Poderia discorrer aqui sobre o variadíssimo conjunto de memórias evocado por cada uma destas canções, ou sobre a influência da música, em geral, na minha vida, mas, depois de breve actividade reflectiva, decido apenas deixar-vos, a título de sugestão, algumas das músicas que me transportam até ao verão de ano passado. É tarde, afinal, e o objectivo e conteúdo deste posts eram drasticamente diferentes quando fiz log in no blogger (péssima desculpa para justificar a inexistência de um texto que tornaria este post ligeiramente menos filler, eu sei...).
quinta-feira, março 18, 2010
domingo, março 14, 2010
Disponível para Amar
Há qualquer coisa de simultânea e paradoxalmente compreensível e indefinível na gramática de Disponível para Amar ou, se quisermos incorrer a generalizações, no cinema de Wong Kar-Wai. Se, por um lado, consideramos que o autor tem criada, aqui, uma ponderada lógica formal e narrativa na demonstração das múltiplas jornadas do ser humano que se entrecruzam, por outro, consideramos também que a abordagem subjectiva e indirecta de tratar o interior do homem é, tal como ele, indeterminável e dotado de uma imprevisibilidade e desentendimento distintivos. A sua arte é e não é subtil: é-o em comparação ao folclore hiperactivo dos filmes que afundam as actuais salas, e não o é pois, ainda que com um requinte paulatino, testemunha e guarda, com uma alegria, uma energia e um calor evidentemente sensacionistas, as memórias de um universo que transborda, todo ele, tão fora como dentro da mente dos anónimos actores, de uma beleza fulgurante e extrema. O que não é, na verdade, ambíguo e flutuante na forma como Kar-Wai cria é o reconhecimento da importância daquilo que faz, sobretudo deste filme – estudar o amor e, sem cair nas conhecidas americanizações, reformular a maneira como é este tratado, tendo sempre em atenção manter a sua original forma, é, dizemos para nós, uma árdua tarefa. O poeta do oriente tem, e sabe-lo bem, o dom de a fazer com uma deslumbrante facilidade e esta grande, grande obra é um bom exemplo disso.
Desmistificando a ideia de que é preciso haver concretização e consumação física para a existência (ou o assumir) de algo de tão cristalino como o amor, vemo-lo captado, a par da angústia advinda da existência das barreiras da moralidade e das convenções sociais ou do prazer quase orgásmico na simples vivência do quotidiano (um pouco como em “Um Homem Singular”, a recente estreia debutante de Tom Ford, curiosamente também ambientado nos anos 60), em sequências, quase dependentes entre si, que fundem, na totalidade, a preciosa imagética e a música. Se na representação mais objectiva da realidade encontramos deliciosos enquadramentos dos nossos dois protagonistas, casados, que se unem pela espontaneidade das circunstâncias do dia-a-dia, interpretados magistralmente por Tony Leung e Maggie Cheung, tal como achamos diálogos naturalistas de magnífico pendor, então na representação mais subjectiva do mundo, onde a câmara se embebeda pela psique das personagens, temos extraconsiderados, pelo slow motion, os singelos gestos de cada um, a linguagem corporal e emocional que por si dita a beleza, filmados através de sequências que valorizam o perfeito casamento entre a luz brilhante, a hiper-saturação, o contraste das cores que pintam o guarda-roupa e os cenários escolhidos a dedo; a música, repetida, leve e trágica (seja “Aquellos ojos verdes”, “Quizas”, ou, particularmente, “Yumeji’s Theme”); a montagem, atípica e delinquente. Cada frame evidencia uma acuidade e reflexão possantes onde até o tempo, que se perde em si à medida que a história se intensifica e auto-mutila, desempenha um fulcral elemento. Assim se justifica o título original da película, "A época das cerejeiras", aludindo ao simbolismo que a flor de cerejeira representa, o amor, a beleza, a juventude e a passagem do tempo. O que o nosso casal protagonista afigura estende-se por todos os espectadores que com disposição recebam a fita. A liberdade de poder amar e de poder ser amado é, talvez, um dos bens mais raros da humanidade.
Assim, tudo é essencial para maximamente ser vivido – assim é a filosofia do asiático que, tendo escrito e realizado o filme, acabou por nos deixar o que acaba por ser uma das maiores histórias de amor do cinema. A sequência que, por fim, vos deixo é das mais belas (não haverá palavra mais certa) que alguma vez verão ou voltarão a ver. Resta-nos agradecer a Kar-Wai.
9,5/10
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Kar Wai Wong
quinta-feira, março 11, 2010
Um apelo
“Negro” foi uma das palavras, para além de altamente “incerto”, que utilizei, numa publicação em Fevereiro passado, para descrever o actual panorama do cinema nacional – e, dizemos para nós, correctamente. Foi hoje arremetida uma petição, designado como Manifesto pelo Cinema Português, por produtores de cinema e realizadores como Manoel de Oliveira, Fernando Lopes, Paulo Rocha, Alberto Seixas Santos, Jorge Silva Melo, João Botelho e Pedro Costa. Passo a transcrever, integralmente, a notícia lançada hoje pela versão online do jornal Público:
Manifesto de realizadores e produtores alerta para “catástrofe iminente” do cinema português
Um conjunto de realizadores portugueses, entre os quais Manoel de Oliveira, Fernando Lopes, Paulo Rocha, Alberto Seixas Santos, Jorge Silva Melo, João Botelho e Pedro Costa, e de produtores de cinema, lançaram hoje uma petição Manifesto pelo Cinema Português, dirigida à ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas. O texto (disponível no site Petição Pública e que será publicado amanhã no PÚBLICO) traça um quadro negro da situação no cinema que, dizem os subscritores, “vive hoje uma situação de catástrofe iminente e necessita de uma intervenção de emergência por parte dos poderes públicos”.Manoel de Oliveira é um dos signatários.
Afirmando que o financiamento do cinema português “desceu na última década mais de 30 por cento” (e lembrando que este é financiado por uma taxa sobre a publicidade e na televisão) e que “a produção de filmes, documentários e curtas-metragens não tem parado de diminuir”, os realizadores e produtores criticam sobretudo a “enorme encenação [...] que só serviu para legitimar o oportunismo de uns tantos” que foi a criação de um Fundo de Investimento para o Cinema e o Audiovisual (FICA).
Este fundo, que “era suposto trazer à produção 80 milhões de euros em cinco anos”, está “paralisado e manietado pelos canais de televisão e a Zon Lusomundo”, dizem. Investiu-se “quase nada” e o pouco que se investiu foi “em coisas sem sentido”. Por isso, os subscritores consideram “imperioso e urgente” que se normalize o funcionamento do Fundo “multiplicando as verbas disponíveis para investimento na produção de cinema e “tornando as suas regras de funcionamento transparentes e indiscutíveis.” O FICA foi criado em 2007 e envolve, para além do Estado, a Zon, a TVI, a SIC e a RTP (mas não o Meo, a Cabovisão e o Clix, facto que os produtores e realizadores também contestam).
Pedem ainda à ministra – “depois de mais de seis anos de inoperância e desleixo dos sucessivos ministros da Cultura, que conduziram o cinema português à beira da catástrofe” – uma política que leve à “normalização da relação da RTP com o cinema português, fazendo-a respeitar o Contrato de Serviço Público” e que aumente “de forma significativa o número de filmes, de primeiras-obras, de documentários, de curtas-metragens, produzidos em Portugal.”
Entre os subscritores do manifesto, que sublinham o “indiscutível prestígio internacional do cinema português”, estão ainda os realizadores João Canijo, Teresa Villaverde, Margarida Cardoso, Bruno de Almeida, Catarina Alves Costa e João Salaviza e produtores como Maria João Mayer (Filmes do Tejo), Alexandre Oliveira (Ar de Filmes) e Pedro Borges (Midas Filmes).
Deixo, também, o manifesto integral, que pode ser visto e assinado (sugiro que todos o façam), se acederem a partir daqui:
Na minha perspectiva e muito infelizmente, constato que este manifesto de (muito) pouco servirá para salvar o nosso cinema. E digo “nosso” para sublinhar o carácter de pertença de uma cultura que é nossa, minha, dos amigos e, como nos parece óbvio, dos leitores e bloggers. O que quero, mais uma vez, apelar é à reversão do nosso papel passivo, na análise de uma sociedade indiferente ao avanço e relançamento de uma expressão de arte perdida nacional e internacionalmente, para uma postura mais activa neste movimento. E, caríssimos, torna-se urgente fazermos algo, neste momento, enfim, abanarmos um governo desinteressado e uma política de insensibilidade e displicência centenária. E este apelo à sensibilização colectiva dos autores dos blogs de cinema portugueses e restantes cinéfilos, este apelo a que nos unamos na frente pelo cinema de Portugal é, sim, desesperado, pois não podemos, de forma alguma, cair no erro de deixarmos que a situação piore ainda mais do que já está. Algo, urgentemente, tem que ser feito e isso só acontecerá, leitores, se estivermos todos com disposição para tal. Porque crítica sem acção não é crítica, é capricho infundado e inútil. Porque voltarmos as costas ao que é nosso para nos satisfazermos apenas com o que vem de fora é voltarmos as costas ao nosso futuro.
Nunca como nos últimos vinte anos teve o cinema português uma tão grande circulação internacional e uma tão grande vitalidade criativa. E nunca como hoje ele esteve tão ameaçado.
No mesmo ano em que um filme português ganhou em Cannes a Palma de Ouro da curta-metragem e tantos e tantos filmes portugueses foram vistos e premiados um pouco por todo o mundo, o cinema português continua a viver sob a ameaça de paralisação e asfixia financeira.
Desde há dez anos que os fundos investidos no cinema não cessaram de diminuir: a produção e a divulgação do cinema português vivem tempos cada vez mais difíceis.
E a criação de um Fundo de Investimento (e a promessa de um grande aumento de financiamentos), revelou-se uma enorme encenação que na generalidade só serviu para legitimar o oportunismo de uns tantos.
O cinema português vive hoje uma situação de catástrofe iminente e necessita de uma intervenção de emergência por parte dos poderes públicos e em particular da senhora Ministra da Cultura.
O cinema português - o seu Instituto - ao contrário do que é repetido vezes sem conta, é financiado por uma taxa (3,2%) sobre a publicidade na televisão, e não pelo Orçamento de Estado.
O financiamento do cinema português desceu na última década mais de 30% e a produção de filmes, documentários e curtas-metragens, não tem parado de diminuir.
O Fundo de Investimento no cinema, que era suposto trazer à produção 80 milhões de euros em cinco anos, está paralisado e manietado pelos canais de televisão e a Zon Lusomundo, e não só não investiu quase nada, como muito do pouco que investiu foi-o em coisas sem sentido.
Por isso se torna imperioso e urgente
a) normalizar o funcionamento desse Fundo e multiplicar as verbas disponíveis para investimento na produção de cinema, nomeadamente multiplicando as receitas do Instituto de Cinema, e tornando as suas regras de funcionamento transparentes e indiscutíveis;
b) normalizar a relação da RTP (serviço público de televisão) com o cinema português, fazendo-a respeitar a Lei e o Contrato de Serviço Público, assinado com o Estado Português;
c) aumentar de forma significativa o número de filmes, de primeiras-obras, de documentários, de curtas-metragens, produzidos em Portugal;
d) e actuar de forma decidida em todos os sectores – não apenas na produção, mas também na distribuição, na exibição, nas televisões (e em particular no serviço público), e na difusão internacional do cinema português.
Depois de mais de seis anos de inoperância e desleixo dos sucessivos Ministros da Cultura, que conduziram o cinema português à beira da catástrofe, impõe-se:
1. Normalizar o funcionamento do FICA (Fundo de Investimento para o Cinema e Audiovisual) reconduzindo-o à sua natureza original: um fundo de iniciativa pública, tendo como objectivo o aumento dos montantes de financiamento do cinema e da ficção audiovisual original em língua portuguesa e o fortalecimento do tecido produtivo e das pequenas empresas de produção de cinema. E fazer entrar nos seus participantes e contribuintes os novos canais e plataformas de televisão por cabo (meo, Clix, Cabovisão, etc), que inexplicavelmente têm sido deixados fora da lei;
2. Multiplicar as fontes de financiamento do cinema português, nomeadamente junto da actividade cinematográfica, recorrendo às receitas da edição DVD (a taxa cobrada pela IGAC, cuja utilização é desconhecida, e que na última década significou dezenas de milhões de euros); à taxa de distribuição de filmes (que há décadas não é actualizada) e à taxa de exibição. As receitas das taxas que o Estado cobra ao funcionamento da actividade cinematográfica devem ser integralmente reinvestidas na produção e na divulgação do cinema português (produção, distribuição, edição DVD, circulação internacional);
3. Aumentar as fontes de financiamento do Instituto de Cinema, para aumentar o número, a diversidade, a quantidade e a qualidade, dos filmes produzidos. Filmes, primeiras-obras, documentários, curtas-metragens, etc.
4. Apoiar os distribuidores e exibidores independentes, e estimular o aparecimento de novas empresas nesta actividade, de forma a que o cinema português, o cinema europeu e o cinema independente em geral, possam chegar junto do seu público. E apoiar os cineclubes, as associações culturais e autárquicas, os festivais e mostras de cinema, que um pouco por todo o país fazem já esse trabalho;
5. Fazer cumprir o Contrato de Serviço Público de Televisão por parte da RTP, que o assinou com o Estado Português, e que está muito longe de o respeitar e às suas obrigações, na produção e na exibição de cinema português, europeu e independente em geral. E contratualizar com os canais privados e as plataformas de distribuição de televisão por cabo, as suas obrigações para com a difusão de cinema português.
O cinema português, que vale a pena, tem hoje em dia, apesar da paralisia, quando não da hostilidade, dos poderes públicos, um indiscutível prestígio internacional. Os seus realizadores, actores, técnicos, produtores, não deixaram de trabalhar apesar de tudo o que se tem vindo a passar. Está na altura de os poderes públicos assumirem as suas responsabilidades.
É necessária uma nova Lei do Cinema, mas é urgente uma intervenção de emergência no cinema português.
Na minha perspectiva e muito infelizmente, constato que este manifesto de (muito) pouco servirá para salvar o nosso cinema. E digo “nosso” para sublinhar o carácter de pertença de uma cultura que é nossa, minha, dos amigos e, como nos parece óbvio, dos leitores e bloggers. O que quero, mais uma vez, apelar é à reversão do nosso papel passivo, na análise de uma sociedade indiferente ao avanço e relançamento de uma expressão de arte perdida nacional e internacionalmente, para uma postura mais activa neste movimento. E, caríssimos, torna-se urgente fazermos algo, neste momento, enfim, abanarmos um governo desinteressado e uma política de insensibilidade e displicência centenária. E este apelo à sensibilização colectiva dos autores dos blogs de cinema portugueses e restantes cinéfilos, este apelo a que nos unamos na frente pelo cinema de Portugal é, sim, desesperado, pois não podemos, de forma alguma, cair no erro de deixarmos que a situação piore ainda mais do que já está. Algo, urgentemente, tem que ser feito e isso só acontecerá, leitores, se estivermos todos com disposição para tal. Porque crítica sem acção não é crítica, é capricho infundado e inútil. Porque voltarmos as costas ao que é nosso para nos satisfazermos apenas com o que vem de fora é voltarmos as costas ao nosso futuro.
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Flávio Gonçalves
segunda-feira, março 08, 2010
"E esse homem sou eu..."
Portanto, eu tinha um problema: justificar a vida em face da inverosimilhança da morte. E nunca mais até hoje eu soube inventar outro. De que poderia falar na conferência? Nada mais há na vida do que beber até ao fim o vinho da iluminação e renascer outra vez. Riqueza ou miséria, ciência, glória, vexame, e a política e até a arte para tantos artistas, conhecimento do homem no corpo e no espírito – quantos modos de esquecer ou de não saber ainda o pequeno problema fundamental. Mas o que é extraordinário e me exaspera é que eu próprio tenha precisado de uma vida inteira para o saber. E quantas vezes agora o esqueço? O mais forte em nós é esta voz mineral, de fósseis, de pedras, de esquecimento. Ela germina no homem e faz-lhe pedras de tudo. Assim, quando procuro em mim a face original da minha presença no mundo, o que descubro não é o alarme da evidência, o prodígio angustioso da minha condição: o que descubro quase sempre é a indiferença bruta de uma coisa entre coisas. Eis-me aqui escrevendo pela noite fora, devastado de Inverno. Eis-me procurando a verdade primitiva de mim, verdade não contaminada ainda da indiferença. Mas onde esse sobressalto de um homem jogado à vida no acaso infinitesimal do universo? Se meu pai não tivesse conhecido minha mãe; se há cem anos, há mil anos, há milhares e milhares de anos um certo homem não tivesse conhecido certa mulher; se… Nesta cadeia de biliões e biliões de acasos, eis que um homem surge à face da Terra, elo perdido entre a infinidade de elos, de encruzilhadas – e esse homem sou eu…
E todavia, agora que me descubro vivo, agora que me penso, me sinto, me projecto nesta noite de vento, de estrelas, agora que me sei desde uma distância infinita, me reconheço não limitado por nada mas presente a mim próprio como se fosse o próprio mundo que sou eu, agora nada entendo da minha contingência. Como pensar que «eu poderia não existir»? Quando digo «eu», já estou vivo… Como entender que esta iluminação que sou eu, esta evidência axiomática que é a minha presença a mim próprio, esta fulguração sem princípio que é eu estar sendo, como entender que pudesse «não existir»? Como pensar que é nada? A minha vida é eterna porque é só a presença dela a si própria, é a sua evidente necessidade, é ser eu, EU, esta brutal iluminação de mim e do mundo, puro acto de me ver em mim, este SER que irradia desde o seu mais longínquo jacto de aparição, este SER-SER que me fascina e às vezes me angustia de terror… E todavia eu sei que «isto» nasceu para o silêncio sem fim…
Reler um ou outro excerto de Aparição, da autoria de Vergílio Ferreira, é como se estivesse a lê-lo pela primeira e inédita vez. Reflectindo sobre a identidade, a existência, a vida e a morte, o luto, a realidade, a percepção e o significado de nos "sabermos", pode-se dizer que a abismal importância do livro permanece actual – a sua universalidade e intemporalidade é, há que o admitir, incontestável. Sem dúvida: uma das maiores obras da “nossa” literatura, da arte de toda a humanidade.
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Vergílio Ferreira
domingo, março 07, 2010
O triunfo da popularidade
Será daqui a algumas horas (quatro, mais ou menos) que muitos de nós, na melhor das hipóteses, nos reuniremos frente à televisão (sintonizada naquele canal que, de mim, só retira o sentimento de aversão, tal é a sua colossal qualidade), esperando saber, em directo e em primeira mão, quais os vinte e quatro vencedores da 82ª cerimónia dos Óscares, realizada, como já tem sido habitual, no palco da Kodak Theatre, em Los Angeles.
A megalómana cerimónia, se antes reconhecida por ser a mais importante e crível no que toca à gratificação daquele que seria, supostamente, “o” filme do ano, depois da revolução a que a Internet foi responsável, tem vindo a perder a magia que a envolvia, tal como a sua credibilidade. Centrada em Hollywood, desmascaram-se as tentativas de propaganda aos votantes, assumiu-se implicitamente a vontade expressa de influenciar aqueles que decidem, anualmente, o melhor que foi feito na sétima “arte”, tal como se declarou, pública e subtilmente, o centralismo norte-americano de que vivem os Óscares. Sempre assim foi, não nos iludamos. É uma evidência que cada cinéfilo tem que aceitar – e o facto de, em 2010, estarem nomeados 10 filmes em vez de 5 para promoção e busca de audiências televisivas e, também, de estarem divididos melhor filme / melhor filme estrangeiro, ilustra bem esta realidade. Algo que, também implicitamente, se tem vindo a assumir é a busca de inclusão dos filmes independentes (ou, pensando melhor, “so called”): “Juno” e “Little Miss Sunshine” são dois exemplos passados bem ilustrativos do que acabo de falar. Contudo, esta procura por um equilíbrio entre aquilo que vem da indústria e aquilo que é mais “diferente” (reforcem-se as aspas), algo que foi visto como claro aquando da luta, ano passado, entre “O Estranho Caso de Benjamin Button” e “Quem Quer Ser Bilionário?”, tem vindo a acentuar as dificuldades internas da Academia em agradar tudo e todos. O que é, obviamente, compreensível. Cada vez mais o cinema se tem fragmentado (seja em género, seja em modus operandi, seja em intenções, seja em origem), e a busca por um consenso que faça reunir, novamente, milhões frente a um televisor para ver a entrega dos Óscares (como aconteceu aquando das gratificações “Titânic”a e “Gump”iana) é já uma utopia declarada. A estatueta dourada, perdendo o seu brilho, importância e “glamour”, não passa hoje disso mesmo: de um prémio merecedor de quarenta e cinco segundos em agradecimentos, de um nome e de uma tira de DVD (como nos falava o jornal “Ípsilon”, na passada sexta-feira). Os Óscares passaram a desempenhar uma função social, em vez de reconhecer a qualidade e o valor das obras que vai nomeando (onde está “Um Homem Singular”?): e tudo depende do contexto. Se “Forrest Gump” venceu e calcou “Pulp Fiction” depois da celebração do belíssimo “A Lista de Schindler”, foi para manter o equilíbrio de felicidade e esperança que o cinema supostamente deveria transmitir. O mesmo, exactamente, se sucedeu ano passado: depois do niilismo de “Este País não é para Velhos”, tornou-se óbvia a vitória do slumdog, dos pobres, do “desigual”, do brilho, da esperança, da mudança (veja-se a vitória de Obama nesse tempo). E se a cerimónia de hoje passar, apenas e só, pela reprodução do que se sucedeu com os passados Globos de Ouro (mas com uns passos de dança como ano passado), então aguarda-nos uma valente perda de tempo.
A Academia não gosta de surpreender, digam o que almas sábias disserem – numa altura em que, sob pressão das cadeias televisivas, se vê obrigada a navegar entre a popularidade das suas películas, torna-se clara a vitória do Rei do Mundo. “Avatar” (crítica) percorreu países, é dos filmes mais rentáveis de sempre (“o” mais, dizem!), esteve sob o signo da revolução técnica, a sua magnificência requer-se imortal e incontestável (é o que se diz, e não me atreveria a calar um planeta embusteado). Mas bem… se há um Óscar que, ano menos ano, será criado e que deveria ser entregue a posteriori a este trabalho de pirotecnia, seria o de Melhor Propaganda. Mas, não sei bem porquê, cansa-me falar deste filme. A sua rivalidade não é a melhor, também é certo: “Precious” é o filmezito que Oprah tanto quis produzir e que não passa de um mega-dramalhão que sobrevive das suas interpretações, “Nas Nuvens” é a crítica social da actualidade que se perde num guião típico, “UP – Altamente!” é a respeitada execução da Pixar que se clonou e fugiu da categoria a que pertence (melhor filme de animação), “Estado de Guerra” é o gelado voyeur de um país frágil pela guerra no Iraque, “Um Homem Sério” é o resultado desequilibrado de dois irmãos que sabem que poderiam ter feito mais. Há a triste certeza de que “Distrito 9” (a docureflexão original e inédita de uma humanidade cruel e discriminatória) e “Uma Outra Educação” (a simples mas cativante história que versa a jornada de uma estudante dos anos 60 dividida entre duas escolhas sociais) não vingarão. Resta-nos “Um Sonho Possível” (que aguardo com o entusiasmo característico de alguém a morrer) e “Sacanas sem Lei”. E este, sim, é cinema puro, inteligente, no seu estado vertiginoso e ávido. Ainda que naturalmente pretensioso na sua aura de marketing, a qualidade da obra (na narrativa, montagem, interpretações, fotografia) e talento de Tarantino fazem-me acreditar o justíssimo vencedor seria este – algo que não acontecerá, infelizmente. Sempre posso estar errado (gostava, desta vez, que sim), mas a mega-produção de James Cameron tem demasiados fãs para que a Academia os desiluda. Lá se encontra a função social de que vos falei. Gostava, por fim, de ver Colin Firth e Michael Haneke a discursar – ganharia a noite se os visse no meu televisor.
Não vos minto, contudo: penso que será o sonho de qualquer um de nós, que gostasse de enveredar pelos caminhos suicidas do cinema, subir as escadas daquele palco e receber, nas mãos, a estatueta. O peso desta, nesse momento, estará de tal forma agigantado que nos aperceberíamos, aí, que os Óscares ainda vão sobrevivendo, apesar de todas as suas contradições e desequilíbrios. Continuam a ser o momento que leva o meu coração a acelerar-se quando ouço o “and the Oscar goes to”. Cada vez mais tem chorado e desiludido, mas essa é outra história.
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segunda-feira, março 01, 2010
Março e Wong Kar-Wai
A Primavera estará, este ano, associada a um dos maiores nomes do cinema contemporâneo - o chinês Wong Kar-Wai que traz à iniciativa preconizada, uma vez mais, pelos blogues CINEROAD, O Sétimo Continente e Split Screen, uma visão oriental e delicada do ser humano e das vertentes mais profundas nas quais este mergulha. Assim será que o amor, as convenções, o desejo e a procura inconstante da felicidade serão tratados por este sublime artista que captará estes temas predilectos filmando a errância contínua de múltiplos espíritos (encarnados, não poucas vezes, pelos mesmos corpos actuantes), que se cruzam nas disformes instâncias da vida. O seu estilo formal procede-se pela via de uma característica e única procura de coadunar a imagem, que vive das fortes e contrastantes cores, dos cenários que por si falam e de uma pormenorização na caracterização das personagens e guarda-roupa, com o som, que encontra na melodia e na música um meio de entrar na mente dos protagonistas, com a narrativa, que não mais tenta senão descrever as típicas e sofridas jornadas de qualquer pessoa. Desta forma, a juntar esforços para tudo isto analisar, contamos com o blogue Cinema as my World, convidado neste Março vivaz e apaixonado. Desejo a todos os autores boa sorte e uma rica experiência, tal como aos leitores, que espero que nos acompanhem com atenção - Kar-Wai o merece, e a Primavera também.
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