O homem é um ser cujas necessidades primárias passam, de forma necessária e irredutível, pela sua sexualidade porquanto é hoje sabido e comprovado pela ciência. Tal como Haneke bem o sabe, vivemos, na actualidade, numa sociedade que extrapola os anseios carnais pela via do consumo de pornografia, seja esta directamente demonstrada ou não, e ainda que, de maneira ambivalente, o Ocidente condene os mais “perversos” (reforcem-se as aspas) actos sexuais. E é, a respeito disto, sob este fantasma intocável da dissonância cognitiva com que navegamos, que o cineasta austríaco aproveita e se insurge com “A Pianista”, uma excelente reflexão (excessivamente?) intimista sobre os nossos mais secretos desejos.
É a plácida e requintada melodia de Schubert que nos apresenta — expõe — a nossa protagonista, magnificamente encarnada por Huppert, que se entrega à máxima representação da procura pela libertação e consumação das suas vontades. Grandemente provocador, podemos considerar que temos sobre nós um minucioso estudo psicanalítico de personagens e, como já nos é habituado, um estudo sociológico do contexto específico que as envolvem. Porque para a constituição de uma dada personalidade, tudo se mostra determinante (daí podermos considerar o cuidado na montagem de cenário estético), sendo que Haneke vê e recria a realidade como uma ficção verdadeira e complexa onde, não sendo coerciva à individuação pessoal, coabitam diversos e caóticos elementos socioculturais e individuais grandemente influenciadores do recalcamento (ou não) de certas atitudes, sejam estas perspectivadas a nível sexual ou não. Tudo em “A Pianista” é efectivo, plausível, certo — a sua actualidade e crueza não se devem apenas à história e criatividade pessoais do cineasta, mas sim a estudos externos, corroborados, como os que nos deixou o fundador da psicanálise. Freud é, portanto, uma figura que se encontra invisível nesta derradeira (feliz ou infeliz?) jornada, ou, para sermos mais precisos, os estudos que este nos deixou sem os quais o austríaco não se poderia basear e completar uma análise tão precisa do sexo e das, mais uma vez as aspas, “depravações” consequentes, criadas, à sua maneira, por cada agente activo nesta sociedade em que vivemos, repressora daquilo que considera ser tabu e proibido. Não é, certamente, pela via da visualização de cada imagem, simples e desinteressada, que chegaríamos ao âmago de uma protagonista tão inquietante e controversa (sê-lo-á, para nós, porquê?), até porque a dura e inflexível exactidão estética e narrativa não o permitiria, de todo, obrigando-nos a estar, permanentemente, frente ao “ego” dela. É, pois, através da interpretação ulterior que mergulhamos e analisamos, enfim, o inconsciente da personagem, no qual submerge parte do seu “superego”, resultado das imposições morais aprendidas numa sociedade orientada por paradigmas, representações e estereótipos, que guiará as acções de cada um de nós. É exactamente esta parte do eu que refreará os nossos anseios e prazeres, biológicos e obviamente naturais, que calámos pelo medo que já nos é intrínseco e foi interiorizado. Que podemos nós julgar ou acusar do sadomasoquismo que dá a alguns tanto prazer e qual o nosso direito e legitimidade de considerarmos depravados e insanos àqueles que têm fetiches e satisfazem o desejo sexual sem quaisquer ambições de construir uma relação de outra espécie (amorosa, por exemplo)? A pianista mostra-nos, distanciando-se cruamente da sociedade (representada pelo aluno, pela escola ou pela mãe) e acabando por não antever com tanta facilidade as suas reacções, a simplicidade e singeleza dos desejos que tem em si, não passíveis de serem julgados por nada ou ninguém, compreendidos apenas pela suave modulação e inclusão metafísica que a música lhes proporciona. Ser professora da matéria em questão não é mais senão um grito inaudível a uma massa acrítica e preconceituosa, pronta a apontar o dedo para tudo o que lhe parecer estranho.
Nunca um filme aparentemente tão imoral, voyeurista e frio pareceu tão consciente das fragilidades das convenções éticas, tão crítico e tão humano. Porque “A Pianista” é, tal como outros da filmografia do autor, uma importantíssima película que explora, sem impor qualquer mensagem e de forma centrada e excelsa, a naturalidade daquilo que biologicamente ansiamos e a nossa verdadeira condição no mundo.
9/10