domingo, fevereiro 28, 2010

Brincadeiras Perigosas (II)

Que realizador recria o seu próprio o filme, cena por cena, exactamente como o original (crítica em breve)? Qual a razão minimamente lógica para o fazer? Se, em termos comparativos, podemos considerar que a obra auto-plagiada de Michael Haneke, “Funny Games U.S.” (direccionado, sem medos e fachadas, para um país que valoriza cada vez mais os remakes cinematográficos), tem interpretações obviamente desiguais do protótipo, podemos considerar que Naomi Watts e Michael Pitt estão, apenas e só, de tirar o fôlego ao espectador. Será este trabalho um grito às reproduções norte-americanas ou apenas um meio crítico de demonstrar como uma obra se torna apenas acessível ao actual mundo globalizado se for falada em inglês? Ou, ainda, uma forma para criticar a cultura americana por promover os temas que o filme bem estuda (a violência, o sadismo da comunicação social e do próprio cinema)? A ousadia do austríaco levanta, também, uma pergunta filosoficamente pertinente — estará este projecto susceptível de ser considerado uma obra de arte, não sendo inédito? Ficam as questões e a promessa de que temos perante nós um grande filme.
8/10

terça-feira, fevereiro 23, 2010

Singular

Um dia, talvez, venha a descrever, por simples e redutoras palavras, a experiência que foi viver tamanha perfeição. Não caio em exageros - Um Homem Singular, a estreia no cinema do designer de moda Tom Ford, é Arte, Arte no seu estado pleno e sublime... uma reflexão belíssima e intemporal, como há muito não via, sobre o amor, a vida, a morte, a beleza do mundo e a condição humana, perdida na monstruosa sombra do medo e da aparência. Que feito indescritível... Sem precedentes e singular. Verdadeiramente singular.

domingo, fevereiro 21, 2010

Lumière e Companhia [Michael Haneke]


De forma a comemorar os primeiros 100 anos do cinema, Michael Haneke junta-se a um grupo de mais trinta e nove conceituados realizadores (John Boorman, Fernando Trueba, David Lynch, Arthur Penn, Liv Ullmann, Spike Lee, Peter Greenaway, James Ivory, Costa-Gavras, Claude Miller, Wim Wenders, Abbas Kiarostami, Theodoros Angelopoulos, Youssef Chahine, Raymond Depardon, Vicente Aranda, Francis Girod, Hugh Hudson, Ismail Merchant, Claude Lelouch, Lasse Hallström, Cédric Klapisch, Régis Wargnier, Helma Sanders-Brahms, Patrice Leconte, Merzak Allouache, Andrei Konchalovsky, Jacques Rivette , Gaston Kaboré, Bigas Luna, Sarah Moon, Lucian Pintilie, Nadine Trintignant, Yoshishige Yoshida, Yimou Zhang, Gabriel Axel, Idrissa Ouedraogo) para formarem um projecto conjunto bastante peculiar. Cada um teria que trabalhar como os irmãos Lumière (usando o cinematógrafo), e teria que seguir três básicas regras - cada segmento fílmico não podia ter mais de 52 segundos, teria que ter apenas três takes e o áudio não podia encontrar-se sincronizado. A partir disto, dava-se completa liberdade artística (a pouca que restava) ao cineasta. É curioso ver como Haneke aproveitou a ideia para mostrar, mais uma vez e tal como é perfeitamente visível no vídeo que deixo em cima, ao espectador, umas das suas temáticas predilectas: a televisão, o universo que projecta e reproduz, a falsidade das representações imagéticas e a sua influência no ser humano.

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

A Pianista

O homem é um ser cujas necessidades primárias passam, de forma necessária e irredutível, pela sua sexualidade porquanto é hoje sabido e comprovado pela ciência. Tal como Haneke bem o sabe, vivemos, na actualidade, numa sociedade que extrapola os anseios carnais pela via do consumo de pornografia, seja esta directamente demonstrada ou não, e ainda que, de maneira ambivalente, o Ocidente condene os mais “perversos” (reforcem-se as aspas) actos sexuais. E é, a respeito disto, sob este fantasma intocável da dissonância cognitiva com que navegamos, que o cineasta austríaco aproveita e se insurge com “A Pianista”, uma excelente reflexão (excessivamente?) intimista sobre os nossos mais secretos desejos.

É a plácida e requintada melodia de Schubert que nos apresenta — expõe — a nossa protagonista, magnificamente encarnada por Huppert, que se entrega à máxima representação da procura pela libertação e consumação das suas vontades. Grandemente provocador, podemos considerar que temos sobre nós um minucioso estudo psicanalítico de personagens e, como já nos é habituado, um estudo sociológico do contexto específico que as envolvem. Porque para a constituição de uma dada personalidade, tudo se mostra determinante (daí podermos considerar o cuidado na montagem de cenário estético), sendo que Haneke vê e recria a realidade como uma ficção verdadeira e complexa onde, não sendo coerciva à individuação pessoal, coabitam diversos e caóticos elementos socioculturais e individuais grandemente influenciadores do recalcamento (ou não) de certas atitudes, sejam estas perspectivadas a nível sexual ou não. Tudo em “A Pianista” é efectivo, plausível, certo — a sua actualidade e crueza não se devem apenas à história e criatividade pessoais do cineasta, mas sim a estudos externos, corroborados, como os que nos deixou o fundador da psicanálise. Freud é, portanto, uma figura que se encontra invisível nesta derradeira (feliz ou infeliz?) jornada, ou, para sermos mais precisos, os estudos que este nos deixou sem os quais o austríaco não se poderia basear e completar uma análise tão precisa do sexo e das, mais uma vez as aspas, “depravações” consequentes, criadas, à sua maneira, por cada agente activo nesta sociedade em que vivemos, repressora daquilo que considera ser tabu e proibido. Não é, certamente, pela via da visualização de cada imagem, simples e desinteressada, que chegaríamos ao âmago de uma protagonista tão inquietante e controversa (sê-lo-á, para nós, porquê?), até porque a dura e inflexível exactidão estética e narrativa não o permitiria, de todo, obrigando-nos a estar, permanentemente, frente ao “ego” dela. É, pois, através da interpretação ulterior que mergulhamos e analisamos, enfim, o inconsciente da personagem, no qual submerge parte do seu “superego”, resultado das imposições morais aprendidas numa sociedade orientada por paradigmas, representações e estereótipos, que guiará as acções de cada um de nós. É exactamente esta parte do eu que refreará os nossos anseios e prazeres, biológicos e obviamente naturais, que calámos pelo medo que já nos é intrínseco e foi interiorizado. Que podemos nós julgar ou acusar do sadomasoquismo que dá a alguns tanto prazer e qual o nosso direito e legitimidade de considerarmos depravados e insanos àqueles que têm fetiches e satisfazem o desejo sexual sem quaisquer ambições de construir uma relação de outra espécie (amorosa, por exemplo)? A pianista mostra-nos, distanciando-se cruamente da sociedade (representada pelo aluno, pela escola ou pela mãe) e acabando por não antever com tanta facilidade as suas reacções, a simplicidade e singeleza dos desejos que tem em si, não passíveis de serem julgados por nada ou ninguém, compreendidos apenas pela suave modulação e inclusão metafísica que a música lhes proporciona. Ser professora da matéria em questão não é mais senão um grito inaudível a uma massa acrítica e preconceituosa, pronta a apontar o dedo para tudo o que lhe parecer estranho.

Nunca um filme aparentemente tão imoral, voyeurista e frio pareceu tão consciente das fragilidades das convenções éticas, tão crítico e tão humano. Porque “A Pianista” é, tal como outros da filmografia do autor, uma importantíssima película que explora, sem impor qualquer mensagem e de forma centrada e excelsa, a naturalidade daquilo que biologicamente ansiamos e a nossa verdadeira condição no mundo. 

9/10

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

Uma brincadeira perigosa


Eis como, em jeito de reconto, Haneke debela a sua marca mais representativa (o realismo) e o formalismo da linearidade temporal naquela que é uma das cenas mais críticas, emblemáticas, provocantes e famosas da sua brilhante carreira. Múltiplas são as conclusões que podemos daqui retirar: a mais óbvia será, na minha perspectiva, a demonstração de como se intromete na sociedade contemporânea, pela via da comunicação social e do próprio cinema, um voyeurismo insaciável e uma desesperada procura pela violenta e triunfal vingança do mal sobre o pouco bem que resta no ser humano.

terça-feira, fevereiro 16, 2010

E porque ninguém leva a mal...

Lançado, a preço mínimo, na passada sexta-feira com o jornal Público, “O Meu Tio”, de Jacques Tati, não podia ser visto em melhor altura como esta, a do Carnaval. Requintadamente escrito, planeado e coreografado (o que é poupado em diálogos é enriquecido por concretas acções), trazendo-nos uma moderna e ainda actual crítica ao mundo tecnológico, e bem interpretado, este filme emana toda uma nostálgica magia, despreocupação e encanto pela vida como naturalmente ela é. É um recordar à inocência e às brincadeiras repreendidas de criança, uma homenagem aos inadaptados às actuais “modernices”, aos que anseiam a completude na pura simplicidade. Divertido e, sobretudo, verdadeiro, “O Meu Tio” é um título sem dúvida a memorizar, a ver e a rever. A todos os leitores desejo, pois, um bom dia de Carnaval.