sábado, outubro 30, 2010

Um mistério cinematográfico

Há uma misteriosa força que move as quatro horas e meia do encadeamento literário de Camilo Castelo Branco, meticulosamente observado por Raoul Ruiz. Mistérios de Lisboa, que se assume à partida como um filme-novela, um estudo de personagens no seu sentido clássico, é demasiado ambíguo para ser facilmente rotulado, seja obra-prima ou uma produção falhada. Em síntese, podemos considerá-lo um filme cheio, cheio de intenções primárias e cheio de triunfos inalcançáveis. Como é estranho assumirmos que não há qualquer identificação com as personagens e seus dramas (culpa dos trejeitos arcaicos de uma época que já não é ou das interpretações que deixam a desejar uma naturalidade que, aparentemente, deveria existir?) e haver, ao mesmo tempo, um amor tão grande à forma como estas estão ambientadas. E como é estranha a ambiguidade estilística da câmara de filmar do cineasta – tão depressa dança com os seus corpos e emoções, em longuíssimos e ritmados planos sequência, como se distancia, dançando, nervosamente, sozinha, em redor delas. Mas esta estranheza, que infelizmente se alia a uma fotografia desastrada (será também ela deliberada?) e a um argumento previsível, cansativo e demasiado visto (o que comprova que a literatura e o teatro são incompatíveis, literalmente, ao grande ecrã), remete a uma unicidade que nos faz esquecer daquilo que a obra é falha, uma unicidade de que é dotada a realização. Assim, para o espectador, tudo se transforma num brutal banquete de sensações e beleza, num exercício cinematográfico que ficará no seu pensamento como um absoluto mistério.

6 comentários:

  1. É uma das belezas do cinema, conseguir proporcionar duas opiniões tão diferentes e igualmente bem justificadas (acho que não é uma questão de modéstia/falta dela; acredito na minha defesa).

    Nem de perto senti o filme como o sentiste. Mas se valeu para voltares a escrever, fico contente, pelo menos, com isso. Gostei muito do texto.

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  2. Disse precisamente no blog do Diogo, que só a duração já me irrita.
    Acho grotesco fazer-se um filme com tal duração, indepedentemente da sua qualidade. Que acredito que até tenha..
    Acho que revela falta de contenção dos responsáveis, e não me cativa nada...

    Abraço e folgo em saber que estás regressado ;)

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  3. Diogo, concordo contigo na primeira parte do teu comentário, também gostei bastante do teu texto. Quanto à segunda, sim, já tinhamos falado sobre isso. Obrigado :)

    Rui, espero que mudes essa opinião que tens dos filmes mais longos que os convencionais - há verdadeiras obras primas que chegam a ter mais que umas dez horas, sei lá... :P Mas, concretamente, dou-te o exemplo de SÁTÁNTANGÓ, de Béla Tarr, que tem sete horas e meia e é brilhante (mas que suspeito que não vás gostar). Obrigado.

    Abraços

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  4. Em primeiro lugar discordo contigo quando referes a "fotografia desastrosa". Tem falhas, sim (mesmo não percebendo em que medida as poderias achar deliberadas...), mas o propósito primeiro da cinematografia no cinema é o de criar imagens de beleza e requinte (ou não, mas neste caso acredito que seja mesmo esse o propósito, e não apenas por se tratar de um filme de época, mas sim pela "dança" a que o realizador se propõe, que é, de facto, complementada com a luz - por muito artificial que possa parecer em momentos), e isso ela consegue-o na totalidade, tanto em exteriores como nas passagens filmadas no interior. Estranho ainda é teres já referido, pessoalmente, a beleza fotográfica de “Lola”, que é ainda mais declarada que a de Mistérios, mas que ainda assim aceitas.
    Em segundo lugar, a realização. O bailado da câmara e os constantes travellings funcionam, mas não na duração total do filme: com a passagem do tempo em conjunto com o crescente desinteresse dos níveis dramáticos que vão surgindo (mas isso por culpa do argumento também), e com a banda sonora (que, mesmo genial, em conjunto com a realização se torna cansativa), o espectador vai sendo incitado a adormecer. Por muito dura que esta minha interpretação possa ser, a verdade é que o filme não foi feito para o grande público e, na sua totalidade, só consegue aprecia-lo devidamente quem esteja previamente preparado para isso, caso contrário o espectador deixa-se cair no desinteresse.
    Terceiro ponto é o argumento. Uma adaptação com tantas camadas dramáticas e geracionais muito dificilmente se concretizaria de forma impecável, e mesmo assim o argumentista conseguiu atribuir interesse e enaltecer o sentido à grande maioria do filme e dos assuntos abordados. É verdade também que especialmente na segunda parte do filme o argumento vai perdendo o seu poder, aliado a uma produção que simplesmente não chega para os propósitos do filme e é, enfim, com essa imagem com que o espectador acaba de ver o filme. Contudo acredito no esforço e nos feitos conseguidos pelo argumentista na tentativa da adaptação da obra de Castelo Branco. Aqui posso também já abordar a interpretação dos actores que, de forma muito positiva, me surpreendeu pela naturalidade. Quando te questionas acerca dessa ausência de organicismo na representação e direcção dos actores pareces esquecer-te – mesmo referindo -, que o filme retrata épocas cheias de trejeitos e manias próprias, não só relativamente ao discurso mas também à expressão corporal, e é normal que o espectador contemporâneo não se consiga relacionar de forma mais directa com os personagens e suas intenções.
    Sabes perfeitamente que sempre retiro prazer daquilo que leio de ti, mas, neste caso particular, a tua opinião não me parece versátil mas sim ambígua e duvidosa, dando a entender ou que queres encontrar prazer e afinidade numa obra que não te atrai assim tanto ou que, pelo contrário, tentas testar as tuas aptidões clínicas na percepção do filme, não te permitindo à sua absorção instantânea e natural.

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  5. Paulo, já tinha tomado conhecimento da tua opinião, obrigado por teres vindo comentar... Vou responder-te sucintamente:
    1. Há uma diferença entre "desastrada" e "desastrosa". Eu gostei da fotografia do filme assim-assim. E sem dúvida que aquilo que pareciam claros erros eram formas de estilo do realizador relativas à imagem. Eu não gostei, achei que ficava demasiado artificial nalguns momentos (não me refiro às cenas de quando a luz "vinha de baixo", como já falamos, mas sim àqueles desfoques horríveis feitos em pós-produção). Sim, a fotografia de LOLA até pode ser mais declarada, mas, por acaso, consegui apreciar mais. Achei mais bonita, sei lá, mais adequada ao tom do filme.
    2. A realização funciona do início ao fim, para mim. Não achei cansativa, aliás, era o motor do ritmo do filme. Adorei.
    3. E a banda sonora, sim, aí concordo contigo, apesar de muito boa, chegava, nalguns momentos, a cansar.
    4. Quando falei dos diálogos e da sensação de serem maus coloquei a seguinte dúvida: "(culpa dos trejeitos arcaicos de uma época que já não é ou das interpretações que deixam a desejar uma naturalidade que, aparentemente, deveria existir?)". A responsabilidade de apreciação aqui recai muito no espectador. Eu achei que nalguns actores os diálogos saiam bem, noutros, não. Mas globalmente gostei das interpretações. Mas compreendo - o retrato de uma época que já não é dificulta a identificação e conseguinte interesse pelas personagens. Parece que o argumentista seguiu fielmente o realismo do Castelo Branco na sua construção de diálogos. Fez bem.
    5. Compreendo que te pareça ambígua, a minha opinião. É-o, de facto, porque, como expresso no título, o filme ainda é visto como um mistério. Há coisas que ficaram por definir, na minha cabeça. Mas isso é bom, a certo ponto, porque funciona como um todo, porque me atingiu aquela câmara do Ruiz. Isso, acho, é o mais importante de tudo.

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  6. O filme -ou a nossa percepção dele- melhora bastante com um segundo visionamento. As interpretações, os diálogos, toda a carga excessivamente dramática em que a história está embebida, as falhas técnicas... tudo isso se torna bem mais tolerável.
    O filme tem momentos de uma delicadeza inegável, que me poupo a enumerar, e a realização está magistral. A cena de uma duquesa ou marquesa (o estatuto social da senhora não é assim tão irrelevante, mas não me recordo) à janela, com as cortinas a ondular, enquanto ela mantém uma conversa com o futuro lover dela, ou a cena ao entardecer em que há uma disputa entre dois "cavalheiros" (pelas maneiras deles, ninguém diria...) presenciada pelo padre, que vai em viagem de coche... ou a cena, perto do início, em que a personagem da Maria João Bastos tem uma discussão com o marido e a câmara se move pelo cenário, jogando com as posições de outras personagens nas divisões contíguas... enfim, a lista continuaria.
    E a banda musical, com aquelas notas trágicas recorrentes a servir de presságio para mais uma desgraça pessoal? Tudo isso faz parte, e temos de nos dispor a aceitá-lo para apreciarmos o filme.
    Vi a versão de 6 horas - sensivelmente- no Estoril e recomendo que a vejam - há todo um segmento que a versão de 4 horas e meia não tem, centrado numa personagem chamada Anacleta e que acrescenta - pelos temas abordados - toda uma outra dimensão ao filme. Um grande feito, a meu ver, este "Mistérios".

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