domingo, novembro 11, 2012

Acabe-se a ilusão, onde reside a morte não há espaço para a esperança

Amor. Amor, velhice, degradação, memória, amor, luto e morte. É assim que se passa Amour, o último filme de Michael Haneke.

Uma vez mais, depois de The Master, encheu-se a sala maior do cinema Monumental, para o visionamento de uma das obras grandes que o LEFF traz em antestreia às salas portuguesas, apesar da estreia comercial estar marcada para 6 de Dezembro; o que é demonstrativo da expectativa que o autor acarreta.

O filme acompanha o último período da vida comum de um casal, envelhecido mas ativo, cujo sentimento de amor e entrega persistiu às adversidades do tempo e à erosão dos anos, quando confrontados com a degradação física – dela – e emocional – dele – e vice-versa, em momentos opostos.

Coloca-se o problema da longevidade humana, num primeiro plano, como mote para um tratamento acerca da longevidade emocional e afetiva. Até que ponto somos humanos? Até que ponto o Homem não retrocede, na fuga à morte e no refúgio à demonstração de degradação, à condição primária e única em ser animal?


Há dois personagens, felizes, vivendo na recordação infantil e na pureza das imagens da memória, mas também na verdade da sua condição e em sintonia com a mesma. Como que de um ataque de guerra imprevisto se tratasse, há um ponto de rotura física que se abate sobre a mulher, Anne (Emamanuelle Riva), deixando-a como uma veterana, com todos os fantasmas da sua nova condição, que a atira em queda para uma nova realidade que nunca conhecera de si mesma e do mundo. Fica Georges (Jean-Louis Trintignant), o velho pianista, adorador das artes, literatura e música, pessoa sensível e sensata, acima de tudo inteligente. Depara-se agora com a impossibilidade de felicidade, apesar das tentativas, encenações, sorrisos brancos e olhares vagos, na do retorno à normalidade.  Dois seres com uma vida partilhada, conseguida e feliz, que ambos abraçaram, sempre de mão dada, pelo caminho claro que construíram – eis que tudo rui, se desfazendo, sem possibilidade de esperança. Temos Anne, vegetal, num processo (primeiro cíclico depois contínuo) de degradação e apodrecimento, e Georges que tenta com todo o seu corpo e alma fazer justiça ao amor que sente pela mulher. Nesta impossibilidade começa a edificar-se a consciência de luto, e este processo inverte-se, antecipando-se ao momento da morte.


O processo natural da saturação, tentativa de afastamento ou transcendência e finalmente renúncia/abandono, toma o lugar do amor. O homem, pelas suas qualidades basilares e na tentativa animal da sobrevivência, consegue desmontar uma situação construída durante décadas na miragem da sua própria salvação.

Haneke é cruel. Filma tudo isto da forma mais fria e distante que consegue no processo de captura daquilo que mostra; não procura o esotérico das imagens como forma de transcender o físico e a rigidez dos espaços ou figuras; filma a vida como ela acontece, tornando o filme mais cinematográfico apenas pelo processo de construção narrativa e montagem. Parece muito mais claro por que razão é este um autor-génio e Paul Thomas Anderson não; é isto que os distingue. Haneke nunca perde o controlo da brutalidade que os atores conseguem das suas performances: sabe como as capturar, sabe como as tornar reais, e sabe transcender as suas interpretações sem que as force, consciente da grandeza a que pode segregar destes elementos. Mas também se perde (nunca se perdendo de verdade). A bestialidade da violência não pode ser assim tratada, de forma tão adquirida e corrupta – porque força a emoção, verga o espetador na simplicidade das imagens e sons, e arrasta-o para um lugar de perdição sentimental pela forma como constrói a gramática do filme sem que ele perceba o método de manipulação a que está a ser submetido.

É pertinente que os Cahiers chamem ao filme um exercício de misantropia – compreendo o que está aqui a ser posto em causa: estamos a falar dum caso sério em que o forjar de sentimentos assenta na reprodução de uma realidade mais verdadeira que a própria vida, pelo tédio à condição humana, pelo exagero da melancolia límpida e efetiva: Haneke é brilhante, e este é um filme que perdurará na memória do cinema.

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