segunda-feira, novembro 12, 2012

Como sobreviver depois de Amour?

Quando, na edição deste mês dos Cahiers du Cinéma, vimos a capa ("Haneke: amor e misantropia") e o especial dedicado ao cineasta austríaco, pressentimos que França se dividia então em dois. Tanto mais quando Jean-Philippe Tessé (num artigo intitulado "Mal Mal Mal") começa por questionar diretamente Gérard Lefort, crítico de cinema do diário francês Libération, que por sua vez começou o seu texto de opinião sobre o novo filme de Michael Haneke da seguinte forma: "quem não chorar perante a visão de Amour poderá ser razoavelmente tratado como filho da puta."

Isto pode mostrar perfeitamente como o vencedor de uma segunda Palma de Ouro (em três anos) do Festival de Cannes inspira ódios e paixões, repulsa e entrega. Amour, filme que ontem pudemos ver no Lisbon & Estoril Film Festival e que estreia nas salas de cinema portuguesas no próximo dia 6 de dezembro, também nos traz isso - o amor como a vida, tão cruel como compulsivo. E o resulta é um filme devastadoramente belo. Um filme que, para o bem ou para o mal, nos faz questionar: mas afinal como é que pode ser possível sobreviver depois de Amour?

O ponto de partida é muito simples: um casal de ex-professores de música octogenários, interpretados por duas figuras de peso na história do cinema (Jean-Louis Trintignant, que surge no último filme de Kieslowsky, Três Cores: Vermelho, de 1994, e Emmanuelle Riva, protagonista de Hiroshima mon Amour, de Alain Resnais, de 1959), confronta-se com a degeneração terminal da saúde da mulher.

Haneke não faz concessões a um motivo dramático que já é, em si, perturbador. Em vez disso, agudiza aquela que é a nossa experiência como espectadores passivos e, através de um trabalho apurado de manipulação, leva ao limite as emoções e a moral que elas acompanham. E o que emerge? Um filme de uma infinita angústia (tal como era o seu primeiro filme, do qual Haneke nunca se descolará, O Sétimo Continente) - mas, também, de infinito amor pela humanidade.

Pela primeira vez, Haneke parece tocar dimensões que nunca antes tinha alcançado - através do seu olhar cru e "objetivo" (entre aspas porque estamos a falar do cineasta que assume que o cinema são "24 mentiras por segundo"), o realizador transporta-nos para o sublime - há sequências imbuídas por uma melancolia e solidão implacáveis (as cenas da casa vazia, as do corredor ou as que incluem Isabelle Huppert, a filha do casal, são inexprimíveis em palavras), por uma atmosfera onírica, como se o real e o sonho fossem o mesmo, e por um profundo amor à arte e à música (o pianista francês Alexandre Tharaud surge inclusivamente no filme, interpretando peças de Schubert e o papel de aluno da ex-professora).

Por fim, falta-nos talvez relembrar que não é a maior ou menor previsibilidade do desfecho que nos demove de ficar comovidos com um filme tão grande como a própria vida, que nos relembra que o cinema não precisa de se descolar do real e da intimidade para nos devolver uma profunda sensação de absoluto.

2 comentários:

  1. Óptimo texto, como é costume, Flávio. E como é costume, partilho da tua visão de "Amour".

    Também lá estive no Monumental e, que mais não seja, "Amour" matou-me a noite, que se previa de "copos e animação" a seguir ao cinema. Como sobreviver depois de "Amour", perguntas tu, muito bem? Pois, a noite não sobreviveu.

    O filme é Haneke puro. É um filme extremamente pesado e retrata com a maior crueza possível uma situação da nossa vida, especificamente a desintegração de um ser humano, até à morte. Embora ele faça isto de um ângulo que nunca tinha feito antes, acaba por ser esta a base de quase toda a filmografia de Haneke. Goste-se, ou odeie-se. Eu gosto.

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    1. Muito obrigado Nuno, é bom saber que estamos em sintonia.

      O Haneke é um autor controverso, não escapa às questões da moralidade da imagem cinematográfica - temos é de estar disponíveis não só para discuti-las mas também para aceitar a liberdade que Haneke nos traz. Uma liberdade, diria, próxima de uma verdade.

      Um abraço

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