terça-feira, julho 31, 2012

A Palavra (5): Sobre a crítica de cinema


Vivemos um tempo em que exercer a crítica de cinema parece ser (ou, se calhar, é mesmo) algo que se democratizou em absoluto, especialmente com as possibilidades que a Internet nos ofereceu. Um blogue é, por exemplo, tal como um programa de televisão, de rádio ou um jornal, uma plataforma, cada vez mais digna – e, sem dúvida, a mais acessível –, para escrever uma crítica a um filme visionado. Neste sentido, é importante estar cada vez mais atento ao panorama da crítica em Portugal e refletir, uma vez mais, a sua natureza e os seus objetivos. 

Há dois textos que descobri recentemente e que tentam, de modo objetivo, definir o que existe – e, por conseguinte, aquilo que não deve ser. O primeiro deles é o prefácio (Da memória ao cinema em acto) escrito em janeiro de 1978 por Jorge Leitão Ramos para o livro Cinema e Transfiguração, de Eduardo Geada

“Há várias razões que podem justificar uma recolha de textos escritos em jornais e revistas um pouco ao longo do tempo (1968-1977) (...) A razão, se a quisermos buscar e dela necessitarmos, temos de a ir procurar no mundo um pouco provinciano, um pouco autossatisfeito, um pouco ignorante e um pouco cobarde da crítica de cinema em Portugal nos últimos anos. Só assim se percebe que textos escritos ao longo de dias, anos atrás, possam, ainda hoje, ser diferentes e modernos, no sentido em que essa diferença e essa modernidade não são apenas atributos de uma qualquer exótica singularidade mas contêm em si traços longamente inexplorados até então e pouco mais aprofundados até agora.

Antes de tudo, o trabalho de Eduardo Geada recusa ser uma crítica de gosto, uma tarefa de maître d’hotel da burguesia a escolher no cardápio os pratos melhor confecionados, uma crítica culinária, no sentido que Brecht deu ao termo. Em segundo lugar, os seus textos enjeitam situar-se no terreno fechado da cinefilia, esse mundo que remete sempre para si próprio, falando das formas e dos autores como se o que importasse fosse apenas uma coerência interna, um caráter comparativo (Hitchcock versus Wyler ou a montagem de atrações versus plano-sequência) cuja discussão e fundamento se fizesse exclusivamente no interior do próprio cinema. Para Eduardo Geada o cinema é sempre entendido como reflexo dialético do histórico. E é nas esferas do político, do social, do psicanalítico e também da cinefilia que o seu trabalho crítico se desenvolve.

Gostaria de acentuar aqui um dos aspetos que me parecem mais importantes desta aproximação do cinema: o seu caráter didático. Com efeito, nos textos do Eduardo nunca importa muito dizer se o filme é bom ou mau (categorias de um maniqueísmo redutor que estão muito longe dos seus objetivos). Ao invés, trata-se de penetrar a textura do filme e de o compreender nas suas várias coordenadas, de o situar quer no interior do cinema, quer no interior de uma determinada estrutura social, quer no seu modo de funcionamento junto do público. Não há, por isso, nos seus textos uma adjetivação fácil, mas um trabalho moroso, fascinante e arriscado de dissecação. E tudo isto numa linguagem que se procura tão clara quanto possível, onde não é bem a “prosa” que interessa (“prosa” que, noutros, chega a ser brilhantista, gongórica, citante e vazia), mas aquilo que, nela, de objetivo se disser.

Por outro lado, este trabalho crítico não esconde nunca a sua precariedade, nunca se afirma como violentamente definitivo, nunca ganha as coordenadas de um julgamento inapelável. E isto exatamente porque ele não se fecha num mundo chão e familiar, seguro, mas assume o risco de evoluir, de procurar noutras direções. (...)

Num país onde tanta ideologia apressada inundou o quotidiano, onde os critérios de valor se pautam, frequentemente, pelo ideológico, muito pouca gente que fala e escreve acerca de objetos culturais tem a humildade e o rigor de análise que os textos deste livre demonstram. Quando o “julgamento” de um filme (ou de uma canção, ou de um livro, ou de uma peça de teatro...) se baseia tantas vezes no que o filme mostra ou conta ao nível primário de uma leitura apressada da sua história é bom de ver que a aproximação que os textos deste livro fazem é bem diferente. Eles mostram e demonstram que a formação da ideologia ao nível do cinema tem a ver com várias coordenadas (o modo de produção, o local e o tempo desta, o modo de difusão e consumo, as formas e os códigos cinematográficos usados...), e é a partir delas que se procura estabelecer uma aproximação ideológica do cinema em geral e de cada filme em particular.

Resta talvez dizer que estes textos nunca são gélidos, impessoais e distantes. É que eles não são produzidos por uma qualquer instância venerada de saber, mas nascem de um prazer pessoal, de uma quase paixão, face ao ecrán, prazer multiplicado na prática analítica da escrita, prazer que, afinal, gera a imensa vontade de saber que os informa. (...)”

O segundo texto nasce quase 25 anos mais tarde e acompanha o surgimento de um novo portal de cinema. Escrito pelos autores de À Pala de Walsh (a saber: Carlos Natálio, João Lameira, Luís Mendonça e Ricardo Vieira Lisboa), ele pode ser lido aqui.

sexta-feira, julho 27, 2012

Rise



Os primeiros planos da primeiríssima cena do último capítulo da trilogia Nolan carregam consigo, hoje, uma força tão horrível quanto fascinante. São, de certo modo, imagens tornadas “intensas” (lembramo-nos da designação do teórico brasileiro Fernão Pessoa Ramos). Muito simplesmente porque nos sentimos a cair diante imagens que testemunham a experiência das vítimas do atentado terrorista no estado do Colorado e que resultou na morte de 12 pessoas na sessão da meia-noite da passada quinta-feira de O Cavaleiro das Trevas Renasce

A associação ao massacre, certamente inevitável, reacende algumas discussões – entre eles, o debate sobre o controlo de armas nos EUA e o mais conservador da influência do cinema sobre o real (o crítico de cinema Peter Bradshaw, do Guardian, reflete bem sobre o assunto aqui) –, e vem marcar a história da trilogia de uma forma apenas comparável à morte de Heath Ledger pouco tempo antes de ter estreado O Cavaleiro das Trevas (e cuja interpretação viria a ser reconhecida com um Óscar póstumo). 

Não estamos a falar de malabarismos negros de marketing – mas de realidade. Foi, aliás, este caminho que “salvou” Batman das tristes reminiscências de Joel Schmacher e o distinguiu da construção fantástica de Tim Burton. Uma injeção de realidade que, curiosamente, vem de um homem que tem lidado com sonhos (A Origem, 2010) ou magia (O Terceiro Passo, 2006); um homem que recusa determinantemente o 3D e que tende a diminuir os efeitos especiais em cada plano; alguém que, por outro lado, fala para o real com um cinema cada vez mais afastado dos seus primeiros trabalhos e completamente entregue ao mainstream

Um mainstream que é, apesar de tudo, evidentemente de primeira classe. Como se reinventado, há aqui um escapismo que, sim, oferece ao espectador uma fuga do seu banco da sala de cinema. Como Joseph Bevan o relembra na sua interessantíssima retrospetiva do realizador (Escape Artist publicado na edição deste mês da Sight & Sound), Slajov Žižek aponta O Cavaleiro das Trevas como a expressão da “indesejabilidade da verdade” pelo espectador. No entanto, não conseguimos deixar de sentir que há neste escapismo algo que fala para o seu local de origem. 

Esse local de origem para onde Christopher Nolan nos devolve é um mundo derrotado pelo fantasma da crise financeira representada pela queda no gráfico da Bolsa, um mundo assustado pela implacabilidade do terrorismo. Mas também, e talvez sobretudo, revoltado. Senão, como viver? “O homem revoltado” que Camus idealizou é progressivamente manifestado em reação a tudo isto e mesmo à tendência das medidas de austeridade impostas por certas políticas. 

Nesse sentido, Nolan oferece-nos o filme da “revolta” por excelência: daí que seja tão adequado o termo Rises do título original (à partida aparentemente desinspirado), e que o português perde. A ideia de renascer das cinzas parece limitado – existe uma ascensão que é tornada ideia invisível mas presente em todo o filme. Desde logo, aliás, pela banda musical de Hans Zimmer, que se ajusta a gritos de guerra ou cânticos de encorajamento da gente comum (que ganham significado dramático numa das cenas tardias do filme). Música que acompanha uma montagem, frenética e emocionada, que já nos é habitual na carreira de Nolan e que aposta na condensação das suas cenas acreditando no poder de dedução do público. E se o filme nos parece incidir sobre uma certa postura de revolução também, por causa disto, se torna “o” filme popular. 

O discurso do filme – que passa por retirar aos ricos as suas posses, por destituir o poder do indivíduo e entregá-lo ao povo – tem contornos ideologicamente próximos de uma ideia do Comunismo e que não pertencem ao herói do filme (Batman). Mas ao vilão (Bane). Eis a reviravolta conservadora, se quisermos reacionária, de Christopher Nolan, que se revela cada vez mais seduzido pelo poder. Um discurso que, é certo, é abraçado por quem o quiser. Não nos é imposta uma ideologia, mas dois caminhos, a dado momento de modo gelidamente imparcial. 

Se, à partida, Bane nos pareceria um estimulante anti-herói e novo Messias, logo percebemos que Nolan o maquiaveliza para não nos restarem dúvidas de que é com Batman que devemos ficar. Tal como fez com o lunático, mas por vezes incrivelmente lúcido, Joker, o de Ledger. É aqui que reside a confusão: o que nos quer dizer Nolan? E onde a sua voz? Sentimos que há na convenção do blockbuster uma fuga para onde Nolan nos quer levar – mas que nunca consegue, plenamente, atingir esse seu objetivo. 

É certo que há momentos que nos ficarão cravados: o ataque à Bolsa por Bane é extraordinário no esplendor do quadro do Horror; a escalada metafórica por Christian Bale pelo “poço” acima é de tal forma penetrante como se sentíssemos que somos nós que reclamamos por esperança. Momentos que fogem, contudo, a uma linha dramática eficaz mas que desilude pelo seu exercício de infeliz auto-citação. Há ganchos emprestados do anterior O Cavaleiro das Trevas: a bomba e o dispositivo da sua detonação lembram a inteligente e perturbante cena dos navios do segundo filme; o falso amor pelo povo de Bane lembra a loucura de Joker. Acreditamos por isto que O Cavaleiro das Trevas ganha muito mais ao lado desta sua conclusão. Como se não fosse suficiente, há reviravoltas banais (as duas finais) ao nível da mais básica das soluções de Os Vingadores

À luz disto, não deixamos de sentir que estamos perante uma mera variação bem executada da mesma fórmula (os elementos estão lá: do domínio de um jogo cerebral entre homens à representação noir das mulheres) e que Nolan poderia fazer muitas mais, como um sonho dentro de um sonho dentro de um sonho. Para nossa felicidade, estamos perante um último capítulo, repleto de alegres resoluções, que sente, ele mesmo, a necessidade de dizer que o restava. 

E o que restava? Que não vale a pena esperar por Jesus-Batman-Cristo e que o mundo, esse sítio “simples” e “miserável” (como nos diz Nolan em O Terceiro Passo), está entregue aos seus habitantes. E que a esperança é apenas um motor para sair – ascender – da condição de espectador dessa miséria.

segunda-feira, julho 16, 2012

Curtas Vila do Conde 2012 - diário da competição nacional

Segunda-feira, 9 de julho de 2012 - Competição Nacional 1

Que seria do Curtas Vila do Conde sem o cinema português? Eis uma questão para a qual dificilmente encontraremos uma resposta e que pode, no limite, ser formulada de modo contrário: o que seria do cinema português sem o Curtas Vila do Conde? 

Numa edição em que se comemoram os 20 anos do festival e que se reflete sobre o panorama atual do cinema português a questão que se coloca é tudo menos ingénua. Por uma razão muito simples: Vila do Conde tem-se imposto, cada vez mais, como uma plataforma prestigiante de projeção de novas vozes do cinema contemporâneo. E num tempo em que aumentam as reticências sobre o futuro da produção cinematográfica em Portugal, a existência do Curtas é mais pertinente que nunca. 

Na passada segunda-feira coube à animação Outro Homem Qualquer abrir a competição nacional. Esta primeira obra de Luís Soares (produzida por Rodrigo Areias, realizador de Estrada de Palha, no quadro da vimaranense Bando à Parte) propõe-se a seguir a rotina de um anónimo português que, depois do trabalho, mata o tempo no café a fumar. Um filme que, na verdade e infelizmente, não conseguiu ultrapassar a força da sua premissa, examinando o tédio e o absurdo do quotidiano partindo de imagens algo vulgares e desarticuladas. 

Um mal de montagem, portanto, com o qual, curiosamente, a curta-metragem que se seguiu também nos reservou. A primeira obra de Gil Ramos (Cossé, 16h) é um documentário observacional, quase sociológico, que nos coloca numa aldeia de Guiné-Bissau a assistir à rotina dos seus habitantes. É um filme que vive investimento na imagem (a fotografia de Daniel Rodrigues é bela e legitima as possibilidades do digital). Ao mesmo tempo, é a montagem destas imagens que, por ser ausente em ideias, acaba por diminuir Cossé, 16h em relação aos “colegas” da competição. 

A outra metade da primeira das cinco sessões da competição nacional distinguiu-se, por sua vez, pela voz potente dos seus autores. Vazante, primeira ficção realizada por Pedro Flores (que assinou o documentário Listening to the Silences, presente no Curtas Vila do Conde em 2009), é um bom exemplo de como o cinema pode “dizer” muito sem dizer (quase) nada e em pouco tempo (são 11 minutos de filme). É um drama, hipnotizante na quietude e rigor da sua imagem, que acompanha o sentimento de perda (e de recusa do luto) de uma jovem rapariga. 

Já em A Tempestade Teresa Garcia trouxe-nos uma história de amor e libertação que, apesar das fraquezas com que se debate (as interpretações são frágeis e os diálogos reclamam revisão), vive de uma calma e força notáveis. Vêm-nos à memória certas referências (sendo, na pintura, o romantismo e, no cinema, Ozu, Tarkovsky ou Malick as mais evidentes) e fica-nos sobretudo a impressionante beleza da fotografia (a película) de Pascal Poucet

É por isto que é particularmente entusiasmante conhecer e seguir os títulos nacionais que competem no festival: nunca foram tantos (são 18 “curtas” programadas, número que Vila do Conde justifica pela sua qualidade) e têm transmitido, na sua evidente pluralidade de linguagens, uma vontade sincera de… fazer mais. - publicado a 10 de julho de 2012 no Diário de Notícias.


Terça-feira, 10 de julho de 2012 - Competição Nacional 2


Não deixa de ser curioso que, no quadro de um panorama político e cultural disfuncional e com incertezas sobre o futuro, o festival Curtas Vila do Conde continue a dar voz a espaços que persistem em divulgar as mais recentes produções cinematográficas nacionais. 

Nesses espaços está certamente a produtora lisboeta O Som e a Fúria que, este ano, estreia em Vila do Conde nada menos que... seis curtas-metragens. Entre elas encontramos O Dom das Lágrimas, de João Nicolau (exibida no Panorama Nacional na segunda-feira), que foi anunciado como um dos títulos programados para o Festival Internacional de Cinema de Locarno (Suíça), ao lado de outros portugueses que estão também representados em Vila do Conde (a saber: Gabriel Abrantes, João Nicolau, João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata).

Para além do filme de João Nicolau, O Som e a Fúria teve a oportunidade de apresentar na terça-feira duas curtas-metragens em competição nacional: Solo, primeira obra de Mariana Gaivão, e As Ondas, de Miguel Fonseca.

A primeira ficará recordada como um dos momentos altos do festival de Vila do Conde. É um filme que parte de uma história de sobrevivência e situação muito simples (uma bombeira é chamada para um incêndio que devasta parte de uma serra e cai para dentro do “solo”, de onde não consegue sair e espera algum tipo de salvação). E é justamente a simplicidade da premissa que dá lugar a um trabalho de grande minúcia sobre as imagens e o som do espaço que a rodeia. Um trabalho que parece mesmo ser herdeiro da (re)valorização da relação com a Natureza por autores como Andrei Tarkovsky

Mariana Gaivão fala mesmo em “imparcialidade” entre o protagonismo da figura humana e da própria Natureza. E é com o olhar sobre a serra que percebemos a mais elementar e interessante oposição de Solo: o filme debruça-se sobre a sensação claustrofóbica de estarmos enterrados não apenas com imagens de grande proximidade (mecanismo utilizado, aliás, por filmes do género como Enterrado, de Rodrigo Cortés) mas, sobretudo, com imagens que nos demonstram a enorme magnitude da Natureza.

Por seu lado, As Ondas, seguramente um dos filmes mais aguardados do Curtas Vila do Conde, desiludiu. Ficção poética de grande beleza visual possibilitada pela fotografia de Mário Castanheira (as primeiras imagens do mar são de uma força assombrosa, de tal modo que nos vemos dentro de um sonho), Miguel Fonseca perde a força quando avança em direção ao nada, com personagens intrincadas e uma ação vazia em ideias.

Do conceito viveu, mas não sobreviveu, o filme de Filipa César que abriu a segunda sessão da competição nacional, Cacheu. Nesta curta-metragem com sabor a instalação de galeria seguimos, num único plano-sequência (correspondente a uma bobine de película) e dentro do qual vemos a montagem de imagens projetadas, uma palestra que analisa os diversos contextos em que estiveram quatro estátuas coloniais.

Foi ainda exibido Libhaketi, simpática ficção de Ico Costa, mas que se limita a importar o modelo de persistência das crianças de Abbas Kiarostami: numa aldeia moçambicana, um jovem rapaz vê-lhe ser tirado um balde (libhaketi, em bitonga) de amendoins para vender, fazendo de tudo para o recuperar. - publicado a 11 de julho de 2012 no Diário de Notícias.

Quarta-feira, 11 de julho de 2012 - Competição Nacional 3

Quem sou eu? Eis, talvez, aquela que será a maior das questões fundamentais e para a qual a sessão da competição nacional (da passada quarta-feira no Curtas Vila do Conde) nos conduziu sem que o pudéssemos prever. Por uma razão muito simples: os três filmes exibidos refletem, de algum modo, aquilo que fomos, somos e (ainda) podemos ser. 

A verdade é que a identidade foi sempre um tema próximo na obra de João Pedro Rodrigues. Relembremos desde logo a sua primeira curta-metragem (Parabéns!, 1997), que nos mostrou um homem (João Rui Guerra da Mata) que acordava no dia de aniversário com dois lados de uma mesma vida: a namorada que lhe desejava os parabéns no atendedor de chamadas e o rapaz com quem passara a noite. Por sua vez, em 2009, abraçou com evidência o tema da identidade ao se debruçar sobre o conflito de um travesti lisboeta em mudar de sexo ou Morrer como um Homem perante Deus. 

Naquela que é a sua mais recente curta-metragem (que apresentou na Semana da Crítica em Cannes onde foi o presidente do júri de “curtas”), João Pedro Rodrigues demonstrou-nos, mais uma vez, a matéria de que somos com um novo olhar sobre... o amor. Em Manhã de Santo António, que segue um grupo de jovens em ressaca após a noite da véspera do feriado popular, estamos perante uma juventude “zombificada”: caminham com ritmo preciso, como se estivesse coreografados (João Pedro refere mesmo os movimentos e danças de Buster Keaton, Jacques Tati ou de Pina Baush como referências). Ou, no limite, agrilhoados. A quê? Há uma imagem tão sugestiva quanto perturbante: uma rapariga, sozinha, tão concentrada no seu reflexo no iPhone, caminha até um lago até mergulhar nele na totalidade. 

Eis a evidência cruel: como aqueles corpos anónimos, também nós, espectadores que partilhamos a inesquecível experiência de Manhã de Santo António, estamos em solidão e cada vez mais ligados por laços virtuais e invisíveis. Haverá então ainda lugar para o amor e para os afetos? João Pedro Rodrigues finaliza o seu filme (seguramente, até agora, o mais poderoso da competição) com uma cena absolutamente brilhante, dando-nos a resposta possível. Para rever sem contar as vezes. 

A Cidade e o Sol, de Leonor Noivo, e O Nylon da minha Aldeia, de Possidónio Cachapa, sobreviveram, de formas diferentes, de tensões interiores. 

No primeiro caso, segunda ficção da realizadora (conhecemos também o seu trabalho como anotadora de diversos filmes portugueses), acompanhamos o dia de uma mulher que lida com a sua vida sob o signo da perda irremediável de alguém querido. Apesar de não ser um dos seus trabalhos mais interessantes (ainda temos na memória o notável documentário Outras Cartas ou o Amor Inventado, que apresentou no IndieLisboa 2012), estamos diante de uma obra que, tal como o dia retratado, é melancólica e agressivamente luminosa, valorizando o poder da luz como guia do interior da protagonista. 

No segundo caso, o escritor, programador e realizador Possidónio Cachapa adapta para o grande ecrã a novela homónima presente no seu livro Segura-te ao meu Peito em Chamas. Nela acompanhamos o caricato encontro entre um jovem homossexual (Cristóvão Campos) de uma aldeia do sul conservadora dos anos 70 e uma mulher (Anabela Teixeira), que surge aqui como um espírito selvagem e salvador. Apesar de ser um filme que, com o drama e a bela direção fotográfica, se distancia do realismo proposto pelos anteriores autores, a aposta na aura de fantasia acaba por se revelar como uma das maiores fragilidades do filme. 

Foi, apesar de tudo, a mais vigorosa das sessões da competição nacional de Vila do Conde. Nela nos encontrámos e voltámos a acreditar: o cinema português continua em forma e força. - publicado a 12 de julho de 2012 no Diário de Notícias.


Quinta-feira, 12 de julho de 2012 - Competição Nacional 4

Com a competição nacional a chegar ao fim e o anúncio dos premiados para melhor filme a aproximar-se será que ainda há lugar para surpresas no Curtas Vila do Conde? Feliz ou infelizmente: sim. 

A estreia mundial do mais recente filme de Gabriel Abrantes, Zwazo (que foi recentemente programado para o Festival de Locarno, em competição internacional), está certamente entre essa surpresas, revelando-se como uma das experiências mais perturbantes do certame português. Por razões muito simples: Abrantes parece ter-se reinventado, transfigurado o seu universo e dilui-lo numa zona em que a sua pulsão política nunca esteve tão em evidência. 

Com Zwazo (produção portuguesa e norte-americana), os mais firmes defensores e detratores de Gabriel Abrantes poderão ter, pela primeira vez, uma reação adversa àquela que é habitual. Perdeu-se o absoluto sentimento de liberdade que reconhecemos em Palácios de Pena (2011) ou em Visionary Iraq (2009), mas, com este Zwazo, Gabriel Abrantes aproveita o cinema como arma de consciencialização social. Como? Ao reencenar, no Haiti (onde decorre a ação), Os Pássaros, comédia clássica de Aristófanes, e falando-nos do caricato sacrifício de uma mulher (transformada em cabra) para salvar o mundo. 

Não faltam, apesar da evidente alegoria política, os elementos que desconstroem a nossa realidade pop e que são transversais à obra de Gabriel Abrantes: há referências à saga de vampiros Crepúsculo e ao sex symbol Robert Pattinsson. É um filme por isso destinado a dividir – só que, neste caso, será uma divisão absolutamente inesperada. 

A penúltima sessão da competição nacional exibiu ainda três outros filmes: uma animação, um documentário e uma ficção. A primeira, Sanguetinta, de Filipe Abranches, é um objeto apenas caricato que filma a relação de intimidade de um casal para explorar a história das suas... tatuagens. 

A Comunidade, aguardado filme de Salomé Lamas (no IndieLisboa venceu o Prémio Novo Talento FNAC com o insólito Encounters with Landscape (3x)), acabou por deixar um amargo sentimento de frustração. O ponto de vista é, sem dúvida, sólido (e, por isso, promissor) mas não deixámos de sentir que neste filme a realizadora proporciona uma experiência que ataca injustamente os entrevistados (ao rirmo-nos das suas limitações). 

O último filme, Entrecampos, de João Rosas, é uma visão da região de Lisboa de quem conhece o espaço. Uma visão que, infelizmente, é suplantada por uma linha dramática pobre, com interpretações e diálogos que exigiam revisão. - publicado a 13 de julho de 2012 no Diário de Notícias.

Sábado, 14 de julho de 2012 - Competição Nacional 5 + Premiados

Foram previsíveis os vencedores anunciados no Festival de Vila do Conde, que este ano comemorou os seus 20 anos programando mais cinema português que nunca. Num tempo em que as convulsões políticas sobre a cultura se têm feito sentir, Vila do Conde demonstrou com a premiação uma tendência na produção cinematográfica nacional, apoiada num certo tipo de realismo social (herdeiro de João Canijo ou Pedro Costa).

A servir de exemplo disto mesmo está o vencedor do prémio para melhor curta-metragem portuguesa, Os Vivos Também Choram, do luso-suíço Basil da Cunha (que já tinha sido galardoado em 2010 em Vila do Conde com o seu À Côté).

O filme, que já tinha sido apresentado e vencido uma menção honrosa na Quinzena dos Realizadores em Cannes e que também foi um dos galardoados com o prémio RTP2 Onda Curta, segue a jornada decadente de um pobre português que sonha emigrar, com o auxílio das suas poupanças, para a Suécia.

É, na minha perspetiva, seguramente o pior filme do certame, que se aproveita das personagens e mise-en-scène (reveladoras de uma falsa "consciência social") para esconder uma mão cheia de lugares-comuns (há a música - o fado - a servir de ponte para um paraíso post mortem; o amigo bondoso; a iguana a revelar uma aparente fuga do convencional para o surreal...). Eis então que se revela uma nova tendência: um subterfúgio cinematográfico apoiado na limitação dos desfavorecidos e dos pobres que, só por si, vale reconhecimento.

A Comunidade, de Salomé Lamas (Prémio Novo Talento FNAC no IndieLisboa), que reflete a vivência dos campistas da Costa da Caparica, acabou também por se consagrar vencedora do prémio para melhor documentário.

A afastar-se do retrato dos portugueses feito pelos dois anteriores estiveram Leonor Noivo (que, com o seu A Cidade e o Sol, teve uma menção honrosa para melhor filme português) e João Pedro Rodrigues (com Manhã de Santo António venceu o prémio de melhor curta-metragem europeia).

Já o prémio da competição Take One!, destinado a filmes de escola portugueses, foi destinado a Do Mundo, de Manuel Guerra (da Escola Superior de Teatro e Cinema), com menção honrosa para Mupepy Munatim, de Pedro Peralta (Universidade Lusófona).

De lado ficaram filmes de autores como Sandro Aguilar (que apresentou na sexta-feira o perturbador e atmosférico Sinais de Serenidade por Coisas sem Sentido). Para além de Aguilar ou de Basil da Cunha na última sessão da competição nacional foi ainda exibido El Cartero, um filme assinado por Cláudia Alves que revela as contradições da censura do Partido Comunista de Cuba (o final tem sentido político  apurado e corajoso) traduzido numa forma descuidada e desinteressante.

O grande vencedor do prémio para melhor curta-metragem internacional foi o espanhol A Story for the Modlins, documentário de Sergio Oksman. Por sua vez, o interessante (e cinéfilo) Les Enfants de la Nuit, filme francês de Caroline Deruas conquistou os espectadores e levou consigo o Prémio do Público. - texto adaptado de um artigo publicado a 15 de julho de 2012 no Diário de Notícias.

domingo, julho 08, 2012

Curtas Vila do Conde '12 — o que seria o mundo sem o cinema português?


É sem dúvida um aniversário especial. Num ano em que assistimos a uma guerra fria entre os profissionais de cinema, audiovisual e o governo na luta por uma nova Lei do Cinema (que anteontem foi aprovada na Assembleia da República sem nenhum voto contra), eis que nos surge mais uma edição do festival de cinema Curtas Vila do Conde que, mais forte do que nunca, hoje sopra 20 velas.

Esta é, justamente, uma edição que pretende celebrar a força e a qualidade do cinema português. Porquê? Nunca houve tantas curtas-metragens nacionais em competição (são 18 ao todo, distribuídas por cinco sessões durante a próxima semana) e programá-las parece ter sido também uma feliz dor de cabeça: “pela primeira vez, desde há vários anos, a comissão responsável pela seleção dos filmes que vão integrar a competição teve de enfrentar a difícil – mas muito apreciada – tarefa de escolher os melhores entre os melhores para apresentar ao público”, comunicou a organização.

São, na verdade, filmes que ressaltam pela sua variedade dramática e estética e que, de algum modo, refletem alguns dos nomes mais reconhecidos do cinema português (caso, por exemplo, de João Pedro Rodrigues, que estreia Manhã de Santo António em território nacional depois de o ter exibido na recente edição da Semana da Crítica em Cannes), mas também de novos realizadores que estão a marcar a atualidade cinematográfica (só para referir alguns: Basil da Cunha, Gabriel Abrantes e Salomé Lamas que, respetivamente, apresentarão Os Vivos Também Choram, Zwazo e A Comunidade).

Portugal estará também representado nas restantes secções: entre elas, o Curtinhas (dirigido aos espectadores mais novos, que inclui a “curta” Kali, o Pequeno Vampiro, de Regina Pessoa) ou o Panorama Nacional, que trará ao Norte do país alguns dos títulos que marcaram o festival IndieLisboa e que valerão a pena ser recordados (é o caso de, por exemplo, O Que Arde Cura, de João Rui Guerra da Mata).

Pela primeira vez, serão ainda exibidos quatro filmes produzidos no âmbito do projeto Campus / Estaleiro e realizados por João Canijo (Obrigação), Graça Castanheira (A Rua da Estrada), Luís Alves de Matos (Um Rio Chamado Ave) e Pedro Flores (Cinzas, Ensaio sobre o Fogo).

Manhã de Santo António, de João Pedro Rodrigues, é exibido no dia 11 de julho, às 21:00, na sala 1 do Teatro Municipal.
Com esta programação valerá a pena perguntar: “o que seria o mundo sem o cinema português?” Esta é, precisamente, a questão que se levanta no debate a acontecer no próximo 14 de julho no Teatro Municipal de Vila do Conde, onde se reunirão alguns dos protagonistas da realização, produção e crítica de cinema portugueses.

É, também, uma questão que reflete as duas décadas que compõem a história do festival, que se propôs em abrir um espaço dedicado exclusivamente às curtas-metragens. 20 anos passados o que se possibilitou com o Curtas? É o que tentam saber o livro a exposição no Teatro Municipal (que exibe um vasto arquivo fotográfico da história da organização), o livro Puro Cinema – Curtas Vila do Conde 20 anos depois, que agrega textos de reflexão e entrevistas a autores que passaram pelo festival, e o documentário de José Vieira Mendes Gerações Curtas!?, que foi ontem exibido às 18:30 (Sala 2).

Mas não é só de cinema português que a 20.º edição do Curtas Vila do Conde vai viver. Na verdade, o Curtas comissionou um programa de quatro filmes realizados por quatro realizadores distintos e que têm com o festival: Thom Andersen, Helvécio Marins Jr. (que também apresentará uma retrospetiva da sua obra), Sergei Loznitsa e Yann Gonzalez.

O reconhecido cineasta francês Olivier Assayas (de quem pudemos ver, no ano passado e nas salas portuguesas, a versão cinematográfica de Carlos) merecerá uma retrospetiva do seu trabalho, acompanhando ainda uma masterclass que o realizador dará no próximo dia 8. De igual modo, o realizador experimental e artista visual norte-americano Robert Todd estará em Vila do Conde para apresentar as suas “curtas” e uma masterclass (dia 12).

É, no entanto, o cineasta Stanley Kubrick que merecerá grande parte da atenção pelos visitantes do festival. 2012 Odisseia Kubrick é o nome da exposição inaugurada na galeria Solar (a permanecer até 11 de novembro) e que nos apresenta obras que refletem o trabalho e espírito do génio norte-americano. Para além disto, serão projetados alguns filmes do realizador (como Laranja Mecânica, ontem às 17:30) e sobre a sua obra (como o documentário Room 237, de Rodney Ascher).

Este texto adapta o artigo publicado no Diário de Notícias a 7 de julho de 2012. Acompanharei o festival a partir de segunda-feira (9 de julho) na edição papel e e-paper do Diário de Notícias e no blogue do DN Sessões Contínuas.

sexta-feira, julho 06, 2012

Ver? Ver o quê?




Ver Moonrise Kingdom, o mais recente título de Wes Anderson que acaba de se estrear nas salas de cinema portuguesas e que abriu a passada edição do Festival de Cannes (onde também competiu), trouxe à memória, e a acompanhar um sentimento de amargo desencanto, as palavras do então presidente de júri Nanni Moretti, que notou que “alguns realizadores ficaram enamorados mais com o seu estilo do que com as suas personagens.” Eis uma justificação acertada: Moonrise Kingdom quer ser (mas não é) mais do que isso: “estilo”. 

Estamos perante uma exemplar concretização desse “estilo”, sem dúvida: Moonrise Kingdom dá-nos um festim visual com uma direção de arte bela e absolutamente pensada. A premeditação, contudo, gosta de se colocar em evidência: tudo no plano é exato, harmonioso (cores suaves e amareladas) e com pretensão de total simetria, como uma casa de bonecas (aliás, observe-se a sequência inicial na qual a movimentação no décor denuncia – quer denunciar – o fator “estúdio”). As comparações podem ser outras e parecem intermináveis: tiras de banda desenhada, documentários reconstituídos, etc., etc… 

Confrontamo-nos, pois, sempre com um olhar demasiado consciente de si mesmo e a tal ponto que não nos surpreendem as incontáveis panorâmicas descritivas e zooms (in e out). E, embora não nos espantem, a força de autoparódia que carregam consigo acaba por ser devastadora para… para quê? Para as suas personagens (pois é, já nos esquecíamos delas!). Personagens que em Moonrise Kingdom nunca chegam a sê-lo verdadeiramente: o protagonista é um “boneco” unidimensional (tal como o são o desastrado mas perseverante escuteiro-chefe, o limitado mas gentil capitão Sharp ou a cruel senhora dos Serviços Sociais). O seu objetivo, sem dúvida comovedor (fugir com uma rapariga por quem se apaixona), acaba no final por participar no rol de situações caricatas que preenchem o filme. 

É uma evidência cruel: Moonrise Kingdom, que prometia seguir as dores do crescimento da infância, acaba por confinar o (seu) mundo a tiras de caricaturas absurdas e sem alma. Aqui o amor não é um lugar estranho — simplesmente não existe.

Metropolis — para continuar a refletir sobre cinema


Eis divulgado o número 0 de uma nova revista portuguesa de cinema: Metropolis (em cima: a capa). Desenvolvida por um conjunto de críticos e jornalistas profissionais (entre eles contam-se os colaboradores do blogue sound + vision, do Diário de Notícias, da revista Premiere e do portal Cinema 2000), este é um espaço, gratuito e online, que pretende refletir e discutir a atualidade – e a memória – cinematográficas. Até o número 1, a sair oficialmente no próximo mês de setembro ao lado de um site, a Metropolis ainda passará por uma outra edição em agosto. Conto com os leitores para divulgarem e partilharem as vossas opiniões sobre o projeto recém-nascido. Nesta edição escrevo sobre as carreiras de Todd Haynes, Todd Solondz e Béla Tarr, críticas aos filmes O Cavalo de Turim (Tarr) e A Cidade dos Mortos (Sérgio Tréfaut) e ainda o primeiro texto da rubrica A Dois Tempos. Cannes 2012, Wes Anderson e O Fantástico Homem-Aranha são outros dos vários assuntos tratados nesta nova revista. Boas leituras!

domingo, julho 01, 2012

O cinema como arte do belo e do quadro




A estreia da mais recente longa-metragem do escritor, cineasta e artista plástico polaco Lech Majewski em Portugal não deixa de trazer consigo a memória de um outro filme que nos é mais próximo. Falamos dos Painés de São Vicente de Fora pintados por Nuno Gonçalves (entre 1470 e 1480) e revisitados, há três anos atrás, por uma Visão Poética de Manoel de Oliveira. Quando, então, apresentou no Festival de Veneza a sua aplaudida curta-metragem, o realizador português reforçou a ideia de que não estávamos perante um documentário mas, antes, uma interpretação inspirada “pela crise atual e pela crescente desumanização que se espalha pela Europa e pelo Mundo.”

É isto, em síntese, o que podemos também encontrar em O Moinho e a Cruz: um novo olhar sobre a contemporaneidade através do passado ou, concretamente, através de um... quadro. A pintura é nada menos que uma das obras-primas de Pieter Bruegel, “o Velho”, O Transporte da Cruz (de 1564). E é inspirado no quadro e na monografia do crítico de arte Michael Francis Gibson The Mill and the Cross (de 1996 e que empresta o título ao filme) que Majewski se aventurou a dar vida às personagens da pintura.

O resultado é curioso e traz consigo algo de sedutor e de hipnótico. Auxiliado pelas potencialidades do digital, o realizador polaco cria uma fotografia (co-assinada por si) e mise-en-scène profundamente artificiais e estilizadas, de modo a adequarem-se às qualidades do óleo de Bruegel. E é decompondo o quadro em vários pormenores que seguimos a jornada de algumas das figuras da pintura, entre eles, curiosamente, o próprio Bruegel (interpretado pelo lendário ator holandês Rutger Hauer). 

Autor de obras que davam especial incidência sobre os camponeses, os loucos e a religião, a figura do pintor em O Moinho e a Cruz parece refletir uma meditação total (e, por isso, também ambiciosa) sobre a relação do homem com a vida e a morte. Isto porque, ao acompanharmos a progressiva composição do quadro final (como se Bruegel fosse um mero ilustrador da realidade que se move diante de si), assistimos também à criação dos diversos significados da obra. 

Eis então apresentada uma das fragilidades do filme: há uma vontade de pedagogia na análise e desconstrução do quadro de Bruegel, por vezes de tal modo posta em evidência que acaba por se destituir parte do mistério de O Transporte da Cruz. Um dos mais fortes exemplos do fulgor didático do filme é a cena em que Bruegel explica alguns dos elementos do quadro: o moinho no alto do rochedo (que estaria a julgar a ação em terra), aquilo que seriam o círculo e a árvore da morte ou a suposta presença do autor na pintura. 

Apesar disto, e também por causa disto, a evolução da composição do quadro final coloca-nos no fascinante terreno da criação artística, transversal à pintura e ao próprio cinema. É, pois, a partir da montagem que Majewski parece querer construir, com vários pormenores da realidade, uma espécie de quadro maior. Tal como, convém relembrar, o cineasta Andrei Tarkovsky o fez com uma das suas obras maiores, Andrei Rublev (em 1966), sobre o pintor de ícones russo. 

Embora não tenha conseguido ir mais além do conceito, isto é, do seu gesto de recriação de um quadro (sentimos que estamos mais próximos da instalação do que devíamos), O Moinho e a Cruz devolve ao cinema a sua condição de arte do belo e, sobretudo, de arte do quadro.

Este texto foi publicado no Diário de Notícias a 30 de junho de 2012.