terça-feira, abril 06, 2010

Twentynine Palms

Um homem e uma mulher viajam, de carro, por Twentynine Palms, onde o deserto e os abertos planos demonstram ser o palco da sua união bipolar e secreta. Tudo e nada sabemos dos dois, tudo e nada eles sabem de si. Assim é que Bruno Dumont, o francês que assinou este outro ensaio sobre a humanidade, filma, com uma câmara clínica, fria, atenta, sem pudores e (acima de tudo) sincera, o sexo, o amor ou as suas intenções, a amizade, a compaixão, a entreajuda e, sobretudo, o que de pior o ser humano pode demonstrar, afastando-se da moral de um lugar que deixa de ter, progressivamente, nome. Pois, perante uma belíssima fotografia, a Morte é quem governa e nos envolve – numa primeira parte, vendo-se inimiga de dois seres que teimam em ignorá-la (seja na estrada, seja numa piscina), numa segunda, vendo-se vencedora ante uma separação, destrutiva (por se antever na progressão relacional que se dava) e horrível (por via de uma catalisadora e inesperada circunstância). É, efectivamente, um filme difícil, amoral na mais profunda essência. Os longos e contemplativos enquadramentos do homem em interacção com uma natureza quase morta, fazem-me crer que esta grande obra não é nem percepciona o vazio ou o niilismo, de todo. E aí reside a sua basilar importância – por subsistir uma humanidade que, tendo que se consciencializar da sua capacidade orgânica de tudo fazer, pode escolher o caminho que há-de seguir. Twentynine Palms é, apenas, um desses destinos.
8/10

domingo, abril 04, 2010

Código Desconhecido

A linguagem tem uma vida própria. A constatação, que podemos considerar factual, apenas serve para minimizar e englobar a dinâmica, recheada de uma rude imprevisibilidade, que é inerente à comunicação entre os seres humanos. O que é o mesmo se disséssemos que o homem tudo e nada sabe de si e da forma como há-de interagir com os sistemas interpessoais que lhe rodeiam. O Código Desconhecido é, na maior das probabilidades, o mais interessante (e arriscado) da filmografia de Michael Haneke, ao lado d’O Sétimo Continente (crítica), que se demonstra mais subentendido e fechado numa só narrativa. Pela câmara gelada que filma, com uma vontade quase voyeurista, um récit incomplet de divers voyages, pela actualidade, pela crueza com que trata a mais dura violência (a que não se vê e a que se exprime na insensibilidade) do mundo contemporâneo e tecnológico. As falsas lágrimas de Binoche são o choro contido de uma sociedade perdida e desesperada por sair da sua zona de conforto. Sem moralismos, aqui, ainda que de forma não contraditória, tudo se pode considerar ambivalente ou até mesmo desconhecido, como trata o título original – pois, apesar de descrever uma realidade que nos é demasiado próxima, o austríaco parece criticar e responsabilizar todas as guerras, toda a manipulação e até mesmo toda a indiferença à Babel que não sabe educar ou educar-se. E, após uma arrepiante sequência contextualizada num metropolitano (que vos deixo em baixo), como se entrássemos num filme de Hitchcock, tudo começa a culminar estranhamente, como que a antecipar um negro, negro fim. Mas, em vez de terminar, a obra, sem dúvida de arte, estende-se e sai à nossa actual existência, deixando-nos a oportunidade para acabar o filme, para desvendar um código que, mais que incógnito, é inteligível e, logo, passível de ser aproveitado em prol de uma positiva mudança de postura, que é necessária na humanidade que corre demasiado depressa. Absolutamente obrigatório.
9/10

Curtas de Tarkovsky (3) - "O Rolo Compressor e o Violino"

Em dia de aniversário (se Andrei Tarkovsky fosse hoje vivo celebraria o seu 78º aniversário), deixo hoje aos leitores a terceira e última curta-metragem do autor - "O Rolo Compressor e o Violino" (Каток и скрипка ou Katok i skripka, em russo), apresentada na URSS no dia 30 de Dezembro de 1961 como filme de final de curso, apesar de produzido pelos estúdios da Mosfilm. Trata de uma amizade entre um aprendiz a violinista - o jovem Sasha, interpretado por Igor Fomchenko - e um operário de rolos compressores - Sergey, encarnado por Vladimir Zamansky. Escrito entre 1959 e 60 por Tarkovsky e Andrei Konchalovsky, este filme magistral, formalmente retratado pela poesia imagética e narrativa que determinaria o futuro da carreira do nosso cineasta, mereceu a condoração do instituto com a classificação de отличный, que é o mesmo que dizer "excelente", a mais alta possível, e o primeiro prémio num festival nova-iorquino para cinema estudantil. De facto, estamos aqui perante uma obra de uma beleza que marcaria o início de uma brilhante carreira, que poderá ser vista, integralmente, no Youtube e aqui, com legendas em inglês.





sábado, abril 03, 2010

Curtas de Tarkovsky (2) - "Hoje não haverá saída livre"

"Hoje não haverá saída livre" (ou, se preferirmos, Сегодня увольнения не будет... / Sevodnya uvolnyeniya nye budyet), título abreviado do literal "Hoje não poderemos abandonar as nossas posições", é o segundo filme de Tarkovsky enquanto estudante do actual Instituto Cinematográfico da Federação Russa (VGIK), que realizou, em 1959, com o seu colega Aleksandr Gordon. Com duração aproximada de 46 minutos, esta média metragem debruça-se sobre o exército soviético durante tempos de paz, glorificando-o, o que nos parecerá estranho se tivermos em conta toda a filmografia do cinesta russo. Na verdade, e ao contrário do precedente "Os Assassinos", este filme teve o apoio financeiro da televisão soviética, que esperava um filme de propaganda para ser exibido no aniversário da capitulação da Alemanha nazi durante a Segunda Guerra Mundial. Isto permitiu que os dois realizadores pudessem filmar actores profissionais (como é o caso de Oleg Borisov) e tivessem disponível armamento e figurinos relativos ao exército. As filmagens, que tomaram três meses do tempo em Kursk, viram-se editadas posteriormente durante um igual período de doze semanas. O resultado interessante pode ser visionado na íntegra, com legendas em francês (em baixo dos vídeos) e em inglês (em cima), no Youtube e aqui:





sexta-feira, abril 02, 2010

Curtas de Tarkovsky (1) - "Os Assassinos"

"Os Assassinos" (Убийцы ou Ubiytsy no russo original) foi o primeiro filme com a mão de Andrei Tarkovsky. Trata-se de uma curta-metragem de 19 minutos realizada enquanto estudante da VGIK, co-assinado pelos colegas Marika Beiku (com quem realizou as duas primeiras cenas) e Aleksandr Gordon (que realizou a terceira e última), devido a falta de equipamento que levou à decisão de trabalhos em grupo. É a adaptação de um conto de Ernest Hemingway escrito em 1927, escolhido pelo próprio Tarkovsky, que montou com os outros dois o cenário de um bar norte-americano, na altura visto como sinal de perversidade e atractivo para os jovens. Os actores são estudantes do instituto de cinema, pelo que a câmara e a luz estiveram a carga dos colegas Alfredo Álvarez e Aleksandr Rybin. O resultado esperado foi a congratulação do seu professor, Mikhail Romm. Podemos ver na íntegra esta obra, legendada, no Youtube, em inglês ou castelhano. Aproveitem-na.


quinta-feira, abril 01, 2010

Um passeio tarkovskyano

Sair de casa e passear pelo mundo com o olhar de Andrei Tarkovsky é passear por ele e olhá-lo de uma forma mais diferente, reconhecendo a beleza e a intersubjectividade sensorial que, no final de contas, lhe é inerente. A câmara, contemplativa, meditativa e limpa, mergulhando na nostalgia e destino que todos parecemos compartilhar, é a força nova e viva daquele que quer tratar a condição humana nas suas diversas faces e plenitude. Ingmar Bergman considerou-o o “maior” cineasta de todos, por ter inventado uma “nova linguagem”, captando “a vida como uma reflexão, a vida como um sonho”. Por assim ser, e por reconhecermos a enorme influência que o autor detém nos dias que correm, o blog, durante o mês de Abril (que celebrará o seu 78º aniversário), dedicar-se-á àquele que é um dos maiores mestres do puro cinema.

Андре́й Арсе́ньевич Тарко́вский, nascido, no dia 4 de Abril de 1932, em Zavrazhye (uma vila de Óblast de Ivanovo da actual Federação Russa), foi filho do poeta e tradutor Arseni Alexandrovich Tarkovsky, espectro do lirismo da sua filmografia, e de Maria Ivanova Vishnyakova, licenciada no Instituto de Literatura Máximo Gorki, a quem dedica o filme “Nostalgia”. Passando uma juventude típica mas inspiradora, marcada pela ausência do pai em 1937, onde viria a voluntariar-se para o exército soviético em 1941, Andrei muda-se, com a mãe e irmã Marina, para Moscovo. Durante a Segunda Grande Guerra vive temporariamente com a avó materna em Yuryevets, mudando-se de novo para Moscovo em 1943, onde regressa aos estudos na antiga Escola de Moscovo nº 554 e aprende a tocar piano. Do Outono de 1947 à Primavera de 1948 passa o seu tempo no hospital por causa da tuberculose sofrida, tempo a que se dedicará analisar no filme “O Espelho”. Vive-se no mundo os tempos da Guerra Fria entre o bloco oriental, dominado pela URSS, e o bloco ocidental, liderado pelos EUA. De 1951 a 52 estuda a língua árabe, acabando por não concluir o curso e por realizar uma expedição pelo rio Kureikye até 1954. É, mais tarde, na taiga russa, que Tarkovsky decide estudar cinema, sendo admitido no actual Instituto Cinematográfico da Federação Russa, VGIK, em 1956. Lá, conhece Irma Raush, com quem casa em Abril de 1957. Finda uma época de forte repressão soviética, Nikita Khrushchev, que comandou a URSS, deu espaço para os jovens artistas conhecerem o trabalho exterior. Assim foi que Tarkovsky conheceu os filmes neorealistas, da nouvelle vague, Kurosawa, Buñuel, Bergman, Bresson e Mizoguchi, reforçando o ideal do cinema de autor. Em 1956, realiza o seu primeiro filme como estudante – “Os Assassinos”, uma adaptação de um conto de Ernest Hemingway –, em 1958 produz “Hoje não haverá saída livre” e, em 1959, escreve o guião “Concentrado”. Conhece, neste ano, Andrei Konchalovsky, com quem escreve o guião “Antárctica – Terra Distante” e, mais tarde, “O Rolo Compressor e o Violino”, que realiza, em 1960, no seu final de curso, vencendo o primeiro prémio de um festival nova-iorquino para cinema estudantil, em 1961. Um ano mais tarde, realiza a sua primeira obra (uma obra-prima por sinal): “A Infância de Ivan”, calhando por receber o cobiçado Leão de Ouro, em Veneza, e por coincidir com o nascimento do seu primeiro filho, Arseny (ou Senka, como lhe chamava), no dia 30 de Setembro. Em 1965 realiza “Andrei Rublev”, uma biografia do maior pintor russo de ícones, frescos e miniaturas para iluminuras, que viria a ser lançado na URSS em 1971 (numa versão cortada, dada a forte censura) e a ganhar em Cannes o prémio FIPRESCI, em 1969. Divorcia-se em 1970 de Irma, casando, no mesmo ano, com Larissa Kizilova (produtora de “Andrei Rublev” com quem vivia desde 1965) e tendo, também no mesmo ano, o filho Andrei Tarkovsky Jr., no dia 7 de Agosto. Em 1972 lança “Solaris”, que, em Cannes, é nomeado para a Palma de Ouro e vence o Grande Prémio Especial do Júri e o prémio FIPRESCI. De 1973 a 74 produz “O Espelho”, cujo argumento tinha já iniciado desde 1967 sob os títulos “Confissão”, “Dia Branco” e “Um Branco, Branco Dia”. Por se considerar dotado de uma natureza elitista, as autoridades soviéticas categorizaram o filme como de terceira categoria, o que implicava sérias dificuldades de distribuição. Isto motivou a que, mais tarde, o cineasta saísse da indústria russa e fosse para o estrangeiro. Em 1975 escreve o guião “Hoffmanniana”, inspirado na vida do poeta alemão E. T. A. Hoffmann e, no ano seguinte, produziu “Hamlet” em teatro, em Moscovo. “Stalker”, vencedor do prémio ecuménico do júri em Cannes, apresentado em 1979 após sérias dificuldades de produção e na vida pessoal do autor (no ano anterior, Abril, tinha este o seu primeiro ataque cardíaco), marcava o fim da sua carreira na União Soviética. Isto porque no mesmo ano, Tarkovsky iniciava o seu novo projecto (chamado “O Primeiro Dia”, contextualizado na Rússia do século XVIII que, de modo a não ser censurado, viu ser entregue um argumento às autoridades diferente do original, que criticava o assumido ateísmo da URSS). Este fora, contudo, interrompido pelo “Goskino” (o órgão que regulamentava o cinema estatal), quando se apercebeu da falsidade do argumento entregue. Tarkovsky, furioso, desistiu do filme e partiu para outro, “Tempo de Viagem”, documentário para a RAI que, passado em Itália, co-assinou com Tonino Guerra, e escreve “Nostalgia”. Após dois anos de viagem pelo Reino Unido e Suécia, regressa a Itália e filma-o, completando-o em 1983, vencendo, em Cannes, o Grande Prémio Especial do Júri, o prémio FRIPRESCI e o ecuménico do júri. Apenas não levou a Palma de Ouro pelas advertências das autoridades soviéticas. Por este facto, Tarkovsky decidiu jamais voltar para o seu país de nascença, pelo que o seu filho, Andrei Jr., foi impedido de sair da URSS. No mesmo ano, prepara a ópera “Boris Godunov” na Royal Opera House, em Londres e planeia a sua última e grande obra: “O Sacríficio”, que, em Cannes, apresenta em 1986, após lhe ter sido diagnosticado um cancro terminal no pulmão. Sobrevivia à doença em Paris, ao lado da sua mulher e filho cuja saída da URSS é, enfim, permitida. Os três mesmos prémios no festival de sul de França são, portanto, recebidos pelo filho de Tarkovsky, dado o seu frágil estado. Após, no dia 15 de Dezembro de 1986, ter escrito a última entrada do seu diário (“mas agora não tenho forças que cheguem – é esse o problema”), Tarkovsky morre no dia 29, sendo enterrado no dia 3 de Janeiro do ano seguinte. A polémica instalou-se, contudo, com a causa da morte do cineasta, da mulher e do actor Anatoli Solonitsyn – foi indicado o cancro como a mais provável, até surgirem suspeitas que a KGB os teriam envenenado.

Assim se procedeu a atribulada de Andrei Tarkovsky. Mais que um cineasta, foi um filósofo das imagens, um visionário que deambulou pelas questões essenciais da vida, tratando a metafísica das coisas simples que, pela sua particularidade, contêm a maior universalidade e intemporalidade de todas.