domingo, setembro 23, 2012

A grandeza do grande plano


Experiência tão comovente quanto radical, o documentário ontem exibido no Queer Lisboa 16 filma a preparação que resultou no enorme panorama do trabalho de Marina Abramović no MoMA em 2010 (focando de forma protagonista a performance interativa que desenvolveu ao longo de vários dias, sentando-se à frente de visitantes durante horas). E é, também, ele próprio um retrato retrospetivo daquela que se propôs, continuadamente, a provocar o sentido dos nossos limites. Incluindo, naturalmente, os da própria arte. Em  Marina Abramović: The Artist is Present, primeira "longa" Matthew Akers que foi sem dúvida um dos pontos altos do segundo dia do festival, vemo-la como uma mulher que procura a redentora compreensão. 

Confesso-me absolutamente assombrado com a experiência de me ver diante de (um espelho de) Marina Abramović e de, através dela, ver o espelho de toda uma humanidade. Eis o grande plano utilizado em toda a sua “grandeza”: ao nos dispormos a ver, com a maior aproximação possível, o tempo que decorre da paralisação do indivíduo não podemos deixar de nos sentir comovidos – porque a humanidade não está na ação que nos distrai, mas no rosto que ignoramos, o reflexo da nossa identidade. O grande plano é, por isso, o plano humanista por excelência (Kiarostami soube-o bem e, em 2008 e com essa crença fundamental, fez um dos mais belos filmes dos últimos tempos: Shirin).

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