domingo, outubro 28, 2012

Sobre O Rio Sagrado


Deu início na passada sexta-feira (dia 26 de outubro), com O Rio Sagrado (1951) de Jean Renoir, o ciclo de cinema Ao Encontro De..., na Escola Superior de Teatro e Cinema (Lisboa) organizado pelo Rúben Gonçalves e por mim. Um espaço público de descoberta e reflexão de filmes estrangeiros e portugueses que tem expressão neste canal de Youtube (onde serão publicadas as filmagens das apresentações e discussão dos filmes) e neste blogue (onde estarão os nossos comentários e vídeos, bem como os dos espectadores). A propósito de O Rio Sagrado escrevi este texto que foi divulgado nas folhas de sala entregues aos espectadores:
Descobri O Rio Sagrado numa aula de Teoria da Montagem – descobria então aquele que é um milagre de filme; “milagre” no princípio, que nos dá as boas-vindas a um território (a Índia) onde me parece que a vida é celebrada como uma passagem para outro início (outra Índia); “milagre” no fim, que reforça a ideia de eterno retorno com um nascimento. Lembro-me (porque escrevi no caderno de notas) que tive medo de intervir na aula, sob a pena de destruir algo, potencialmente bigger than life, que estava diante de mim. No momento em que escrevo estas palavras continuo com esse medo e, também, ainda assombrado.

João Bénard da Costa, no seu texto sobre O Rio Sagrado, redisse que era “o mais belo filme do mundo” – convicção que acompanhou com um ligeiro espanto: se é o mais belo por que razão não o vemos citado como um dos mais importantes Renoirs? Se não fôssemos descrentes na arbitrariedade da enciclopédia 1001 Filmes para ver antes de Morrer morreríamos descansados por não termos visto O Rio Sagrado (que não consta na lista). Um filme que, afinal, não teme a morte – e é obrigatório, dizemos nós, para se ver vivo!

Quando, em 2012, (re)vemos este filme as suas imagens parecem-nos levar a um referente desconhecido, como se a memória recordasse bem as personagens e o discurso patentes no filme do Renoir. Por fim descobrimos o raccord: afinal foi Terrence Malick quem, no ano passado, nos fez descobrir um novo mundo chamado A Árvore da Vida. Lá encontrámos a figura da mãe, omnipresente, as dores do crescimento, essenciais em ambos os filmes, a angústia sobre o mistério da morte, também ela central, e o modo de conduzir a nossa espiritualidade. As fundações dos grandes temas que Malick trata na sua destemida odisseia tinham já sido tocadas havia então 60 anos.

O Rio Sagrado, que nos sugere também a imagem de uma grande árvore (“a árvore da vida” que, quando surge de vez a vez, domina a força de todo o enquadramento e nos obriga a pensar na questão da fusão de tempos – passado, presente e futuro), segue estas questões com agilidade (e notável serenidade).

Renoir concentra, contudo, a voz interior do filme numa – na protagonista, a Harriet do futuro, que conduz, sempre em off e até ao fim, o fio da narrativa num discurso que percorre, primeiro, um lado eminentemente realista e documental – ligados aos rituais religiosos e ao quotidiano da Índia, ignorando os estereótipos dos “elefantes, lanceiros e tigres”, como o próprio Renoir refere na sua apresentação do filme, e filmando (através da bela fotografia do sobrinho do cineasta) a vida que há no Oriente e que é percepcionada pelos olhos de um “viajante” do Ocidente. Depois, a voz de Harriet toca também a poesia (os versos simples que tão sincera e ingenuamente dedica ao Capitão John por quem está apaixonada) e, também, a fábula (a história dentro da história que nos faz aceder à cerimónia nupcial: mágica e primitiva, já que nos leva à origem da tradição).

O rio tem uma poderosa força simbólica (Bénard da Costa referia a sua feminilidade para descobrir como este era porventura o filme mais “feminino” de Renoir) mas parece-nos que é de igual modo uma imagem altamente sugestiva pelo seu lado unificador. Como a vida, o rio também existe através das suas atribulações ou, dito de outra forma, através das suas ondas – o equilíbrio daquela família inglesa faz-se não pela total estabilidade mas pelo crescimento, necessariamente agitado, de cada personagem. É certo que Renoir se foca no desenvolvimento de Harriet que, ao procurar dar sentido à crescente desordem do seu universo, se depara com a realidade dos acontecimentos (será que em 2012 alguém, com a informação instantânea da Internet, sente a violência destas descobertas?).

Ao mesmo tempo, parece-nos que todas as personagens deste filme vivem constantemente um dilema entre viver num ideal da felicidade e uma realidade incerta que é, porventura, dolorosa – Valerie, a dado momento, desabafa: “it was like something in a dream. Now you've made it real. I didn't want to be real”. Do mesmo modo, numa das cenas mais fascinantes do filme, Harriet confronta-se inevitavelmente com absurdo da realidade logo após a morte do irmão: afinal, o Bogey morreu e estou diante de um prato de comida? Ao mesmo tempo e contrariamente, Mr. John faz uma confissão radical mas absolutamente consciente: “we should celebrate that a child died a child. That one escaped. We lock them in our schools, we teach them our stupid taboos, we catch them in our wars, we massacre the innocents. The world is for children. The real world.”

Assim o rio continua – como a vida. Num círculo sem “end”, mas “endless”. Depois da morte, um nascimento; depois de uma desilusão, as cartas que são esquecidas nas escadas... E tudo isto convive simultaneamente, isto é, em fusão. Foi, talvez, a lição mais preciosa que tirei da aula em que vi pela primeira vez O Rio: o filme, que integra (e não separa) corpo e espírito, Ocidente e Oriente, vida e morte, prova-nos que o cinema, tal como a nossa existência, pode ser, ao mesmo tempo, claro e indeciso. Obscuro e luminoso.

Um caso que merecia melhor defesa

Chegou esta semana aos ecrãs portugueses 'A Advogada', filme deTony Goldwyn protagonizado por Hilary Swank baseado num caso real.

Título: A Advogada (EUA, 2010)
Realização: Tony Goldwyn
Com: Hilary Swank, Juliette Lewis, Melissa Leo, Sam Rockwell
Distribuição: Alambique
Classificação: ★★

Sinopse: Depois de ver o irmão condenado a prisão perpétua por um homicídio que não cometeu, uma mulher torna-se uma advogada para tentar repor a justiça.

Chega a Portugal com dois anos de atraso mas tem os ingredientes suficientes para conseguir encher as salas num fim-de-semana. Vejamos então: temos o regresso de uma estrela - Hilary Swank (a última vez que a vimos foi num título curiosamente mais recente: Ano Novo, Vida Nova!, de 2011) -, que por sua vez protagoniza uma narrativa baseada "numa história real" de persistência e amor fraterno.

O resultado é um objeto inofensivo mas o realizador Tony Goldwyn acaba por nos aborrecer ao fazer-nos mergulhar na arrumação convencional do telefilme ou de um episódio de uma série televisiva estendido a longa-metragem. Assim, o problema passa precisamente pelo trabalho de ilustração do argumento de Pamela Gray que, por seu lado, não deixa de ter a sua carga de previsibilidade (e de pequenas reviravoltas desnecessárias). Como qualquer outra variação de filme biográfico não deixamos de ter também os habituais estereótipos do género: por exemplo, o filme fecha fazendo fast-forward para a atualidade, explicando-nos o ponto da situação dos dois irmãos na altura em que o filme estreou.

No entanto, temos de reconhecer o trabalho de direção de atores de Goldwyn (que aproveita assim a sua experiência como ator), que aqui orienta um leque de nomes como Sam Rockwell (que surge, infelizmente, raras vezes) ou Melissa Leo. Mas o nosso foco dirige-se inevitavelmente para a vulnerabilidade subtil e comovente de Hilary Swank - é ela, afinal, que salva quase toda a energia deste filme.

Os diamantes agora brilham em alta-definição

Por ocasião dos 50 anos da morte de Marilyn Monroe alguns clássicos regressam agora em Blu-Ray. Um dos títulos é 'Os Homens Preferem as Loiras', de Howard Hawks.

Título: Os Homens Preferem as Loiras (1953)
Realizador: Howard Hawks
Distribuidora: Pris Audiovisuais
Elenco: Marilyn Monroe, Jane Russel, Charles Coburn
Classificação: ★★★★

Basta-nos um segundo de filme para estarmos completamente dentro do espectáculo. Duas gigantes do cinema norte-americano, a morena, Jane Russel, a loira, Marilyn Monroe, surgem atrás da cortina e introduzem-se no primeiro número musical: "we"re just two little girls from Little Rock..." É de facto fascinante perceber como a noção de escapismo, que é característica fundamental da Hollywood clássica, permanece absolutamente eficaz quase 60 anos depois da sua estreia.

Um motivo mais do que suficiente para (re)descobrir Os Homens Preferem as Loiras, que é, não tenhamos medo de o dizer, um dos maiores musicais da história do cinema (definidores, aliás, do género que nunca reconquistou o seu estatuto após a decadência do período clássico).

Adaptação de 1953 realizada pelo multifacetado Howard Hawks da peça musical homónima de 1949 (baseada, por sua vez, no romance cómico de Anita Loos, de 1925), Gentlemen Prefer Blondes (título original) mereceu recentemente uma edição doméstica em alta-definição que é obrigatória. Este Blu-Ray traz-nos o resultado de um restauro preciso realizado a propósito dos 50 anos da morte de Marilyn Monroe (assinalados este ano) e que aviva o poder encantatório do Technicolor.

E é precisamente através do meticuloso trabalho sobre a cor e a mise-en-scène que Hawks constrói esta fábula "virada ao contrário", onde acompanhamos as duas protagonistas numa viagem de navio até Paris, local em que a personagem de Marilyn Monroe casará.

É a partir de canções que fazem já parte da nossa cultura popular (Madonna, muitos anos mais tarde, apropriou-se da encenação de Diamonds are a girl"s best friend para o teledisco de Material Girl) que gravitaremos em torno do tema do amor, que em Os Homens Preferem as Loiras é visto como algo condicional e que implica sempre exigências. No caso de Marilyn a única reivindicação é ao mesmo tempo absurda e simbólica: dinheiro e diamantes. Não é, assim, difícil perceber o efeito que teve em toda a filmografia do cineasta alemão Rainer W. Fassbinder, que apontaria este como um dos seus 10 filmes preferidos.

Mas o que brilham são, verdadeiramente, as estrelas - elas chamam-se Jane Russel e Marilyn Monroe e demonstram neste filme em particular toda a sua influência no nosso imaginário e cinema contemporâneo.

Extras: Filme de atualidades em que vemos Marilyn Monroe e Jane Russel juntas no cimento; trailer original de cinemas e outros trailers de filmes com Marilyn Monroe.
Duração: 91 minutos.
Legendagem: Português e outras línguas.
Imagem: Alta Definição HD 1.37:1
Som: DTS-HD Master Audio 5.1
Região: sem região