quinta-feira, novembro 15, 2012

A Simplicidade e o Conforto - Bertolucci e Io e Te

Ontem, quinto dia do Lisbon & Estoril Film Festival, deu-se lugar ao visionamento de Io e Te, o trabalho mais recente do italiano Bernardo Bertolucci.

O consagrado realizador de O Último Tango em Paris e O Último Imperador, Bertolucci apresenta, nove anos após Os Sonhadores, um filme que não se propõe a mais nada que não tratar, sem presunção ou preconceito, a relação entre dois irmãos, reencontrados no tempo por mera casualidade.



É a história de Lorenzo (Jacopo Olmo Antinori) e Olivia (Tea Falco). Ele, adolescente de 14 anos, inadaptado (o filme começa com uma sessão de psicologia), escapa a uma viagem à neve com os restantes colegas de escola, refugiando-se durante esse período na cave do prédio onde mora na companhia dum formigueiro, do seu computador e música. Ela, rapariga no começo da sua vida adulta, artista visual e viciada em heroína, insurge-se no espaço improvisado do meio-irmão na procura dum caixote com alguns dos seus pertences, que por lá deixaram ficar aquando da separação (entre o pai e a mãe) e consequente mudança.

Ao início Lorenzo mostra-se reticente com a presença de Olivia, mas como esta lhe confirma que nunca mais voltará àquele lugar o rapaz pode continuar com as suas rotinas e interesses. Eis que na noite seguinte Olivia surge novamente na cave, gritando porque precisa de um lugar para passar a noite, pedido ao qual o irmão tem de aceder na tentativa de se manter oculto. O problema é que a rapariga está em processo de desintoxicação, fator impeditivo da sua partida para “a quinta onde há cavalos”, lugar para onde se vai dirigir após limpar do organismo a presença da droga. Cria-se assim um mútuo acordo: durante aquela semana terão de partilhar o mesmo espaço, ela porque necessita dum sítio onde ficar enquanto expulsa a heroína do corpo, e ele porque não pode permitir que revelem o seu segredo com o anúncio de que permanecera naquele lugar. No decorrer do tempo cronológico do filme (uma semana) os dois vão descobrindo a personalidade e interesses de cada um, criando uma ligação que seriam impossível caso o imprevisto não os tivesse juntado naquela cave.

A forma como Bertolucci trata o processo de aproximação dos personagens é infantil e dotada de ingenuidade; sem pretensão à criação de um tratado acerca das relações familiares ou fraternais. Trata-se de um filme sem desenvolvimentos imprevistos ou resoluções extraordinárias, filmado de forma realista ainda que forçada, sem interesse na elaboração ou exploração de temas transcendentes ou de relevância universal.

No final da sessão ouvia-se o comentário “parece um primeiro filme” e “um realizador que fez o Último Tango em Paris não devia fazer isto”, mas a questão é, será que tem de ser impeditivo a um criador reaproximar-se da simplicidade das temáticas e ao nível do tratamento no processo de desenvolvimento da sua cinematografia? A resposta que encontro é que não se pode julgar Bertolucci por nos ter dado menos do que esperávamos dele, apenas perceber que no cinema todas as estratégias temáticas e todas as linguagens têm o seu espaço. É um filme que não sendo extraordinário é bem conseguido: propõe-se ao discorrer de temas concretos e fá-lo com sucesso. Na relação filme-público o segundo não pode ficar com a memória presa aos fantasmas do passado do que um realizador terá sido ou construído, observar sim cada objeto cinematográfico de forma honesta e sem preconceito.

O filme é construído de forma a ter o seu auge no momento de convergência entre os dois personagens, que dançam abraçados ao som de uma versão em italiano de Space Oddity de David Bowie, concretizando promessas de libertação – um de si mesmo e das suas inseguranças relativamente ao contato com o alheio, a outra do peso das drogas que continua a ancorar os seus movimentos e a impede de seguir de forma clara com a sua vida.

No final, quando ambos saem da clausura da cave, um retrocede ao momento anterior ao inesperado encontro, enquanto o outro se liberta, tal como nos é sugerido pelo último fragmento da imagem, com um sorriso e olhar apontados ao espetador, que observou e acompanhou de forma íntima o seu processo de amadurecimento e desembaraço. A versão original de Space Oddity ouve-se então nos instantes finais, sugerindo que este episódio foi absolutamente fundamental na vida dos personagens, e que a realidade então criada permanecerá na memória de ambos. 

Sem comentários:

Enviar um comentário

Assine, sempre que possível, o seu comentário.