terça-feira, agosto 04, 2009

Elephant - a obra-prima de Gus Van Sant


Dia mais infame e justiceiro nunca vi, rumoreja o rapaz, para si mesmo ou, hipótese que nos parecerá mais certeira, para o mundo. Encontramo-nos num belo e outonal dia de escola, que não se poderia assemelhar mais a todos os outros, mas que, por motivos cuja razão ainda nos é transcendente, terminará de uma forma particularmente diferente.

Van Sant consolidou, com esta película aplaudida e premiada por Cannes com a cobiçada Palma de Ouro e o prémio de melhor realizador, o seu estilo de filmagem único e memorável. Apesar de serem enormes as comparações que podemos estabelecer com a curta-metragem homónima de Alan Clarke em 1989 (cuja aconselhável visualização pode ser feita nas opções especiais do DVD), existem alguns elementos próprios de Gus, dos quais passo a nomear quatro. O primeiro, que é o mais saliente, é, claramente, a sua capacidade excepcional de encontrar beleza, estudar e “espiar” as suas personagens pelas costas, como se não as conhecesse, como se os nossos olhos estivessem realmente naquele estabelecimento público e assumissem a visão de um aluno que deambulava, vagarosa mas intensamente, pelos seus incontáveis corredores. Mas que mais poderá sugerir esta decisão de vermos, por detrás, estes humanos que nos são sempre desconhecidos? Talvez nos sirva de uma metáfora visual, que aponta o dedo para a terrível conformidade, indisciplina e revolta de que vivem os alunos (ainda que pensem estar em plena personalidade, se quisermos usar o termo específico da filosofia que Kant nos deixou), ou para a sua desconsideração dos olhares que lhes são alheios (os nossos, portanto) ou, ainda, para a sua procura infinita da sua verdadeira e escondida identidade (referência possível a René Magritte?). A segunda “marca de autor” que é amplamente visível é o gosto pelos longos takes que tem o cineasta, assim como a preocupação de não contar a história com um tempo linear, percorrendo assim, de forma um tanto surreal, a escola com uma poética e impressionista steadycam que nos permite ter uma visão integral do mundo onde as formigas vivem, sem notarem a nossa presença. Em terceiro lugar temos, também característico do estilo van santiano, a filmagem notória do realizador em 180º, cujo possível significado alegórico já foi, por mim, pressuposto na crítica que escrevi de “Milk”. E, por último, mas certamente não menos curioso, é a forma como o realizador decide fazer dos actores elementos estruturais do processo criativo de como é avançada a obra, pela improvisação de falas e acções, através de um subtexto previamente fornecido.

O realizador dá, então, um significado diferente ao termo “narrativa” e, ainda assim, consegue, ao debruçar-se sobre temas tão banais como a sexualidade, o bullying, o preconceito, as minorias sociais e as desordens alimentares na juventude, construir um universo onde o absurdo é engrandecido para que, ao vermos as coisas num plano externo e superficial, nos apercebamos da incoerência própria da nossa sociedade. E, apesar deste inegável realismo de que é característica a fita, podemos encontrar indícios simbólicos e trágicos ao longo da “história” que nos é contada — nos planos do céu em fast forward, no uso dos sons da natureza como eufemismo directo da realidade, ou das próprias Für Elise e “Moonlight” Sonata de Beethoven (ligação directa a “Laranja Mecânica”, de Kubrick, realizador preferido de Van Sant?). O som e a fotografia, são, portanto, dois factores cinematográficos enaltecidos para a modelação do universo “elephantiano”. Ao vaguearmos atrás daqueles humanos sentimos que tudo parece difundir-se no ar em redor deles — os sons nítidos e típicos de um ambiente escolar (risos, conversas e afins) sofrem uma metamorfose quase alienígena e convertem-se em ruídos imperceptíveis à nossa inteligência, tal como conseguimos ver que, progressivamente, o mundo físico começa a perder cor e a sofrer um grandioso desfoque à medida que as personagens se iam perdendo nos seus pensamentos. Destaca-se, dessa forma, o magnífico esforço tido pelo cinematógrafo Harris Savides (que surgiu já em filmes como o meticuloso “Gerry”, de que falarei em breve, “Last Days” e “Milk”). Brevemente poderemos ver o seu trabalho no mais recente de Woody Allen (“Whatever Works”) e no de Sofia Coppola (“Somewhere”).

Na segunda metade do pequeno filme entramos na mais sufocante e brutal fase — a do massacre. A cada disparo que ouvimos dentro daqueles sombrios corredores, somos atingidos com a terrível apreensão da singularidade de uma só vida, algo que constante e diariamente é desvalorizado pela sua infinda banalização feita pela comunicação social, pelos videojogos, pela literatura, música ou, como não podia também deixar de ser, pelo próprio cinema. Em jeito de breve referência, o massacre ocorrido recentemente numa escola secundária na Alemanha gerou um grande debate relacionado com a adolescência e o respectivo papel da escola. Ainda assim, onde se homenageavam as vítimas chegavam-se a ver escritas questões simples como “warum?”. Porquê? Por que desceu alguém tão baixo ao ponto de, a sangue frio e aleatoriamente, retirar as vidas que pulsavam em distintos anónimos? Elephant, simplesmente, pretende manter-se na sua suposta ignorância e não responder, pelo menos de forma directa, a esta questão, nem a qualquer de outro tipo que interroguem, por exemplo, as motivações do massacre de Columbine em 1999. Contudo, várias são as cenas em que podemos lançar especulações que expliquem os comportamentos dos dois assassinos: lembremo-nos, por exemplo, de uma cena belíssima onde Alex se encontra na cantina escolar, de cabeça escondida e mãos postas na nuca, rodeado por centenas de alunos a almoçar, apavorado pela imensidão daquele som abafador que nos é progressivamente aumentado, sugerindo-nos, talvez, o completo delírio mental por que passava a personagem ou, possibilidade merecedora de reflexão pessoal, a sua completa lucidez…

Por outro lado, o filme não é niilista e não se limita a oferecer um morticínio gratuito — muito pelo contrário. Escondido na aparente barbaridade e crueza com que os assassinatos nos são sequencialmente exibidos está uma sensibilidade única que só Van Sant e poucos demais conseguiriam atingir. Mais explícita está ela quando começamos a estudar as emoções dos personagens nestes casos limite: enfrentando o medo, quebram-se as fronteiras invisíveis que nos separam, e a máscara das aparências que nos esconde é retirada. Sobe-se, verdadeiramente, à condição de humano. E a questão orgânica é inevitável: será que é necessário chegar-se a este ponto para que mudemos de mentalidades, acções, e políticas? É por trazer ao sol tantas questões que o final da película é quase perfeito. Quem ditará o seu verdadeiro fim: o último tiro? Ou a mudança social que, embora possível, não se fez até o momento?

“Elephant” é uma sublime e inesquecível obra-prima dos tempos modernos, e que é, mais do que uma chamada de atenção para o estado preocupante da nossa educação, um refulgente e melancólico ensaio sobre a vida e a morte, sobre a violência e sobre a puberdade, espelhada tão magnificamente numa escola de qualquer género, de que a sociedade contemporânea insiste em não sair.
Artigo actualizado dia 18/04/2010

segunda-feira, agosto 03, 2009

:Paris Je T'aime ("Le Marais")



Aproveito que hoje, oficialmente, entrei em território francês para escrever em breves linhas o que achei de uma das muitas curtas-metragens que Gus Van Sant  nos deixou (como poderão verificar num artigo que em breve publicarei respeitante à obra do cineasta) e, também, como não podia deixar de ser, partilhá-la convosco. Chama-se ela Le Marais e, escrita e realizada especialmente para se enquadrar na fantástica série do “Paris, Je T’aime”, centra-se no primeiro contacto que dois homens têm no histórico (e muito propício ao romance) bairro parisiense. Reunindo Elias McConnell (o mesmo que fez de fotógrafo em “Elephant”), cuja personagem é conhecida pela a de Gaspard Ulliel ("Um Longo Domingo de Noivado"), a curta traz-nos um olhar belo, subtil e, também, ainda que inicialmente nos possa parecer paradoxal, muito intenso e profundo do início de uma relação que promete ser frutífera. Homenageando uma área de França onde se situam locais dirigidos à comunidade gay, exploram-se aqui temas como a valorização do amor e os obstáculos que este encontra (como, por exemplo, o choque entre culturas). Vejam-na, vale bem a pena!


Quanto ao especial “Agosto & Gus Van Sant”, a primeira crítica que publicarei muito brevemente será à que considero a obra-prima do cineasta: Elephant.

sábado, agosto 01, 2009

:Agosto & Gus Van Sant




Gus Van Sant é, provavelmente, um dos mais geniais visionários contemporâneos da sétima arte. Multifacetado e incrivelmente talentoso, o americano expressa-se não só na literatura, música ou fotografia, mas principalmente nas diversas películas que realiza.
Nesse sentido, é com grande felicidade que o CINEROAD, o  seeSAWseen e o Split Screen, em iniciativa conjunta com este blog, promoverão a obra van santiana neste mês de Agosto, através de críticas e diversos outros artigos, esperando agarrar e incitar a curiosidade e o debate daqueles que viram pouco ou nada do cineasta.
Agosto terminará com a divulgação de um quadro-síntese com os filmes classificados pelos autores, assim como a eleição do seu preferido.
Na lista que se segue poderão ler as críticas dos filmes de Van Sant, já disponíveis nos blogs acima anunciados.

segunda-feira, julho 27, 2009

:Adeus


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava!
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os teus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os teus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...
já não se passa absolutamente nada.

E, no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos nada que dar.
Dentro de ti
Não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.
Eugénio de Andrade

quarta-feira, julho 22, 2009

:Festival Marés Vivas '09

 Nos passados dias 16, 17 e 18 deste mês realizou-se, em Gaia, o festival de música Marés Vivas, que reuniu bandas como os Scorpions, os Keane, os Kaiser Chiefs e os Guano Apes, assim como cantores como Jason Mraz, Colbie Colbat (que nos presenteram um dueto-surpresa muito agradável) e Gabriela Cilmi. Só fui, infelizmente, nos últimos dois dias, mas digo-vos, com certeza, que os Scorpions e, sobretudo, os Keane foram os que mais me impressionaram. Deixo-vos um vídeo que tirei do Youtube das últimas música que estes tocaram, a Bedshaped, que é, curiosamente, a minha preferida da banda inglesa. Vejam, vale mesmo a pena! Também deixo um agradecimento especial à Elsa e à Sandra, por razões que elas bem saberão :P

:4ª Marcha LGBT - Porto

 
  
 
 
 
 (as últimas duas imagens foram retiradas e podem ser vistas aqui)
Aproximadamente mil pessoas - homens, mulheres, hetero/homo/bissexuais e trangéneros, adultos, adolescentes e até mesmo crianças - segundo as autoridades policiais, fizeram ouvir a sua voz entre diversas faixas que reclamavam a igualdade de direitos entre a minoria que é a comunidade LGBT, a saber, o direito ao casamento civil  e à adopção entre casais do mesmo sexo, assim como o fim da discriminação a pessoas de identidades  de género diferentes. Provavelmente, e caso estejam a par do assunto, se a 4º (e até agora, a maior) marcha LGBT se realizasse agora, no Porto, os assuntos a protestar seriam certamente de outra ordem. Uns mascarados, outros não; uns com placas a dizerem tu não sabes, mas sou o teu médico / mas sou mãe de um homossexual / mas sou tua irmã / mas gosto de cães, etc, outros não. Todos gritavam, aos curiosos que se mantinham no passeio de São Cristóvão, Santa Catarina, Passos Manuel  ou da Avenida dos Aliados,  "não à ditadura da heterocultura", "casar ou não, é nossa decisão", "homem ou mulher, eu amo quem quiser", "direitos inteirinhos, não aos bocadinhos", "Portugal precário, sai do armário", "LGBT, não finja que não vê", com uma certa musicalidade e alegria nestes apelos, por saberem fazer parte de um movimento social colectivo. O manifesto deste ano, o qual pode ser visto aqui, foi lido à frente da Câmara do Porto. A marcar negativamente a marcha, esteve a quase completa ausência dos órgãos da comunicação social, assim como cartazes como "antes vir-me que reproduzir-me", como podem ver numa das fotos acima colocadas. Deixo, enfim, o vídeo que resume o que aconteceu no dia 11 deste mês, visualização que recomendo imenso (talvez vos convença a ir no próximo ano!)