domingo, janeiro 31, 2010

Fevereiro & Michael Haneke

O primeiro mês do ano já lá vai, marcado pela mudança de blogue e pela homenagem ao grande cineasta Federico Fellini. Se, em Janeiro, presenciamos o surrealismo, a magia e o para além daquilo que seria imaginável, então Fevereiro estará sinalizado por um grande antagonismo. Apresentamos aos leitores Michael Haneke - o recém-preamiado com a Palma de Ouro, em Cannes, pelo seu último grande filme "O Laço Branco". Afirmada e afincadamente realista, Haneke iniciou a sua carreira como produtor de televisão até desta se tornar um feroz crítico, demonstrando como a pequena caixa, tal como toda a evolução tecnológica subjacente, seria determinante para uma mudança irreversível nos comportamentos do ser humano. Haneke é, portanto, mais do que um cineasta - é um antropólogo, clínico, analítico, estudando o que de pior (e melhor?) tem o novo Homem moderno. Será, pois, um mês que proporcionará, pelos filmes visualizados, grandes reflexões, pois estamos perante uma figura cuja obra merece um estudo sincero e deveras atento. Não fosse ele a dar a este espaço o título - O Sétimo Continente.

Assim, não deixem de passar pelos blogues CINEROAD, seeSAWseen e Split Screen, tal como o do nosso convidado deste mês - Literatura e Cinema. A todos eles desejo bons filmes e um bom mês de Fevereiro, tal como aos nossos leitores, claro está! Entretanto, não deixem de (re)ler as críticas já compostas aos filmes de Michael Haneke:

sexta-feira, janeiro 29, 2010

Expectativa

É a melhor palavra para descrever a minha relação com o filme. Face à recente estreia da semana, o jornal Público dedicou hoje, no seu suplemento cultural de grande qualidade - o Ípsilon -, as atenções para "Anticristo", o filme de Lars Von Trier que competiu em Cannes para a Palma de Ouro e, de lá, levou um prémio de melhor actriz para Charlotte Gainsbourg (que, ainda que não brilhando, esteve muito bem em 21 Gramas). Muita tinta correu e muitos "dedos se gastaram" por causa do filme do "melhor realizador do mundo", segundo palavras suas, mas é tempo agora de voltar atenções para o modo como recebe Portugal este acontecimento - se podemos tomar como exemplo de um positivo acolhimento à película com a crítica no blog Split Screen (ver aqui), também podemos ler, de seguida, uma opinião negativa (das várias no jornal), na íntegra. Foi escrita por Luís Miguel Oliveira, que lhe atribui 1 estrela - o correspondente a "medíocre":
"Anticristo" não é um filme feito para se ver, é um filme feito para se falar sobre ele. Oferece a cana, o anzol e o isco: tem imenso para "interpretar", fará furor em sessões com "debate".

Os filmes - certos filmes, como o "Anticristo" - chegam às salas cada vez mais "cheios", saturados pelas ideias feitas postas a correr sobre eles, e reproduzidas ad nauseam pela Internet fora. Até o mais vacinado acaba por se deixar convencer. Sobre "Anticristo", tanta cantilena se lê sobre a sua "beleza visual" (ou coisa que o valha) que se chega a considerar essa possibilidade. O choque é mais violento assim. "Beleza visual"? Aonde? Naquele prólogo obsceno, com lógica de vídeo-clip (para uma canção de Händel, ah bom, coisa séria) e visual de spot publicitário, que liga um grande plano do "diálogo" dos órgãos genitais do casal protagonista (Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg, aí convenientemente substituídos por próteses e "body doubles") à morte de uma criança, tudo ao "ralenti"? Na natureza (as florestas) dos capítulos intermédios, onde von Trier pretende (ver dedicatória nos créditos finais) pagar uma "dívida" qualquer a Tarkovski, sem perceber (ou percebendo muito bem) que aquela fotografia delambida (o operador foi o mesmo do "Slumdog", chama-se Anthony Dod Mantle, benza-o Deus) está para Tarkovski (e para Sokurov, e para os caspardavidfriedrichianos e outros adeptos da natureza nórdica em geral) como um autêntico "anticristo"? Não é o caos que reina, como diz o título de um dos capítulos, é o mau gosto, puro e simples, ou pior, estilizado e rebuscado. O feio pode ser tão belo como o belo, e o que von Trier quer mostrar (?) é que o belo contém o feio (como a corça com o feto morto pendurado), mas o que se vê é o enjoo do feio embelezado. Tanto pior se é preciso explicar melhor.

Os fantasmas nórdicos acumulam-se (acotovelam-se) em "Anticristo", cinema, teatro, e "temas" (o sexo, o casal). Longa sessão terapêutica de um casal - refugiado no "Éden", claro - para tentar distinguir a sexualidade da culpabilidade que no prólogo lhe foi associada (por negligência "orgástica", digamos), "Anticristo" vive de psicoterapia sobre-explicada, diálogos cheios de retórica (profundamente maçadores) e cenas de sexo agressivo. Começa como Bergman, aproxima-se de Cassavetes, rouba ideias (a bruxaria ligada ao desejo feminino) a um velho filme dinamarquês (o sublime "A Feitiçaria Através dos Tempos", de Benjamin Christensen, que von Trier obviamente conhece), acaba à tesourada tipo Oshima. Pena já não estarmos em 1975. "Anticristo" não é um filme feito para se ver, é um filme feito para se falar sobre ele. Oferece a cana, o anzol e o isco: tem imenso para "interpretar", fará furor em sessões com "debate".
A "terapia" von triêrica é, pois, motivadora de crescente antagonismo. Dificilmente haverá um meio termo possível. Mas não será, talvez, isso que eleva um artista, na sua totalidade? Após um excelente Dogville (crítica), um bem recebido Dancer in the Dark (crítica) ou um perturbador Os Idiotas, estou em crer que sim, tal como sou da opinião que Anticristo será o mais extremo dos filmes do cineasta anti-tudo. A expectativa não podia ser maior. Mas, diz já o ditado popular, quanto maior a subida...

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Apresentação



Em primeiro lugar, deixem-me partilhar a nostalgia que sinto neste momento. Há quanto tempo eu não escrevia um post? Há quanto tempo é que eu não entrava no blogger e escrevia neste rectângulozinho que me traz tantas recordações fantásticas? Há muito. Mesmo muito. Voltar a escrever aqui traz-me um sentimento de conforto enorme, é como voltar a um pouco da minha home.
Pronto, deixemos os desabafos para outra ocasião, passo a apresentar-me. Obrigado Rúben, por não me anunciares - sabes que odeio spoilers. Bem, que hei-de eu dizer? Chamo-me Sandra e sou a mais nova dos três. Além de ser a mais nova, sou a mais baixa e a mais feminina (será?). Partilho das paixões já anteriormente enunciadas, entre infinitas outras. Os temas dos meus futuros posts serão da mais variada natureza, pelo que não posso fazer qualquer tipo de previsão, a menos que consulte os astros. Outra previsão que não me é possível fazer é quanto à minha assiduidade. Vou tentar, prometo, ser o mais assídua possível... mas o tempo é pouco. O que podem esperar mais de mim para além da imprevisibilidade? Não posso prever.
Pronto, e por hoje não vos posso escrever mais... isto foi só em jeito de rapidinha para que me apresentasse. Bem vinda eu e bem vindos vocês ao Sétimo Continente.

quarta-feira, janeiro 27, 2010


Quando o cinema se desconstrói numa lógica ilógica, a que se junta o facto de ser, igualmente, revolucionária, ambiciosa e livre, e, depois, se une como arte em estado bruto, então origina-se e põe-se-nos defronte a uma das obras mais preciosas de sempre: 8 ½.

Perante todo o convencionalismo e rigidez normativos na sétima arte e respectivas leis da perspectiva, narrativa e coesão, muitos e necessários foram aqueles que impuseram no público novas visões, algumas delas provocatórias como foi o caso do dadaísmo de Duchamp, ou da introdução da Nouvelle Vague francesa no mundo. Neste contexto, Fellini apresenta o seu filme mascarado no seu protagonista, também ele um cineasta, denunciando a necessidade de fuga da padronização exuberante do cinema. Três anos depois da apresentação da película italiana, Bergman também se demarcava com o excelente e inesquecível Persona, perfeito exemplo do que acabamos de falar. Porém, o italiano pode considerar-se um caso à parte. Com belíssimas interpretações, fotografia e banda sonora que fazem juz à sua qualidade narrativa, “8 ½” não é, simplesmente, do ponto de vista formal, algo de subversivo. É, sim, o confluir de todo um surrealismo próprio do realizador e, como óbvio acaba por ser, da sua vida. É, talvez, por isso que Guido nos parece tão verdadeiro e tão vivo — é nele, afinal, que habita o resultado de uma profunda introspecção realizada por Fellini. Sensível como um auto-retrato de Mattia Moreni, é ele que move o espírito do seu criador e se apresenta ao espectador mais deliciado.

Nele, vemos aquilo com que este enfrenta diariamente, fruto da sua personalidade: a abulia, o cansaço e o desencanto máximo da realidade; a consequente tentativa de fuga desta por via do cinema, meio conciliador da sua redenção com uma vida que lhe parece insuficiente e, ao mesmo tempo, sufocante. É também pelo facto de estar atrás de uma objectiva que Guido Fellini, unido como se de Pessoa e Campos tratasse, recorda, uma vez mais, os desejos e medos recônditos de uma infância distante, inocente e mágica, fundindo-os e confundindo-os numa realidade monótona e disfuncional (representada, neste caso, por um casamento mal sucedido ou por uma luta constante por uma saúde plena).

A nostalgia doente do realizador (qual deles?), que servirá, também e por exemplo, para reavivar uma consciente crítica à sociedade católica italiana, alia-se à interminável busca pela liberdade e pela consolidação de uma identidade que talvez nunca chegou a ser formada na totalidade. Pela busca de uma ultra-realidade, misteriosa e mágica, sem tempo para tempo, onde o impossível se torna possível, onde a vida se demonstra interminável e pura. Perspectiva-se, então, o referido pelas metáforas visuais, pelas burlescas personagens com que tudo parece suceder, e pelas reflexões feitas pelo diálogo ou pela acção, das mais pequenas às mais dançantes circunstâncias. Nesta autêntica obra-prima, a realidade é, simplesmente, o túnel onírico que medeia a inexistência da metafísica e o mistério imaginário da vida. Caberá a nós, aqui e agora, decidir se o queremos atravessar.

9/10
+Críticas da iniciativa "Janeiro & Federico Fellini" ao mesmo filme: 

terça-feira, janeiro 26, 2010

O líder das bilheteiras?


Se, por um lado, parece não haver dúvidas sobre as receitas astronómicas - mais do que titânicas, podemos agora admiti-lo - de Avatar, questões haverá numa definição consensual dos filmes com mais receitas na História da sétima arte. Num momento em que reina um histerismo anormal em volta de uma película que pouco me diz (crítica), parecerá algo de verdadeiramente chocante admitir que até Branca de Neve e os Sete Anões ultrapassa o sucesso do blockbuster. Para o entenderem melhor, sugiro-vos uma atenta leitura do artigo de João Lopes no DN de domingo passado, publicado no seu blog sound + vision. Aqui.

segunda-feira, janeiro 25, 2010

Um naufrágio n'O Sétimo Continente...


Bem-vindos a O Sétimo Continente!

Criado, dirigido e escrito por Flávio Gonçalves, Rúben Gonçalves e Sandra Esteves, este blogue, mais um em centenas no mundo da Internet apaixonada pela cultura,  reunindo publicações diversas de sítios anteriores (como, por exemplo, Flavio's World e Pipocas e Outras Tretas), propõe tratar qualquer tema que nos propicie interesse - sobretudo, claro está, o cinema. Somos, pois, cinéfilos natos (não fosse o título deste espaço, que referencia, directamente, um excelente filme de M. Haneke - crítica aqui - e que ilustra bem a nossa relação com o mundo), amantes da literatura e de todas as restantes artes, não deixando, ainda, de opinar, esporadicamente, sobre a actualidade. Por se encontrar no início, este modesto espaço está susceptível de sofrer certas mudanças no visual e formato de posts - estamos, claro, abertos a qualquer sugestão e feedback. Esperamos, por fim, que acolham bem este novo continente: o número 7 sempre foi, de certa forma, um símbolo de sorte...!