sábado, novembro 10, 2012

Lisbon & Estoril Film Festival - The Master



Certamente o filme mais aguardado do certame, The Master teve a sua estreia em salas portuguesas ontem, no Lisbon & Estoril Film Festival no cinema Monumental, com lotação esgotada.

Nas suas intenções primárias o filme seria um tratado acerca dos jogos de influência, da crença, da degradação humana e absurdo como caminho para o refúgio no espiritual, e a necessidade de resposta aos mistérios da vida. Temos então o mote para uma obra grandiosa, que aborda temas fundamentais e basilares das questões sociais e humanas, orquestrada pelas mãos de um dos autores de maior relevância das cinematografias contemporâneas, Paul Thomas Anderson. A expectativa era a enorme e isso refletiu-se na enorme fila de espera que começava quase na entrada do edifício Monumental e subia dois lances de escadas até à sala de cinema.

Começamos com Joaquin Phoenix, rosto das mazelas que a guerra deixa, um (quase, por esta altura) veterano cujo refúgio aos fantasmas da memória é o álcool, movido sem razão e apenas pela vontade animalesca da longevidade, sem rumo ou direção. Um set-up brilhante, pronúncio de um grande filme.

Um personagem que vive no absurdo da sua própria existência, que não dá – ou sequer procura – respostas para a inércia sem fim em que vive. PTA aproxima-se, na narrativa e no estilo, a Camus, com o seu personagem em O Estrangeiro, em que desenvolve a história de alguém que anda à deriva, cujas situações e confrontos pelas quais passa são enfrentados sem qualquer noção de racionalidade ou sequer preocupação relativamente aos mesmos. Há alguém que apenas caminha, sem olhar, sem perceber, sem pensar, … – apenas sente, somente por que lhe é instintivo sentir.

Eis que surge, pelo acaso, uma nova figura na realidade deste personagem de vida arruinada e sem sentido – um novo mestre, figura principal duma nova religião no momento do começo do seu auge, que vai mudar drasticamente o seu percurso.

O filme propõe-se a contar então como pela casualidade da vida o absurdo pode ser clarificado. Premissa gigante, ambiciosa e impossível pela dimensão e densidade daquilo que procura. Estabelece-se então um paradoxo – há um cineasta que se coloca na posição de fazer este tratamento de forma etérea (narrativa e formalmente), ao mesmo tempo em que não consegue escapar ao demonstrativo e explicativo.

Para falar sobre isto é preciso compreender a grandeza dos elementos de construção desta obra, começando (e neste caso, quase de forma óbvia) pelo trabalho do ator. Se há rosto do testemunho do que o actor’s studio e o método deixaram no cinema americano, esse rosto é Joaquin Phoenix. Thomas Anderson atribui-lhe a premissa, as vontades e as pretensões, e Phoenix desenvolveu um personagem explosivo a todos os níveis da sua caracterização, cuja profundidade se mostra na face marcada e envelhecida pelo próprio trabalho da sua construção, cujo corpo se vergou às intenções do homem que arquitetou, e os gestos são reflexo não de um ser ficcionado mas sim nascido, vivido e que se aproxima da rotura. Mas é injusto não referir também os outros dois casos – o de Amy Adams e Seymour Hoffman, cujo contributo na edificação e desenvolvimento dos seus personagens dão ao filme uma dimensão diferente, acrescentam novas perspetivas e possibilidades de leitura, e permitem um trabalho de escrita e realização que pode aproximar-se da ilusão de infinidade quanto às perspetivas de trabalho. Assim, Thomas Anderson depara-se com uma dimensão que ultrapassa o imprevisto, e o filme é demonstrativo do que é começar uma obra com determinados projetos e ser deparado, no seu desenvolvimento, com grandezas inesperadas.

Como conseguir tornar visível a profundidade humana que o filme tenta refletir? O realizador, sempre consciente da importância da história do cinema, e na tentativa de nela se inserir, edifica uma obra que fica aquém do verdadeiramente magnificente, em que não consegue fugir ao demonstrativo e óbvio, em certos momentos, no desespero de contornar e responder ao problema do impercetível e absurdo (matérias do ser e do ente). Fica então por concretizar uma obra de extrema relevância na relação do cinema com as suas verdadeiras intenções, assentes não na reprodução mas sim na reflexão sobre as questões humanas e da vida; não se trata dum filme sobre o Homem e a sua vida, sobre o Homem e a vontade no supremo, transcendente, e invisível, sobre o Homem e a vontade no contorno da mortalidade; chega-nos apenas uma história sobre a manipulação e o rumo para o estado do absurdo (sempre cíclico e incontornável).

Vai escrever-se e falar-se muito acerca deste filme; uma obra que, de certa forma, parece deslocada do seu tempo. As pessoas ainda não estão preparadas para este filme e o realizador não estava preparado para o fazer. Pronunciava-se a possibilidade em ser um filme gigante, e apesar de tropeçar em vários momentos nunca chega a cair; permanece apenas um bom filme.

2 comentários:

  1. No telejornal diziam que tiveram de fazer mais sessões, se não me engano. É bom ver que ainda há realizadores cujos filmes são verdadeiros acontecimentos artísticos. Tudo o que o Anderson fez tem sido genial, espero poder dizer o mesmo do The Master.

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  2. Ainda não o vi, mas vai continuar a merecer a minha confiança até ao momento, e respectiva conclusão, da sua visualização.

    E reitero as palavras d'O Narrador Subjectivo — no actual paradigma digital da Sétima Arte e por todas as perspectivas, a decisão de PTA em rodar The Master em película (e logo 70mm!) tornam-no não só no acontecimento artístico do ano e, quem sabe, da década.

    Cumps cinéfilos.

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