sexta-feira, julho 06, 2012

Ver? Ver o quê?




Ver Moonrise Kingdom, o mais recente título de Wes Anderson que acaba de se estrear nas salas de cinema portuguesas e que abriu a passada edição do Festival de Cannes (onde também competiu), trouxe à memória, e a acompanhar um sentimento de amargo desencanto, as palavras do então presidente de júri Nanni Moretti, que notou que “alguns realizadores ficaram enamorados mais com o seu estilo do que com as suas personagens.” Eis uma justificação acertada: Moonrise Kingdom quer ser (mas não é) mais do que isso: “estilo”. 

Estamos perante uma exemplar concretização desse “estilo”, sem dúvida: Moonrise Kingdom dá-nos um festim visual com uma direção de arte bela e absolutamente pensada. A premeditação, contudo, gosta de se colocar em evidência: tudo no plano é exato, harmonioso (cores suaves e amareladas) e com pretensão de total simetria, como uma casa de bonecas (aliás, observe-se a sequência inicial na qual a movimentação no décor denuncia – quer denunciar – o fator “estúdio”). As comparações podem ser outras e parecem intermináveis: tiras de banda desenhada, documentários reconstituídos, etc., etc… 

Confrontamo-nos, pois, sempre com um olhar demasiado consciente de si mesmo e a tal ponto que não nos surpreendem as incontáveis panorâmicas descritivas e zooms (in e out). E, embora não nos espantem, a força de autoparódia que carregam consigo acaba por ser devastadora para… para quê? Para as suas personagens (pois é, já nos esquecíamos delas!). Personagens que em Moonrise Kingdom nunca chegam a sê-lo verdadeiramente: o protagonista é um “boneco” unidimensional (tal como o são o desastrado mas perseverante escuteiro-chefe, o limitado mas gentil capitão Sharp ou a cruel senhora dos Serviços Sociais). O seu objetivo, sem dúvida comovedor (fugir com uma rapariga por quem se apaixona), acaba no final por participar no rol de situações caricatas que preenchem o filme. 

É uma evidência cruel: Moonrise Kingdom, que prometia seguir as dores do crescimento da infância, acaba por confinar o (seu) mundo a tiras de caricaturas absurdas e sem alma. Aqui o amor não é um lugar estranho — simplesmente não existe.

6 comentários:

  1. Acho a crítica demasiado implacável. "Moonrise Kingdom" merecia mais.
    É verdade que está demasiado pensado, demasiado mecânico e um pouco forçado, especialmente a nível de planos, enquadramentos, zooms, cores e cenários, mas não deixa de ser uma lufada de ar fresco no mundo da cinematografia.
    Desplat está fenomenal. Norton também, mas Bob Balaban é delicioso.
    No fundo, "Moonrise Kingdom" é tão delicioso quanto pretende ser.

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    1. Olá.

      Desculpa mas quando escreves que Moonrise Kingdom é "uma lufada de ar fresco no mundo da cinematografia" referes-te às suas qualidades fotográficas ou ao facto de ser, aparentemente, um marco no cinema? Seja uma ou outra só consigo discordar. Não é o artifício que me incomoda, Liz, é o facto de valer por si só e de se sobrepor a qualquer operação de uma ideia (Anderson parece lidar apenas com estereótipos) ou construção de personagem.

      O Norton, tal como Balaban, são robôs (é apenas isso que o realizador exige deles) e, portanto, não há nada de "delicioso" nisso, apenas de lamentável, pois são os dois bons atores.

      Se há coisa que sobressai como um "ar fresco" essa é a música - nisso estamos de acordo. O Desplat fez um trabalho absolutamente formidável. E vale a pena permanecer nos créditos finais.

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    2. Estava a referir-me à fotografia, mas consigo entender o teu ponto de vista.

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  2. Senti precisamente a mesma coisa, Flávio. O filme funciona como um brinquedo - tudo é muito bonito e pensado, e o verniz da direcção de fotografia (menos naquele momento completamente magenta quando os dois estão no acampamento, que me deixou intrigado por não perceber o porquê dessa opção estética) e da art direction propicionam suficiente distracção para que nos esqueçamos momentaneamente de que estamos perante caricaturas, como dizes, sem qualquer profundidade. Todas elas são idiossincráticas, é verdade, como já é usual no universo de wes anderson, mas senti que falta verdade, aqui, falta vida. Não consegui acreditar em nenhuma delas, em suma, e isso faz com que o filme me soe a um grande step back do Darjeeling Limited, por exemplo, que conjugava as peculiaridades do universo (também ele bastante estilizado) que criava, bem como das personagens que o habitavam, com momentos de grande profundidade, a meu ver (como o exemplo do funeral da criança, a que os irmãos assistiam, em que todos se vestiam de branco, a fazer paralelismo com o funeral do pai deles). Quanto a este Moonrise... consigo apreciá-lo enquanto exercício de estilo (as panorâmicas da sequência inicial são encantadoras e óptimo exemplo disso), mas não mais. Anderson pareceu mais preocupado aqui em arranjar forma de tornar as personagens engraçadas - e o seu encanto parece residir todo naquilo que as torna peculiares, mais uma vez, subvertendo-se a ideia do "cool" convencional ao dar protagonismo, como já é costume em Anderson, aos desajustados socialmente, glorificando aquelas características que precisamente os tornam párias nos respectivos grupos a que deveriam pertencer (ele, nos escuteiros, ela, na família). Excepto que nem isto é desenvolvido de forma a ser convincente. Esperava mais, como tu. Tudo me soa a falso, no que toca às personagens e às suas motivações - por exemplo, aquele momento em que os restantes escuteiros decidem dar uma outra oportunidade ao protagonista, porque também ele sofreu porque é órfão, bla bla bla... houve coisa que mais cheirasse a mecanismo de argumento do que esta?Faltou que Anderson se perguntasse o que é que são estas coisas com que se propõe lidar para os seus protagonistas - o que é o amor, o que é sentir-se excluído, o que é o mundo dos adultos (com as suas infidelidades e restantes problemáticas que o filme toca) aos olhos das crianças, etc, etc. Em vez disso, temos fantoches que aspiram meramente a ser engraçados e a divertir-nos. Tal como um brinquedo, no fundo. O resultado é extremamente oco, embora entretenha pontualmente. O que é uma pena.

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    1. Sim, estamos de acordo em tudo. Obrigado por teres deixado um comentário, abraço.

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  3. Esta crítica mereceu destaque na rubrica «A "Polémica" do Mês» do Keyzer Soze’s Place, disponível aqui: http://sozekeyser.blogspot.pt/2012/07/a-polemica-do-mes-14.html

    Cumps cinéfilos!

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