É sabido que a dor da morte, nas suas múltiplas facetas, é universalmente sentida. Tal não significa, porém, que seja expressa da mesma forma — e a primeira longa-metragem de Sandro Aguilar comprova isso mesmo, reconhecendo, com um pessimismo e (sur)realismo exacerbados, o luto mecânico e subjectivo pelo qual o homem da contemporaneidade atravessa, bem como a sensação de vazio que lhe está inerente. E, nessa tarefa, o realizador português é, crua e simplesmente, admirável.
Entender, por completo, a gramática poética e a lógica tão realista quanto onírica do filme pode parecer, pelo menos inicialmente, uma tarefa difícil de se atingir. É, contudo, nesta espécie de desafio cognitivo, que grandemente nos envolvemos naquela estranha linguagem formal e entramos n’A Zona, ou a íntima área do nosso subconsciente, medos e desejos por excelência, onde verdadeiramente reside a invisível metafísica. Rejeitando grande parte dos tradicionais convencionalismos formais e de narrativa, a fita, altamente sensorial, navega num oceano recheado de fortes, duras e metálicas imagens e sons. E é isso que o torna, na sua essência, sublime — cada cena, do início até o final dos créditos, é crucial. Quando o Tudo chora o Nada, torna-se por demais substancial atentar, com minuciosa atenção, as personagens espiadas e com quem vagueamos, os simbolismos que presentes estão, sejam estes imagéticos e físicos ou não. No azul introspectivo e belíssimo de Paulo Ares que, em jeito de devaneio solipsista, mergulha quase a totalidade dos cenários, viajamos numa terra de ninguém, de quem está perdido, desde a nascença, na imensa dor do luto e do medo da morte, de quem quer gritar e soltar a própria fúria canina, animalesca e, sobretudo, livre. Porque é, efectivamente, por isso por que lutam as nossas personagens anónimas, sem se quererem entreolhar e tocar, alimentando um frio inesgotável — pela liberdade e pela vida que a Natureza lhes tentou propiciar antes de o homem se confinar a um mundo de sufocante artificialidade e anestesia, onde se impõem a tecnologia, a máquina hospitalar e, mais do que qualquer outra coisa, a intelectualização de tudo quanto é de transcendente e incompreensível à sociedade, no estado em que se encontra. E, entretanto, também se engrena, irreversivelmente, a impossibilidade de contrariar o maior devir de todos, o da passagem do tempo, representado pela lenta e rígida viagem do comboio. Aos nossos protagonistas, espectros errantes que se unem e desunem descontinuamente em planos pictóricos e instituições sociais, caberá a tarefa de sobreviver um dia mais e de não se consumirem em si, na embriaguez que quase dá término à película. Esta acaba, sim, com um conforto visual para o espectador petrificado — o recordar da Natureza, quente e verde, no seu estado duro e puro, que não poucas vezes ignoramos.
Encontramo-nos perante a zona, que acolhe e que liberta, uma verdadeira gema da sétima arte nacional que, sem qualquer sombra para incertezas, não deve ser passada ao lado, pela sua extraordinária sensibilidade e genialidade quase perfeitas.
9/10