sábado, janeiro 24, 2009

As Canções de Amor


É curioso: procurando imagens de "Les Chansons d'Amour" pela Internet, não encontrei nenhuma que contenha a personagem de Grégoire Leprince-Ringuet, Erwann, apesar da sua inegável importância para a personagem principal, Ismaël. Não que a que escolhi seja desadequada, porque ilustra perfeitamente a premissa de que parte o filme, mas que está longe de ser uma realidade no final da fita. É um aparte com importância duvidosa, e é provável que estejam a pensar "que raio de introdução". Pois bem, "As Canções de Amor" é um musical que aparenta um filme "ligeiro", mas que acaba por ser uma profunda ode a esse sentimento incansavelmente explorado no mundo das Artes.

Cristophe Honoré escreve e realiza, então, um musical sobre três personagens (Ismaël, Alice e Julie) envolvidas numa relação cuja natureza desafia as convenções, e que se vêem confrontados com a realidade e as consequências das suas escolhas após um evento trágico que envolve um deles. Aliás, "confrontados" não será o termo mais preciso, uma vez que sempre que o assunto vem à tona, todos parecem encarar a sua situação como algo de bizarro, complicado, embora agradável (e conveniente), pois o mais certo seria que, sem Alice, já nada existisse entre os outros dois (algo sugerido até numa das músicas iniciais, e desenvolvido consequentemente).

Existem semelhanças que ligam este "Les Chansons d'Amour" a "Once" e a "The Dreamers". Com o primeiro partilha a naturalidade com que as canções surgem durante a projecção - apesar de aqui elas se tratarem de desabafos, conversas que as personagens mantêm entre si, enquanto que "Once", não esquecendo a vertente musical, encarava-a de forma mais "realista", nunca colocando as suas personagens a cantar como modo de comunicação usual na sua rotina diária-; relativamente ao segundo, o que os assemelha é o facto de retratarem uma relação a três. Como musical, a estrutura de "Les Chansons d'Amour" é idêntica à do "The Phantom of the Opera" de Joel Schumacher, mas aproxima-se de "Once" através do seu cenário actual e urbano.

As músicas (que dão título ao filme e que são, no fundo, o seu cerne) celebram os sentimentos das personagens, focando, como é óbvio, o amor, nas suas mais variadas formas. Combinam bem com o que é apresentado e têm letras muito interessantes. Nelas é discutido o amor maduro por oposição ao amor mais juvenil e inconsequente, a forma como as personagens são influenciadas pelo ambiente em redor, etc. Aprofundar este aspecto seria revelar demasiado do que acontece após a primeira parte (elas são três, "Le Départ", "L'absense", "Le Retour"), por isso fico-me por aqui e deixo que descubram, portanto, a que se referem os títulos que separam os diferentes momentos da história.

"Les Chansons d'Amour" é ambientado numa Paris cinzenta e chuvosa, detalhe que espelha as personalidades das personagens, cujas acções oscilam constantemente e nem no fim se enquadram no "preto" ou no "branco". Refiro-me, como é óbvio, à jornada de Ismäel, uma vez que Alice encontra a sua conclusão ao ajudar o amigo. O final do filme, e aquele que é dado à personagem, decerto que será controverso e incompreendido. Contudo, não me pareceu que destoe do realismo que até aí caracterizou a história; aliás, a meu ver, tudo no filme é apresentado com uma naturalidade que, não sendo ingénua (antes pelo contrário), lhe confere um ar muito próprio e uma honestidade invulgar.

Não me surpreendeu que "Les Chansons d'Amour" fosse tão bom, dados todos os louvores que lhe foram prestados. Trata-se de um bom exemplar do cinema francês da actualidade, que vale muito a pena ser visto. A jeito de conclusão, deixo a melhor frase do filme (aparentemente, ela própria uma citação): "Aime moi moins, mais aime moi longtemps".

quinta-feira, janeiro 22, 2009

:Algumas notas em dia de nomeações


Quase me esquecia que hoje anunciavam os nomeados da Academia! Para quem perdeu a lista, faça favor de clicar aqui e ir directo ao IMDB :P No ano passado, como já costuma habituar-me a cerimónia, o filme que mais desejava que ganhasse as nomeações não levou nada: 2006, "Brokeback Mountain" para melhor filme e actor; 2007, "Babel"; 2008, "Expiação". Este ano, torço por muitos, e a batalha é, digo eu, bastante renhida. De qualquer das formas, eis algumas opiniões sobre os nomeados:
  • "O Estranho Caso de Benjamin Button" com 13 nomeações (!) e "Quem Quer ser Bilionário?" com 10. São, lá está, os principais candidatos à categoria máxima: e "Milk" aproxima-se da luta não muito timidamente: 8 Oscar não era algo que esperava, mas fico bastante feliz. De todos para melhor filme, quem merece ganhar? Não sei, ainda. Vou esperar para vê-los (aos três, principalmente) e depois lanço alguma aposta.
  • Ora.. e "O Cavaleiro das Trevas", onde está? Pois: não está. Nem na categoria de melhor filme, de melhor realizador ou de melhor argumento - apenas Ledger com uma nomeação e o resto das categorias técnicas. Substituindo o lugar, mais ou menos, do filme, está "The Reader", com Kate Winslet, nomeado para 5 Oscar.
  • Para melhor actor a guerra abre-se principalmente entre Sean Penn ("Milk") e Mickey Rourke ("The Wrestler"). Apesar de Penn ter recebido mais prémios (destacando-se o da New York Film Critics Circle), acho, muito sinceramente, que Mickey tem mais oportunidade de ganhar.
  • Prémios (mais do que) garantidos: "Wall-E" (6 nomeações) para melhor filme de animação e Heath Ledger para melhor actor secundário. 
  • "A Turma" e "A Valsa com Brashir" competem para melhor filme estrangeiro.
Mais uma noitada sem pregar olho. Este ano, que ao menos valha a pena.

terça-feira, janeiro 20, 2009

:'Tá bem

O País a caminhar para o caos e a miséria e as propostas dos xuxas são as da pouca-vergonhice! Pobre país, ao que chegaste! O único consolo é que a avançar a proposta do "casamento" de panascas, não será possível descer mais fundo.
Tendo pouco tempo para ir comentando as maravilhas que se me vão surgindo, no que à proposta de Sócrates no passado Domingo, à segunda nova greve dos professores, à crise financeira e à subida de Obama à presidência dos Estados Desunidos diz respeito, deixo-vos apenas com esta citação, que retirei gentilmente do jornal Público e que ilustra quase na perfeição a sociedade em que vivemos.

segunda-feira, janeiro 19, 2009

Férias em Roma

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A comédia romântica é um género ingrato. Nos dias de hoje, tem contra si o facto de ser direccionada muito acentuadamente ao público feminino (o que afasta muitas vezes o público masculino da sua visualização), e o de ser um género onde a inovação é muito pouca; aliás, arrisco-me até a dizer que, se ao filme lhe fosse dado a optar, decerto que a comédia romântica seria das últimas escolhas que ponderaria. Isto, hoje, porque, na sua golden age, Hollywood produziu comédias românticas que podem muito bem ser consideradas alguns dos melhores filmes de sempre.

É o caso deste "Roman Holiday - Férias em Roma". Esqueçam "Love Actually" ou "The Holiday"; por muito que as comédias românticas contemporâneas divirtam, "Roman Holiday" está numa liga completamente diferente, à qual pertence também o incontornável "The Philadelphia Story".

Realizado por William Wyler, este foi o filme-catapulta para Audrey Hepburn, que recebeu um Oscar pela sua interpretação de Ann, uma princesa jovem e cansada de todas as obrigações implicadas pela sua posição na sociedade. A história, resumidamente, segue as suas aventuras em Roma a partir da sua fuga nocturna, em que lhe é possível fazer coisas com que sempre sonhou, com a ajuda de Joe Bradley (Gregory Peck), um jornalista que vê na entrevista com ela a solução para os seus problemas financeiros e Irving Radovich (Eddie Albert), o companheiro fotógrafo dele.

O argumento é uma delícia. As personalidades das personagens, que os diálogos rápidos e perspicazes que estabelecem entre si vão revelando, e as situações originadas pelos seus actos formam um cocktail imperdível. A mestria com que Hepburn se transforma de uma cena para a seguinte, retratando ora a curiosidade juvenil e a vivacidade de Ann, ora a tristeza da castração a que é submetida, merece ser aplaudida. Gregory Peck confere charme a um Joe Bradley perto da ruína, mas mesmo assim fascinado pela companhia da princesa; já Eddie Albert encarna o terceiro elemento deste triângulo, criando com Peck um estado de conflito hilariante entre as duas personagens. Tudo isto acompanhado por uma realização impecável, que se adapta às diferentes fases do filme e respectivas exigências.


"Roman Holiday" é um clássico imperdível, que consegue fazer-nos rir com uma inteligência graciosa, e que nos comove sem se tornar piegas ou recorrer ao habitual melodrama. Durante grande parte da sua duração, trata-se de um filme alegre, contagiado pelo estado de espírito da sua própria protagonista, à medida que ela descobre a vida e, mais inesperadamente, o amor. A cena da mota é um ponto-chave da história, uma vez que personifica a liberdade à qual Ann sempre aspirou, e a imagem do casal em cima do veículo é memorável. Isto só para exemplificar.



Porém, é nas últimas cenas que o filme se torna verdadeiramente comovedor, à medida que o dia "de sonho" chega ao fim e os protagonistas voltam à realidade. A cena no carro, por exemplo, é das mais poderosas a que já assisti. Conseguindo despertar no espectador emoções distintas daquelas até aí proporcionadas, o final é a prova derradeira de que filmes como este são cada vez mais uma raridade. "Roman Holiday" brinda-nos com uma cena magnífica e que significa, para as duas personagens principais, a promessa incerta de algo improvável de acontecer, e tem a coragem de terminar numa nota realista e séria, que merece também ser louvada. Os últimos segundos do filme, o último plano, são, a meu ver, algo de fenomenal, e compõem um dos melhores finais que o Cinema já produziu.
Em suma: uma compra obrigatória.

domingo, janeiro 18, 2009

:Diarios de Motocicleta - Diários de Che Guevara

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Baseado nos registos deixados pelo próprio Che Guevara, o brasileiro Walter Salles traz-nos uma aventura inesquecível e magnífica de uma das figuras mais marcantes da História contemporânea que, ao atravessar metade da coluna latina da América do Sul acompanhado pelo melhor amigo, encontra o seu novo eu interior, conseguindo as bases suficientes para conceber os ideais políticos e revolucionários de que é eternamente conhecido.
Viajamos para Janeiro de 1952, onde dois amigos, Alberto, um bioquímico, e Ernesto, um estudante de Medicina, decidem percorrer oito mil quilómetros, num prazo limite de quatro meses (que não é, como imaginarão, cumprido), desde Buenos Aires até a península de Guajira, na Venezuela, na “Poderosa”, uma mota emblemática e velha. Depois de partirem da sua terra-natal, os dois iniciam uma jornada divertida, com altos e baixos despreocupados, cursando por entre paisagens naturais de uma beleza rara, retratada na perfeição com um cuidado estético na fotografia bem visível. Porém, após a visita da namorada de Ernesto, e depois de a mota morrer, o cenário torna-se mais cinzento, o ambiente adensa-se e a consciência de que não estão num mar de rosas social é tida em consideração, ao conhecerem uma série de grupos, culturas e problemas questionáveis, que farão do estudante uma nova pessoa, mais lutadora e íntegra. Chegamos a sentir o peso de tal descoberta com as inúmeras fotografias movimentadas a preto e branco que vão, de vez em quando, surgindo no ecrã: e a sequência final é um excelente modelo. Os seus monólogos meditativos, transpostos em voz off, são do melhor que o argumento pode dar (não pensem que todo o resto da história não vale a pena!): talvez por serem os escritos de Guevara, talvez por reflectirem a condição humana de forma genérica, ou talvez ambas. A verdade é que são de tal forma poderosos que nos sentimentos com vontade de largar tudo e partir para a estrada, deixando tudo para trás: e a fita mostra mesmo a razoabilidade desta decisão.
García Bernal está belíssimo como Ernesto “Che” Guevara, humanizando-o com uma feição real e honesta, sem demonstrar as ideias políticas e subversivas com exageros, escapando todo o argumento de um carácter político que muito provavelmente seguiria não fosse a existência de outros filmes que se concentraram nesse aspecto, dando-nos o actor uma interpretação verosímil e talentosa, das melhores de toda a sua carreira (note-se o ano do lançamento da película, o mesmo da estreia de “Má Educação”, de Pedro Almodóvar, onde nos apresenta um brilhante trabalho, merecedor de todos os prémios recebidos). Já Rodrigo de la Serna tem um desempenho competente, apesar de não equitativo.
O que de tão inspirador tem o “Diários”, para além de toda a audácia dos protagonistas que é transportada para uma obra de ficção (como acontece, mais ou menos, com “O Lado Selvagem”, de Sean Penn, mas de forma claramente menos solitária) é o facto de podermos ver, num panorama tão geral quanto específico, os resultados que pequenas mas poderosas acções vindas de dois corajosos amigos podem provocar em maiores grupos de pessoas onde, inicialmente, para todos eles, a fé afigurava-se como algo de já perdido. O filme é muito mais do que um road movie vulgar pela América do Sul; é um retrato histórico em tempos de pré-revolução que todos deveriam ver, e que reacende novas e universais perspectivas sobre o poder da amizade, do amor, da justiça e, principalmente, sobre o poder de acreditar que ainda é possível trazer um olhar de mudança para os desprotegidos e um grito de esperança para os mais silenciosos.
9/10

sábado, janeiro 17, 2009

A Casa dos Horrores de Rob Zombie

robzombie

Já com três longas-metragens no currículo (entre elas o remake do clássico de 1978, "Halloween"), Rob Zombie tem uma abordagem muito própria do género de terror, e os seus filmes valerão certamente a pena ser vistos, daqui a uns anos, por qualquer aficcionado pelo género.

"The House Of 1000 Corpses - A Casa dos 1000 Cadáveres"
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"Run, Rabbit, run!"
Um grupo de amigos viaja por altura do 31 de Outubro à procura da árvore onde Dr. Satan, conhecido serial-killer, terá sido enforcado. Pelo caminho, e depois de darem boleia a uma desconhecida, alguém dispara para um dos pneus do carro, impossibilitando-os de prosseguir viagem. A desconhecida logo os convida a ir a sua casa, onde o carro deles poderá ser reparado e onde eles podem descansar um pouco daquela noite chuvosa, numa demonstração de hospitalidade que soaria suspeita a qualquer um. É claro que ela está envolvida com os maus da fita, e é claro que a intenção dela não é ajudá-los, mas sim garantir que eles chegam ao covil da serpente.

Escrito e realizado por Rob Zombie, o filme revela um invulgar exercício de estilo: desde o tipo de imagem, que se parece com os videoclips da banda a que pertence, desde a banda sonora, até aos diálogos. É um filme cru, que, não estando isento de clichés, não se importa de os utilizar em seu cruel proveito: e quando pensamos que algo vai acontecer, nada melhor que vermos as voltas trocadas. Sem medo de arriscar, ao espectador é-lhe apresentada a descida dos jovens adultos (que, para não variar, melhor fariam se tivessem ficado em casa) a um inferno de tortura e sadismo, onde o gore existe, e em quantidades suficientes para deixar qualquer um indisposto.
Tem as suas cenas, e tem a particularidade de não assustar apenas pela banda sonora: um clima de tensão e terror é criado convenientemente, e há cenas que chegam a ser perturbadoras, como a show-stealer em que uma das personagens, a certa altura, protagoniza uma espécie de variante sangrenta d'Alice No País das Maravilhas. Há, no entanto, coisas que ficam para esclarecer: o motivo da família entrar nestas matanças desenfreadas, por exemplo. Mas nada disso importa: o mais importante, ao fim e ao cabo, é obtermos uma resposta para a questão: "Será que o Dr. Satan existe realmente?". E nós, ao menos, podemos obtê-la no conforto de sabermos que se trata de ficção: os protagonistas que, pelo caminho vão vendo os seus corpos despedaçados, tiveram menos sorte. Em jeito de nota, um facto curioso: filmado em 2000, "A Casa Dos Mil Cadáveres" só conseguiu ser distribuído em 2003.

"The Devil's Rejects - Os Renegados do Diabo"
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"RABBIT!"
Sequelas a filmes de terror não são algo incomum: veja-se o caso de "Saw", que já vai no quinto filme; "Friday The 13th", que teve uns 10; "Nightmare On Elm Street", que teve uns 7... contudo, uma sequela que leva o universo do primeiro filme a um patamar superior e acrescenta dimensões às personagens que conhecíamos, em vez de se limitar a reciclar a história do anterior apenas mudando algumas situações e, como é óbvio, o nome das personagens, é ago raro. Ainda para mais, se tivermos em conta que aqui seguimos a jornada de alguns dos vilões do primeiro filme, e não os bonzinhos que nos apresentaram anteriormente. Encontrámo-los em fuga, ao mesmo tempo que um xerife, querendo vingar a morte do irmão às mãos de Spaulding e companhia na prequela, empreende um interrogatório a Firefly, único membro da família a ser capturado.

O filme desenvolve, então, as relações de Baby, Otis e Spaulding, enquanto eles fazem mais umas vítimas e tentam escapar à justiça. Tornando-os (o mais possível, lá está) humanos, "Os Renegados Do Diabo" tem a vantagem invejável de conseguir que, ainda que não torçamos por eles, os compreendamos. E uma pergunta transcende todo o filme: quem é, afinal, o verdadeiro monstro aqui? Eles, que matam sem remorsos, ou o xerife Wydell, que não liga aos meios para concretizar a sua vingança pessoal, mesmo que isso signifique tornar-se semelhante (ou pior) àqueles que persegue?
A cena que melhor espelha esta dúvida é, sem dúvida, o jogo do rato e do gato protagonizado por Baby e Wydell entre o gado. Os papéis foram invertidos, os predadores tornaram-se agora as presas. Uma história que se afasta do "preto no branco" do anterior, para mergulhar o espectador num clima acinzentado, onde cada personagem tem razões válidas a fundamentar as suas acções. Uma esforço bem-conseguido por Rob Zombie, que, mais uma vez, não teve medo de arriscar, e teve até coragem para inovar.

"Halloween"
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"I like the mask because it hides my face."
Tinha grandes expectativas para este filme. Contudo, é fácil constatar que este é um remake de "Halloween", filme que celebrizou Jamie Lee-Curtis (e cujas sequelas, em que ela participou, devem tê-la feito vítima de um flagrante typecasting) totalmente dispensável e que constitui, até, um passo atrás na carreira de Zombie como realizador.
Ora, convém esclarecer que o filme é divido em duas partes: uma em que nos é explicado como Michael Myers apanhou o gosto pelo homicídio e outra, passada quinze anos mais tarde, em que Myers procura a irmã mais nova. Os motivos dessa procura são uma incógnita, mas algumas conclusões acerca disso podem ser deduzidas: sozinho no mundo, talvez queira reencontrar a única pessoa por quem ainda pode nutrir uma reminiscência de afecto. Contudo, tudo o que dissermos não passa de deduções, uma vez que, explicadas as origens do serial-killer, em quarenta minutos interessantes e elaborados, o filme passa então a ser um típico slasher, em que quem faz muito sexo tem morte certa, e em que a banalidade da forma como as mortes ocorrem é gritante. Àparte, claro, do confronto final entre ele e a irmã, Laurie, que, tendo sido adoptada em bebé por outra família, não se lembra dele. Aí, o filme consegue surpreender por alguns detalhes, e criar um bom clima de tensão.
Mas não passa disso. As ideias de Zombie eram boas: os diálogos, na segunda parte, são engraçados e bem-escritos, e a primeira parte é um estudo cuidado sobre o processo de criação do mítico homicida. Mas, no fim, poucas são as coisas que nos ficam na memória: talvez uma Scout Taylor-Compton a gritar o mais alto possível enquanto foge pela rua, ou a cena que precede a morte da irmã mais velha de Michael. Uma oportunidade desperdiçada, em que Zombie não conseguiu pegar no clássico e fazer uma versão sua, distinta. Soa a pouco... quem sabe na sequela (cuja existência é provável, a julgar pela cena final algo dúbia) ele consiga fazer algo semelhante a "Os Renegados do Diabo". E isso, sim, talvez valha a compra do DVD.