quinta-feira, janeiro 16, 2014

Aqui não há orgasmo possível

Escorre pelo telhado o dilúvio que lava o sangue e pressente o desastre – como um orgasmo, o filme começa pelo clímax. O que nos espera são quatro horas de Ninfomaníaca, que hoje se estreia em metade (a segunda parte sai a 30 deste mês), um "filme de aprendizagem" pervertido pela sensação de pornografia que acompanha a cronologia de vida de uma mulher que é uma bad person, assim se quer apresentar. Joe parece pertencer menos a Charlotte Gainsbourg e mais ao discurso de statements e verdades absolutas de Lars von Trier, tornando-se veículo de uma voz prepotente, que ultrapassa o amor pela personagem para querer iluminar uma definitiva magnum opus.

Ninfomaníaca foi, antes do filme, um caso invulgar e histérico de marketing, envolto em sucessivos rumores e imagens divulgadas que se impunham à procura de novas "polémicas". A vontade era a conversão do estatuto persona non grata colado no Festival de Cannes para a de génio rebelde sobre quem todos gostam de falar. Quando o filme se despe o que descobrimos é um objecto que está para além do bem e do sentimento e que parece vir depois do fim do mundo (Melancolia terminava com um ponto final), assinado por um realizador infantilizado na manipulação lúdica da forma cinematográfica que esgota a colaboração com a atriz protagonista (é a terceira) ao transfigurá-la num ser que diz enquanto é penetrada: "Já não sinto nada."

É provável que este seja o filme em que o autor por fim decide que ambiciona um cinema que, ao contrário dos melodramas da manipulação desengonçada interessados em chicotear a mulher (como Ondas de Paixão ou Dancer in the Dark), admite que já não deseja sentir compaixão. Emily Watson e Björk não eram Nicole Kidman em Dogville – pelo contrário, diante do seu destino aceitavam o martírio e assumiam uma espécie de culpabilidade racional responsabilizando a mulher pelo seu lugar na linha da História. Dogville virava os dados: dizia-se "não". Em Ninfomaníaca, porém, o seu gesto está reservado à transformação da mulher num ser que apenas ambiciona a satisfação do desejo sexual, um dado fundamental que isola a protagonista do mundo por onde caminha. O sexo, por seu lado, serve de ponte metafórica para a essência do mal – eis a evidência que a heroína, que ultrapassa um processo de grave monstrificação, quer iluminar com a biografia que conta ao espectador e a um judeu solitário que é também um santo (o ator Stellan Skarsgård, que responde aos comentários antissemitas do realizador dinamarquês).

A odisseia, porém, parece confirmar o orgasmo como garante de vida, ou ainda como o seu sentido último. Ela divide-se em oito capítulos, da infância ao tempo presente, com cruzamentos de referências, anedotas, raciocínios e fetiches que mostram mais vaidade do que profundidade, relevância ou libido. Do mesmo modo, a narrativa da história de vida de Joe é frequentemente atrapalhada por ruído, por laivos de "poesia interior" que apenas empobrecem uma mise-en-scène já por si desinteressada do espaço. Stacy Martin, que corporiza a juventude da protagonista, ocupa a primeira parte com um espírito malicioso de apatia nunca antes filmado – preocupa-a ter numa viagem de comboio sexo com o maior número de homens que conseguir, evita voltar a estar com a mesma pessoa e assume-se como portadora de uma desajeitada revolução contra o amor (o "ingrediente secreto do sexo" ou então a "luxúria associada ao ciúme"). Forget about love, insiste a promoção, quase nomeando o pós-título de um "livro vermelho" sobre o sexo...

Trata-se de querer filmar o ser humano privado das suas ilusões românticas e do sistema que o aprisiona (o casamento e a família aparecem como as expressões radicalmente opostas do triunfo do desejo), através de uma perspetiva satírica e masoquista, "de cima para baixo". Já não há personagens, apenas corpos irreconhecíveis que se movem cansados num espaço por fim domado pelo realizador e que mimetizam todos os seus tiques e obsessões pessoais (Uma Thurman protagonizando um daqueles momentos excessivos que servem de inútil caução para a desaparecida etiqueta de 'melodrama' e que confirmam que o esforço fez sair o tiro pela culatra). E embora sejamos também abalados por um pessimismo pesado e desafiante, formado pelo amor ao artifício, não encontramos a sua credibilidade quando embatemos contra os acessos de permanente ironia (o clube satânico de ninfas é uma das imagens mais evidentemente demolidoras desse desejo de atmosfera subterrânea de melancolia) nem tão-pouco temos vontade em subscrever a sua missão antierótica.

A sua relação evidente na exploração do sensorial (através da composição da imagem e dos sons) com mestres do sagrado como Andrei Tarkovsky (um ícone de Andrei Rublev aparece mesmo numa das paredes da casa do judeu) passou apenas ao puro formalismo e à cruel tentativa de atrair a fealdade e a ideia de misantropia, tropeçando com frequência no embaraçoso tom de autoparódia. Não há Marquês de Sade que nos salve de um Lars von Trier menos misterioso e mais preso ao discurso cínico, desnudado de qualquer tentativa de nos tocar, empenhado em reorganizar o universo expondo o "explícito" com humor moralista. Até nos chegarem os capítulos finais, que darão um vislumbre total sobre a magnitude deste projecto, o orgasmo permanece impossível.

Este texto adapta o artigo publicado no Diário de Notícias no dia 15 de janeiro de 2014.

segunda-feira, janeiro 13, 2014

2013, utopia do amor

Um balanço amadurecido do cinema de 2013 evoca a imagem com que L'Inconnu du Lac abre: um descampado que é um parque de estacionamento que é um lugar de cruzamentos românticos que é um lugar onde a morte sobrevoa como uma inevitabilidade... Daqueles que chegaram às salas portuguesas destaco esta mão de títulos, que de algum modo prolongam o seu poder transgressivo e íntimo. Das promessas de uma indústria em implosão estes são os mesmos filmes que parecem continuar em busca de um novo espírito romântico, entre o desencanto, o político e a utopia (Spring Breakers sendo a expressão retratista tão desajeitada como precisa dos novos desejos pop). Esse olhar não escapa já à ideia premente de voyeurismo (Guiraudie é brilhante a montar este "terceiro testemunho") e poderá porventura ambicionar o sagrado, diz-nos Malick, empenhado em filmar corpos sensíveis, na dança das suas incertezas, banhados pela luz que ressuscitar esse distante sentimento, que continua rejeitado, do maravilhamento.
  1. To the Wonder, Terrence Malick 
  2. L'Inconnu du Lac, Alain Guiraudie 
  3. La Vie d'Adèle: Chapitres 1 et 2, Abdellatif Kechiche 
  4. Camille Claudel 1915, Bruno Dumont 
  5. Behind the Candelabra, Steven Soderbergh 
  6. Like Someone in Love, Abbas Kiarostami 
  7. Lincoln, Steven Spielberg 
  8. Faust, Aleksandr Sokurov 
  9. Spring Breakers, Harmony Korine
  10. Da-reun na-ra-e-seo, Hong Sang-soo