domingo, dezembro 13, 2009

:Revolutionary Road



Depois do mega-sucesso titânico de James Cameron, via-se, com grande previsibilidade, que a dupla Winslet/DiCaprio tivesse portas abertas para infindáveis projectos cinematográficos, algo que, efectivamente, se veio a comprovar com a multiplicidade de filmes que os dois jovens actores deram vida. “Titanic” continuou a ser, contudo, a película que os eternizou e foi com uma inevitável nostalgia e ansiedade (Sam Mendes já se demarcara no terreno do cinema americano), que “Revolutionary Road” foi esperado pelo público. Se correspondeu às expectativas? Tendo em conta que as minhas dúvidas, é, com segurança, que afirmo que foram ultrapassadas.
Voltando às passadas de “American Beauty”, o cineasta e Justin Haythe abraçam, com determinação, um projecto que, sendo a olhos comuns visto como fácil ou banal, adapta um romance socialmente crítico de Richard Yates. Explorando as profundezas de uma instituição que entrava já, nos EUA dos anos 50, em decadência geral, e explorando, de igual forma, a hierarquia e código moral que regiam o contexto, “Revolutionary Road” continua, na sua estrutura narrativa, moderno, actual e interventivo. Com uma mensagem claramente negativista quanto ao casamento, o filme, fiel ao livro até à cena final, tende a captar como se suportam, num mar de rotina, estandardização e niilismo nas actividades dos subúrbios, dois seres humanos, que erram ao tentar ultrapassar as dificuldades com ilusões, sonhos e esperanças. Quando as realidades do tempo e da responsabilidade familiar lhes começam a pesar na consciência, mais erros são, como infeliz consequência, realizados, levados estes até ao limite com uma trágica recta final, repleta de uma melancolia exacerbada com elegância e simplicidade, pendendo a estimular, a posteriori, uma reflexão pessoal por parte do espectador mais atento.
O que os Wheeler queriam para si, Sam Mendes conseguiu-o para o filme: manter as aparências de uma família tão denegrida e disfuncional com uma estética por demais perfeita e bela. Com enquadramentos simples, mas magníficos se atendermos à situação captada, o realizador, aliado à fotografia de Roger Deakins e a uma direcção artística talhada até o pormenor, traz-nos um festim harmonioso de planos coloridos memoráveis.
Tudo se coaduna, pois, quando uma madura Kate Winslet (que está mais bela e talentosa que nunca) contracena com um igualmente experiente Leonardo DiCaprio que aclama uma evolução performativa incontestável. Os dois movem-se mais reais que qualquer outro casal destroçado, preso às rígidas convenções e às normas morais que interiorizaram toda a vida. Como April e Frank, os dois devem agradecer a Mendes por terem uns dos melhores papéis que já tiveram na grande tela. Há que salientar, de forma também justa e igual, a figura de Michael Shannon (com uma nomeação merecida para o Óscar de melhor actor secundário), que encarnou uma personagem crítica mas socialmente demente e reprovadora e que exaltou a necessidade de mudança nas circunstâncias por que passava o casal.
Para completar, não há como não referenciar a banda sonora de Thomas Newman, das melhores que alguma vez tive a oportunidade de ouvir dele (ao lado de “Anjos na América) e de outros, fazendo com que o piano e o violino tenham o casamento que os protagonistas gostariam de ter.
Despretensioso, natural, simples mas, seguramente, imperdível, só saberemos, mais tarde, se esta obra ascenderá ao estatuto de obra-prima daqui a uns largos anos. Entretanto, restemo-nos com um “Revolutionary Road” que ficará connosco como um dos exemplos do bom cinema que (ainda) se pode fazer.
9/10

5 comentários:

  1. É um dos meus filmes preferidos de sempre e na minha opinião, o melhor de Sam Mendes!

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  2. Ainda estou para ver este filme, contudo acho que não supera American Beauty...

    Abraço
    http://nekascw.blogspot.com/

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  3. Tiago,
    já sabia da tua opinião :P É, de facto, muito bom.

    Nekas,
    pode não superar o American mas está, por outros motivos, muito, mas muito próximo ;)

    Abraço a ambos

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  4. A príncipio fiquei um bocado relutante, mas, depois de reavaliado, subi-lhe a pontuação. Revolutionary Road é, de facto, muito bom mesmo.

    Abraço

    P.S.: penso que nunca se fez tão bom cinema como agora.

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  5. Sam Mendes é magistral na arte de filmar, virtuoso na contenção e fluído na adaptação do romance de Richard Yates a partir do igualmente muito bem escrito argumento de Justin Haythe. Com um arrojado e minucioso trabalho de mise-en-scène, uma subtil banda sonora de Thomas Newman - que chega sempre no momento certo - e um absolutamente memorável trabalho de actores (Kate Winslet e Leonardo DiCaprio estão brilhantes e notem-se também os secundários Michael Shannon e Kathy Bates), eis pois - e em suma - uma obra de elevada maturidade e inequívoca competência artística. Mais uma, sob o selo autoral do realizador.

    Cumps.
    Roberto Simões
    CINEROAD - A Estrada do Cinema

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