segunda-feira, julho 16, 2012

Curtas Vila do Conde 2012 - diário da competição nacional

Segunda-feira, 9 de julho de 2012 - Competição Nacional 1

Que seria do Curtas Vila do Conde sem o cinema português? Eis uma questão para a qual dificilmente encontraremos uma resposta e que pode, no limite, ser formulada de modo contrário: o que seria do cinema português sem o Curtas Vila do Conde? 

Numa edição em que se comemoram os 20 anos do festival e que se reflete sobre o panorama atual do cinema português a questão que se coloca é tudo menos ingénua. Por uma razão muito simples: Vila do Conde tem-se imposto, cada vez mais, como uma plataforma prestigiante de projeção de novas vozes do cinema contemporâneo. E num tempo em que aumentam as reticências sobre o futuro da produção cinematográfica em Portugal, a existência do Curtas é mais pertinente que nunca. 

Na passada segunda-feira coube à animação Outro Homem Qualquer abrir a competição nacional. Esta primeira obra de Luís Soares (produzida por Rodrigo Areias, realizador de Estrada de Palha, no quadro da vimaranense Bando à Parte) propõe-se a seguir a rotina de um anónimo português que, depois do trabalho, mata o tempo no café a fumar. Um filme que, na verdade e infelizmente, não conseguiu ultrapassar a força da sua premissa, examinando o tédio e o absurdo do quotidiano partindo de imagens algo vulgares e desarticuladas. 

Um mal de montagem, portanto, com o qual, curiosamente, a curta-metragem que se seguiu também nos reservou. A primeira obra de Gil Ramos (Cossé, 16h) é um documentário observacional, quase sociológico, que nos coloca numa aldeia de Guiné-Bissau a assistir à rotina dos seus habitantes. É um filme que vive investimento na imagem (a fotografia de Daniel Rodrigues é bela e legitima as possibilidades do digital). Ao mesmo tempo, é a montagem destas imagens que, por ser ausente em ideias, acaba por diminuir Cossé, 16h em relação aos “colegas” da competição. 

A outra metade da primeira das cinco sessões da competição nacional distinguiu-se, por sua vez, pela voz potente dos seus autores. Vazante, primeira ficção realizada por Pedro Flores (que assinou o documentário Listening to the Silences, presente no Curtas Vila do Conde em 2009), é um bom exemplo de como o cinema pode “dizer” muito sem dizer (quase) nada e em pouco tempo (são 11 minutos de filme). É um drama, hipnotizante na quietude e rigor da sua imagem, que acompanha o sentimento de perda (e de recusa do luto) de uma jovem rapariga. 

Já em A Tempestade Teresa Garcia trouxe-nos uma história de amor e libertação que, apesar das fraquezas com que se debate (as interpretações são frágeis e os diálogos reclamam revisão), vive de uma calma e força notáveis. Vêm-nos à memória certas referências (sendo, na pintura, o romantismo e, no cinema, Ozu, Tarkovsky ou Malick as mais evidentes) e fica-nos sobretudo a impressionante beleza da fotografia (a película) de Pascal Poucet

É por isto que é particularmente entusiasmante conhecer e seguir os títulos nacionais que competem no festival: nunca foram tantos (são 18 “curtas” programadas, número que Vila do Conde justifica pela sua qualidade) e têm transmitido, na sua evidente pluralidade de linguagens, uma vontade sincera de… fazer mais. - publicado a 10 de julho de 2012 no Diário de Notícias.


Terça-feira, 10 de julho de 2012 - Competição Nacional 2


Não deixa de ser curioso que, no quadro de um panorama político e cultural disfuncional e com incertezas sobre o futuro, o festival Curtas Vila do Conde continue a dar voz a espaços que persistem em divulgar as mais recentes produções cinematográficas nacionais. 

Nesses espaços está certamente a produtora lisboeta O Som e a Fúria que, este ano, estreia em Vila do Conde nada menos que... seis curtas-metragens. Entre elas encontramos O Dom das Lágrimas, de João Nicolau (exibida no Panorama Nacional na segunda-feira), que foi anunciado como um dos títulos programados para o Festival Internacional de Cinema de Locarno (Suíça), ao lado de outros portugueses que estão também representados em Vila do Conde (a saber: Gabriel Abrantes, João Nicolau, João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata).

Para além do filme de João Nicolau, O Som e a Fúria teve a oportunidade de apresentar na terça-feira duas curtas-metragens em competição nacional: Solo, primeira obra de Mariana Gaivão, e As Ondas, de Miguel Fonseca.

A primeira ficará recordada como um dos momentos altos do festival de Vila do Conde. É um filme que parte de uma história de sobrevivência e situação muito simples (uma bombeira é chamada para um incêndio que devasta parte de uma serra e cai para dentro do “solo”, de onde não consegue sair e espera algum tipo de salvação). E é justamente a simplicidade da premissa que dá lugar a um trabalho de grande minúcia sobre as imagens e o som do espaço que a rodeia. Um trabalho que parece mesmo ser herdeiro da (re)valorização da relação com a Natureza por autores como Andrei Tarkovsky

Mariana Gaivão fala mesmo em “imparcialidade” entre o protagonismo da figura humana e da própria Natureza. E é com o olhar sobre a serra que percebemos a mais elementar e interessante oposição de Solo: o filme debruça-se sobre a sensação claustrofóbica de estarmos enterrados não apenas com imagens de grande proximidade (mecanismo utilizado, aliás, por filmes do género como Enterrado, de Rodrigo Cortés) mas, sobretudo, com imagens que nos demonstram a enorme magnitude da Natureza.

Por seu lado, As Ondas, seguramente um dos filmes mais aguardados do Curtas Vila do Conde, desiludiu. Ficção poética de grande beleza visual possibilitada pela fotografia de Mário Castanheira (as primeiras imagens do mar são de uma força assombrosa, de tal modo que nos vemos dentro de um sonho), Miguel Fonseca perde a força quando avança em direção ao nada, com personagens intrincadas e uma ação vazia em ideias.

Do conceito viveu, mas não sobreviveu, o filme de Filipa César que abriu a segunda sessão da competição nacional, Cacheu. Nesta curta-metragem com sabor a instalação de galeria seguimos, num único plano-sequência (correspondente a uma bobine de película) e dentro do qual vemos a montagem de imagens projetadas, uma palestra que analisa os diversos contextos em que estiveram quatro estátuas coloniais.

Foi ainda exibido Libhaketi, simpática ficção de Ico Costa, mas que se limita a importar o modelo de persistência das crianças de Abbas Kiarostami: numa aldeia moçambicana, um jovem rapaz vê-lhe ser tirado um balde (libhaketi, em bitonga) de amendoins para vender, fazendo de tudo para o recuperar. - publicado a 11 de julho de 2012 no Diário de Notícias.

Quarta-feira, 11 de julho de 2012 - Competição Nacional 3

Quem sou eu? Eis, talvez, aquela que será a maior das questões fundamentais e para a qual a sessão da competição nacional (da passada quarta-feira no Curtas Vila do Conde) nos conduziu sem que o pudéssemos prever. Por uma razão muito simples: os três filmes exibidos refletem, de algum modo, aquilo que fomos, somos e (ainda) podemos ser. 

A verdade é que a identidade foi sempre um tema próximo na obra de João Pedro Rodrigues. Relembremos desde logo a sua primeira curta-metragem (Parabéns!, 1997), que nos mostrou um homem (João Rui Guerra da Mata) que acordava no dia de aniversário com dois lados de uma mesma vida: a namorada que lhe desejava os parabéns no atendedor de chamadas e o rapaz com quem passara a noite. Por sua vez, em 2009, abraçou com evidência o tema da identidade ao se debruçar sobre o conflito de um travesti lisboeta em mudar de sexo ou Morrer como um Homem perante Deus. 

Naquela que é a sua mais recente curta-metragem (que apresentou na Semana da Crítica em Cannes onde foi o presidente do júri de “curtas”), João Pedro Rodrigues demonstrou-nos, mais uma vez, a matéria de que somos com um novo olhar sobre... o amor. Em Manhã de Santo António, que segue um grupo de jovens em ressaca após a noite da véspera do feriado popular, estamos perante uma juventude “zombificada”: caminham com ritmo preciso, como se estivesse coreografados (João Pedro refere mesmo os movimentos e danças de Buster Keaton, Jacques Tati ou de Pina Baush como referências). Ou, no limite, agrilhoados. A quê? Há uma imagem tão sugestiva quanto perturbante: uma rapariga, sozinha, tão concentrada no seu reflexo no iPhone, caminha até um lago até mergulhar nele na totalidade. 

Eis a evidência cruel: como aqueles corpos anónimos, também nós, espectadores que partilhamos a inesquecível experiência de Manhã de Santo António, estamos em solidão e cada vez mais ligados por laços virtuais e invisíveis. Haverá então ainda lugar para o amor e para os afetos? João Pedro Rodrigues finaliza o seu filme (seguramente, até agora, o mais poderoso da competição) com uma cena absolutamente brilhante, dando-nos a resposta possível. Para rever sem contar as vezes. 

A Cidade e o Sol, de Leonor Noivo, e O Nylon da minha Aldeia, de Possidónio Cachapa, sobreviveram, de formas diferentes, de tensões interiores. 

No primeiro caso, segunda ficção da realizadora (conhecemos também o seu trabalho como anotadora de diversos filmes portugueses), acompanhamos o dia de uma mulher que lida com a sua vida sob o signo da perda irremediável de alguém querido. Apesar de não ser um dos seus trabalhos mais interessantes (ainda temos na memória o notável documentário Outras Cartas ou o Amor Inventado, que apresentou no IndieLisboa 2012), estamos diante de uma obra que, tal como o dia retratado, é melancólica e agressivamente luminosa, valorizando o poder da luz como guia do interior da protagonista. 

No segundo caso, o escritor, programador e realizador Possidónio Cachapa adapta para o grande ecrã a novela homónima presente no seu livro Segura-te ao meu Peito em Chamas. Nela acompanhamos o caricato encontro entre um jovem homossexual (Cristóvão Campos) de uma aldeia do sul conservadora dos anos 70 e uma mulher (Anabela Teixeira), que surge aqui como um espírito selvagem e salvador. Apesar de ser um filme que, com o drama e a bela direção fotográfica, se distancia do realismo proposto pelos anteriores autores, a aposta na aura de fantasia acaba por se revelar como uma das maiores fragilidades do filme. 

Foi, apesar de tudo, a mais vigorosa das sessões da competição nacional de Vila do Conde. Nela nos encontrámos e voltámos a acreditar: o cinema português continua em forma e força. - publicado a 12 de julho de 2012 no Diário de Notícias.


Quinta-feira, 12 de julho de 2012 - Competição Nacional 4

Com a competição nacional a chegar ao fim e o anúncio dos premiados para melhor filme a aproximar-se será que ainda há lugar para surpresas no Curtas Vila do Conde? Feliz ou infelizmente: sim. 

A estreia mundial do mais recente filme de Gabriel Abrantes, Zwazo (que foi recentemente programado para o Festival de Locarno, em competição internacional), está certamente entre essa surpresas, revelando-se como uma das experiências mais perturbantes do certame português. Por razões muito simples: Abrantes parece ter-se reinventado, transfigurado o seu universo e dilui-lo numa zona em que a sua pulsão política nunca esteve tão em evidência. 

Com Zwazo (produção portuguesa e norte-americana), os mais firmes defensores e detratores de Gabriel Abrantes poderão ter, pela primeira vez, uma reação adversa àquela que é habitual. Perdeu-se o absoluto sentimento de liberdade que reconhecemos em Palácios de Pena (2011) ou em Visionary Iraq (2009), mas, com este Zwazo, Gabriel Abrantes aproveita o cinema como arma de consciencialização social. Como? Ao reencenar, no Haiti (onde decorre a ação), Os Pássaros, comédia clássica de Aristófanes, e falando-nos do caricato sacrifício de uma mulher (transformada em cabra) para salvar o mundo. 

Não faltam, apesar da evidente alegoria política, os elementos que desconstroem a nossa realidade pop e que são transversais à obra de Gabriel Abrantes: há referências à saga de vampiros Crepúsculo e ao sex symbol Robert Pattinsson. É um filme por isso destinado a dividir – só que, neste caso, será uma divisão absolutamente inesperada. 

A penúltima sessão da competição nacional exibiu ainda três outros filmes: uma animação, um documentário e uma ficção. A primeira, Sanguetinta, de Filipe Abranches, é um objeto apenas caricato que filma a relação de intimidade de um casal para explorar a história das suas... tatuagens. 

A Comunidade, aguardado filme de Salomé Lamas (no IndieLisboa venceu o Prémio Novo Talento FNAC com o insólito Encounters with Landscape (3x)), acabou por deixar um amargo sentimento de frustração. O ponto de vista é, sem dúvida, sólido (e, por isso, promissor) mas não deixámos de sentir que neste filme a realizadora proporciona uma experiência que ataca injustamente os entrevistados (ao rirmo-nos das suas limitações). 

O último filme, Entrecampos, de João Rosas, é uma visão da região de Lisboa de quem conhece o espaço. Uma visão que, infelizmente, é suplantada por uma linha dramática pobre, com interpretações e diálogos que exigiam revisão. - publicado a 13 de julho de 2012 no Diário de Notícias.

Sábado, 14 de julho de 2012 - Competição Nacional 5 + Premiados

Foram previsíveis os vencedores anunciados no Festival de Vila do Conde, que este ano comemorou os seus 20 anos programando mais cinema português que nunca. Num tempo em que as convulsões políticas sobre a cultura se têm feito sentir, Vila do Conde demonstrou com a premiação uma tendência na produção cinematográfica nacional, apoiada num certo tipo de realismo social (herdeiro de João Canijo ou Pedro Costa).

A servir de exemplo disto mesmo está o vencedor do prémio para melhor curta-metragem portuguesa, Os Vivos Também Choram, do luso-suíço Basil da Cunha (que já tinha sido galardoado em 2010 em Vila do Conde com o seu À Côté).

O filme, que já tinha sido apresentado e vencido uma menção honrosa na Quinzena dos Realizadores em Cannes e que também foi um dos galardoados com o prémio RTP2 Onda Curta, segue a jornada decadente de um pobre português que sonha emigrar, com o auxílio das suas poupanças, para a Suécia.

É, na minha perspetiva, seguramente o pior filme do certame, que se aproveita das personagens e mise-en-scène (reveladoras de uma falsa "consciência social") para esconder uma mão cheia de lugares-comuns (há a música - o fado - a servir de ponte para um paraíso post mortem; o amigo bondoso; a iguana a revelar uma aparente fuga do convencional para o surreal...). Eis então que se revela uma nova tendência: um subterfúgio cinematográfico apoiado na limitação dos desfavorecidos e dos pobres que, só por si, vale reconhecimento.

A Comunidade, de Salomé Lamas (Prémio Novo Talento FNAC no IndieLisboa), que reflete a vivência dos campistas da Costa da Caparica, acabou também por se consagrar vencedora do prémio para melhor documentário.

A afastar-se do retrato dos portugueses feito pelos dois anteriores estiveram Leonor Noivo (que, com o seu A Cidade e o Sol, teve uma menção honrosa para melhor filme português) e João Pedro Rodrigues (com Manhã de Santo António venceu o prémio de melhor curta-metragem europeia).

Já o prémio da competição Take One!, destinado a filmes de escola portugueses, foi destinado a Do Mundo, de Manuel Guerra (da Escola Superior de Teatro e Cinema), com menção honrosa para Mupepy Munatim, de Pedro Peralta (Universidade Lusófona).

De lado ficaram filmes de autores como Sandro Aguilar (que apresentou na sexta-feira o perturbador e atmosférico Sinais de Serenidade por Coisas sem Sentido). Para além de Aguilar ou de Basil da Cunha na última sessão da competição nacional foi ainda exibido El Cartero, um filme assinado por Cláudia Alves que revela as contradições da censura do Partido Comunista de Cuba (o final tem sentido político  apurado e corajoso) traduzido numa forma descuidada e desinteressante.

O grande vencedor do prémio para melhor curta-metragem internacional foi o espanhol A Story for the Modlins, documentário de Sergio Oksman. Por sua vez, o interessante (e cinéfilo) Les Enfants de la Nuit, filme francês de Caroline Deruas conquistou os espectadores e levou consigo o Prémio do Público. - texto adaptado de um artigo publicado a 15 de julho de 2012 no Diário de Notícias.

1 comentário:

  1. Gostei de ler. Espero conseguir ver a curta do João Pedro Rodrigues, não conheço bem a sua filmografia, mas depois de o ouvir falar há 2 semanas no FEST parece-me interessante. Cumprimentos

    http://onarradorsubjectivo.blogspot.pt/

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