pais, acaba por se legitimar, com o inesperado regresso de D. João. O desespero que o retorno desespera nas personagens torna-se notório na tomada do hábito religioso por Madalena e Manuel, a fim de expiarem o que fizeram, e na conseguinte trágica morte de Maria. Rebecca, por outro lado, é um filme norte-americano, a preto e branco, de 1942, realizado por Alfred Hitchcock, com Joan Fontaine e Laurence Olivier. A trama prende-se com o segundo casamento de Max de Winter, que é visto por todos, principalmente por Mrs. Danvers, governanta da mansão do aristocrata, com malevolência e mistério. A nova Mrs. de Winter, que passa a conhecer a misteriosa morte de Rebecca, a primeira esposa de Max, recebe particular atenção da governanta, que adorava a falecida. A morte de Rebecca é-nos explicada perto do clímax do filme - já que causara a Max grandes ciúmes e se recusava a dar-lhe um filho, suicidara-se com o propósito de incriminar o marido de assassínio. Como consequência, Mrs. Danvers, desesperada e alienada pela humilhação, incendeia a mansão e, encurralada pelas chamas, morre.
Nos elementos análogos, que têm tanto de simbólico quanto de fatídico, e que podemos facilmente apontar, encontram-se, por exemplo, o incêndio e o segundo casamento que acontecem na peça e no filme. Quanto aos objectos, temos os retratos dos fantasmas nos quadros como factores simbólicos - a importância do quadro de Rebecca, que a nova Mrs. de Winter tenta reproduzir, é semelhante à que tem o de D. João no palácio de Almada, após o incêndio. A posição que Telmo e Mrs. Danvers assumem é, também, claramente, idêntica: ambos vivem na misteriosa sombra do amo e insistem em estimular a ideia da sua presença. As motivações poderão ser diferentes, mas torna-se clara a semelhança do sentimento de medo que conseguem despoletar nos protagonistas. Por exemplo, quando a nova Mrs. de Winter se encontra sozinha a reflectir sobre o bilhete de Max a anunciar a sua partida para Londres, a governanta faz-se surgir, misteriosa, explicando-lhe quão importante aquela divisão da casa - o quarto de Rebecca - era. Mais logo, a incitação terrível que Mrs. Danvers faz, motivando um possível suicídio da nova Mrs. de Winter, ilustra-nos a demência que tomava a governanta na altura. A atitude de Telmo não chega a atingir tal extremo, mas a devoção que tinha por D. João de Portugal é expressa na maioria dos seus diálogos com Madalena, explicita ou implicitamente, dando-lhe sempre a sensação que sim, que o amo está vivo e que regressará em breve. Se em Frei Luís de Sousa temos uma pesada e amargada atmosfera de receio e tensão exposta no uso evidente de reticências e pontos de exclamação e nos descritos cenários, em Rebecca encontramos um jogo incrível de sombras e luzes que nos conduzem a um universo onde a dúvida e os fantasmas do passado estão bem presentes.
Quer o filme, quer a peça de teatro, afiguram-se como obras-primas de inquestionável qualidade, cujo fascinante paralelismo ajudará, seguramente, a assimilar melhor toda a simbologia que os cenários, as personagens e a sua psicologia têm, assim como a desfrutar ainda mais da assombrosa experiência estética que Almeida Garrett e Alfred Hitchcock se propõe a oferecer-nos.

2 comentários:

  1. Eu não vi o filme mas é certo que é uma comparação muito ousada :p Contudo, se fosse bem feito poderia sair um grande texto. E saiu... Parabéns.

    Também gostei muito do Frei Luís de Sousa, um verdadeiro marco na literatura portuguesa. Seja como for, agora terei mesmo que ver o Rebbeca.

    Abraço

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  2. Obrigado, Fifeco! Agora basta veres o filme para ver se concordas comigo :P

    Abraço

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