segunda-feira, agosto 10, 2009

:Last Days - Últimos Dias




Depois do aclamado internacionalmente (e, bastante previsivelmente, ignorado pela Academia norte-americana) Elephant, muitas eram as expectativas criadas para aquele que seria a última película da apelidada “trilogia da morte”, pelo menos daqueles a quem o realizador tinha, nesta sua década dourada, comprazido. E, apesar de me parecer óbvio que estou perante uma produção cinematográfica inolvidável com este Últimos Dias (felizmente não os da carreira dele!), é-me difícil não admitir que não é pelos motivos mais positivos. Onde errou Gus Van Sant? E por que o fez? Talvez, provavelmente, por se ter perdido no seu próprio mundo, tal como Blake o fez.
Não é já visível o cuidado com que o realizador trata as suas personagens (que, como já o sabemos, também se vão construindo em função da criatividade dos actores), prendendo-se unicamente, desta vez, aos cânones inovadores por si criados nos precedentes filmes e abandonando, por completo, o protagonista com os seus demónios incorpóreos. O anonimato deste, a falta de um mínimo de conhecimento de que temos sobre ele (que impossibilita, como consequência, a nossa afinidade) e a completa e inumana distância estabelecida com todos os seres vivos no filme, tudo isto, apesar de deliberado e, efectivamente, revolucionário, confunde-se, infelizmente, com a aparente incapacidade de Van Sant em ser valente o suficiente para filmá-lo e fazer-nos senti-lo, em toda a sua amargura e desvairamento. O cineasta, com este trabalho, consegue decepcionar os seguidores mais fiéis à sua filmografia e estilo, e faz com que tudo o que capta, apesar de, em termos estéticos, belo e em sintonia com a natureza, se afigure excessivamente imponderado, cansativo e desnecessário, levando à tela más imagens e cenas sequenciais (umas improvisadas, outras não) que nada trazem de novo ou significam.
Esta fraqueza de Gus repercutiu-se, felizmente em força menor, também na manifestação das interpretações dos diversos actores que compõem Last Days, especialmente na de Michael Pitt (o mesmo que nos presenteara já com uma representação respeitável no magnífico “Os Sonhadores”), que se encontra, aqui, em completa metamorfose física e mental e que poderia ter mostrado muito mais de si. É, muito provavelmente, a sua prestação inquietante e, portanto, inesquecível que consagra o clímax da fita, a par da fotografia e som magníficos, assim como umas poucas cenas que contrabalançam todo o cenário negativista que desta película fui, até agora, traçando. Exemplo mais edificativo do que o maravilhoso vídeo situado depois deste texto não se poderia encontrar, transportando-nos, de uma forma brilhante, para a revolta e pesar de que o músico vivia. Estranhamente, ou talvez não, esta foi uma das poucas cenas eliminadas do produto final do filme...
Last Days é, na falta de melhor expressão, um interessante mas pretensioso e reciclado faits divers, tentativa que poderia resultar numa magnificência que o elevaria ao estatuto das melhores obras do realizador não fosse o seu erro crasso em ter seguido caminhos menos certeiros no que à concretização geral da obra diz respeito.
6/10

:Impressões de...


Cannes é uma cidade linda. Ainda mais, talvez, com menos calor. Próxima crítica: Last Days.

quinta-feira, agosto 06, 2009

:"Elephant" vs "2:37"

A propósito da crítica já publicada de "Elephant", motivada pelo especial que este blog, o Cineroad, o seeSAWseen e o Split Screen estão a fazer a Gus Van Sant, deixo-vos aqui uma bem executada e curiosa comparação entre o filme e "2:37", de Murali K. Thalluri, lançado três anos depois do vencedor da Palma de Ouro. Fica a questão: será 2:37 uma homenagem ao filme marcante deixado por Van Sant ou, realmente, uma cópia deste?

terça-feira, agosto 04, 2009

Elephant - a obra-prima de Gus Van Sant


Dia mais infame e justiceiro nunca vi, rumoreja o rapaz, para si mesmo ou, hipótese que nos parecerá mais certeira, para o mundo. Encontramo-nos num belo e outonal dia de escola, que não se poderia assemelhar mais a todos os outros, mas que, por motivos cuja razão ainda nos é transcendente, terminará de uma forma particularmente diferente.

Van Sant consolidou, com esta película aplaudida e premiada por Cannes com a cobiçada Palma de Ouro e o prémio de melhor realizador, o seu estilo de filmagem único e memorável. Apesar de serem enormes as comparações que podemos estabelecer com a curta-metragem homónima de Alan Clarke em 1989 (cuja aconselhável visualização pode ser feita nas opções especiais do DVD), existem alguns elementos próprios de Gus, dos quais passo a nomear quatro. O primeiro, que é o mais saliente, é, claramente, a sua capacidade excepcional de encontrar beleza, estudar e “espiar” as suas personagens pelas costas, como se não as conhecesse, como se os nossos olhos estivessem realmente naquele estabelecimento público e assumissem a visão de um aluno que deambulava, vagarosa mas intensamente, pelos seus incontáveis corredores. Mas que mais poderá sugerir esta decisão de vermos, por detrás, estes humanos que nos são sempre desconhecidos? Talvez nos sirva de uma metáfora visual, que aponta o dedo para a terrível conformidade, indisciplina e revolta de que vivem os alunos (ainda que pensem estar em plena personalidade, se quisermos usar o termo específico da filosofia que Kant nos deixou), ou para a sua desconsideração dos olhares que lhes são alheios (os nossos, portanto) ou, ainda, para a sua procura infinita da sua verdadeira e escondida identidade (referência possível a René Magritte?). A segunda “marca de autor” que é amplamente visível é o gosto pelos longos takes que tem o cineasta, assim como a preocupação de não contar a história com um tempo linear, percorrendo assim, de forma um tanto surreal, a escola com uma poética e impressionista steadycam que nos permite ter uma visão integral do mundo onde as formigas vivem, sem notarem a nossa presença. Em terceiro lugar temos, também característico do estilo van santiano, a filmagem notória do realizador em 180º, cujo possível significado alegórico já foi, por mim, pressuposto na crítica que escrevi de “Milk”. E, por último, mas certamente não menos curioso, é a forma como o realizador decide fazer dos actores elementos estruturais do processo criativo de como é avançada a obra, pela improvisação de falas e acções, através de um subtexto previamente fornecido.

O realizador dá, então, um significado diferente ao termo “narrativa” e, ainda assim, consegue, ao debruçar-se sobre temas tão banais como a sexualidade, o bullying, o preconceito, as minorias sociais e as desordens alimentares na juventude, construir um universo onde o absurdo é engrandecido para que, ao vermos as coisas num plano externo e superficial, nos apercebamos da incoerência própria da nossa sociedade. E, apesar deste inegável realismo de que é característica a fita, podemos encontrar indícios simbólicos e trágicos ao longo da “história” que nos é contada — nos planos do céu em fast forward, no uso dos sons da natureza como eufemismo directo da realidade, ou das próprias Für Elise e “Moonlight” Sonata de Beethoven (ligação directa a “Laranja Mecânica”, de Kubrick, realizador preferido de Van Sant?). O som e a fotografia, são, portanto, dois factores cinematográficos enaltecidos para a modelação do universo “elephantiano”. Ao vaguearmos atrás daqueles humanos sentimos que tudo parece difundir-se no ar em redor deles — os sons nítidos e típicos de um ambiente escolar (risos, conversas e afins) sofrem uma metamorfose quase alienígena e convertem-se em ruídos imperceptíveis à nossa inteligência, tal como conseguimos ver que, progressivamente, o mundo físico começa a perder cor e a sofrer um grandioso desfoque à medida que as personagens se iam perdendo nos seus pensamentos. Destaca-se, dessa forma, o magnífico esforço tido pelo cinematógrafo Harris Savides (que surgiu já em filmes como o meticuloso “Gerry”, de que falarei em breve, “Last Days” e “Milk”). Brevemente poderemos ver o seu trabalho no mais recente de Woody Allen (“Whatever Works”) e no de Sofia Coppola (“Somewhere”).

Na segunda metade do pequeno filme entramos na mais sufocante e brutal fase — a do massacre. A cada disparo que ouvimos dentro daqueles sombrios corredores, somos atingidos com a terrível apreensão da singularidade de uma só vida, algo que constante e diariamente é desvalorizado pela sua infinda banalização feita pela comunicação social, pelos videojogos, pela literatura, música ou, como não podia também deixar de ser, pelo próprio cinema. Em jeito de breve referência, o massacre ocorrido recentemente numa escola secundária na Alemanha gerou um grande debate relacionado com a adolescência e o respectivo papel da escola. Ainda assim, onde se homenageavam as vítimas chegavam-se a ver escritas questões simples como “warum?”. Porquê? Por que desceu alguém tão baixo ao ponto de, a sangue frio e aleatoriamente, retirar as vidas que pulsavam em distintos anónimos? Elephant, simplesmente, pretende manter-se na sua suposta ignorância e não responder, pelo menos de forma directa, a esta questão, nem a qualquer de outro tipo que interroguem, por exemplo, as motivações do massacre de Columbine em 1999. Contudo, várias são as cenas em que podemos lançar especulações que expliquem os comportamentos dos dois assassinos: lembremo-nos, por exemplo, de uma cena belíssima onde Alex se encontra na cantina escolar, de cabeça escondida e mãos postas na nuca, rodeado por centenas de alunos a almoçar, apavorado pela imensidão daquele som abafador que nos é progressivamente aumentado, sugerindo-nos, talvez, o completo delírio mental por que passava a personagem ou, possibilidade merecedora de reflexão pessoal, a sua completa lucidez…

Por outro lado, o filme não é niilista e não se limita a oferecer um morticínio gratuito — muito pelo contrário. Escondido na aparente barbaridade e crueza com que os assassinatos nos são sequencialmente exibidos está uma sensibilidade única que só Van Sant e poucos demais conseguiriam atingir. Mais explícita está ela quando começamos a estudar as emoções dos personagens nestes casos limite: enfrentando o medo, quebram-se as fronteiras invisíveis que nos separam, e a máscara das aparências que nos esconde é retirada. Sobe-se, verdadeiramente, à condição de humano. E a questão orgânica é inevitável: será que é necessário chegar-se a este ponto para que mudemos de mentalidades, acções, e políticas? É por trazer ao sol tantas questões que o final da película é quase perfeito. Quem ditará o seu verdadeiro fim: o último tiro? Ou a mudança social que, embora possível, não se fez até o momento?

“Elephant” é uma sublime e inesquecível obra-prima dos tempos modernos, e que é, mais do que uma chamada de atenção para o estado preocupante da nossa educação, um refulgente e melancólico ensaio sobre a vida e a morte, sobre a violência e sobre a puberdade, espelhada tão magnificamente numa escola de qualquer género, de que a sociedade contemporânea insiste em não sair.
Artigo actualizado dia 18/04/2010

segunda-feira, agosto 03, 2009

:Paris Je T'aime ("Le Marais")



Aproveito que hoje, oficialmente, entrei em território francês para escrever em breves linhas o que achei de uma das muitas curtas-metragens que Gus Van Sant  nos deixou (como poderão verificar num artigo que em breve publicarei respeitante à obra do cineasta) e, também, como não podia deixar de ser, partilhá-la convosco. Chama-se ela Le Marais e, escrita e realizada especialmente para se enquadrar na fantástica série do “Paris, Je T’aime”, centra-se no primeiro contacto que dois homens têm no histórico (e muito propício ao romance) bairro parisiense. Reunindo Elias McConnell (o mesmo que fez de fotógrafo em “Elephant”), cuja personagem é conhecida pela a de Gaspard Ulliel ("Um Longo Domingo de Noivado"), a curta traz-nos um olhar belo, subtil e, também, ainda que inicialmente nos possa parecer paradoxal, muito intenso e profundo do início de uma relação que promete ser frutífera. Homenageando uma área de França onde se situam locais dirigidos à comunidade gay, exploram-se aqui temas como a valorização do amor e os obstáculos que este encontra (como, por exemplo, o choque entre culturas). Vejam-na, vale bem a pena!


Quanto ao especial “Agosto & Gus Van Sant”, a primeira crítica que publicarei muito brevemente será à que considero a obra-prima do cineasta: Elephant.

sábado, agosto 01, 2009

:Agosto & Gus Van Sant




Gus Van Sant é, provavelmente, um dos mais geniais visionários contemporâneos da sétima arte. Multifacetado e incrivelmente talentoso, o americano expressa-se não só na literatura, música ou fotografia, mas principalmente nas diversas películas que realiza.
Nesse sentido, é com grande felicidade que o CINEROAD, o  seeSAWseen e o Split Screen, em iniciativa conjunta com este blog, promoverão a obra van santiana neste mês de Agosto, através de críticas e diversos outros artigos, esperando agarrar e incitar a curiosidade e o debate daqueles que viram pouco ou nada do cineasta.
Agosto terminará com a divulgação de um quadro-síntese com os filmes classificados pelos autores, assim como a eleição do seu preferido.
Na lista que se segue poderão ler as críticas dos filmes de Van Sant, já disponíveis nos blogs acima anunciados.