domingo, julho 08, 2012

Curtas Vila do Conde '12 — o que seria o mundo sem o cinema português?


É sem dúvida um aniversário especial. Num ano em que assistimos a uma guerra fria entre os profissionais de cinema, audiovisual e o governo na luta por uma nova Lei do Cinema (que anteontem foi aprovada na Assembleia da República sem nenhum voto contra), eis que nos surge mais uma edição do festival de cinema Curtas Vila do Conde que, mais forte do que nunca, hoje sopra 20 velas.

Esta é, justamente, uma edição que pretende celebrar a força e a qualidade do cinema português. Porquê? Nunca houve tantas curtas-metragens nacionais em competição (são 18 ao todo, distribuídas por cinco sessões durante a próxima semana) e programá-las parece ter sido também uma feliz dor de cabeça: “pela primeira vez, desde há vários anos, a comissão responsável pela seleção dos filmes que vão integrar a competição teve de enfrentar a difícil – mas muito apreciada – tarefa de escolher os melhores entre os melhores para apresentar ao público”, comunicou a organização.

São, na verdade, filmes que ressaltam pela sua variedade dramática e estética e que, de algum modo, refletem alguns dos nomes mais reconhecidos do cinema português (caso, por exemplo, de João Pedro Rodrigues, que estreia Manhã de Santo António em território nacional depois de o ter exibido na recente edição da Semana da Crítica em Cannes), mas também de novos realizadores que estão a marcar a atualidade cinematográfica (só para referir alguns: Basil da Cunha, Gabriel Abrantes e Salomé Lamas que, respetivamente, apresentarão Os Vivos Também Choram, Zwazo e A Comunidade).

Portugal estará também representado nas restantes secções: entre elas, o Curtinhas (dirigido aos espectadores mais novos, que inclui a “curta” Kali, o Pequeno Vampiro, de Regina Pessoa) ou o Panorama Nacional, que trará ao Norte do país alguns dos títulos que marcaram o festival IndieLisboa e que valerão a pena ser recordados (é o caso de, por exemplo, O Que Arde Cura, de João Rui Guerra da Mata).

Pela primeira vez, serão ainda exibidos quatro filmes produzidos no âmbito do projeto Campus / Estaleiro e realizados por João Canijo (Obrigação), Graça Castanheira (A Rua da Estrada), Luís Alves de Matos (Um Rio Chamado Ave) e Pedro Flores (Cinzas, Ensaio sobre o Fogo).

Manhã de Santo António, de João Pedro Rodrigues, é exibido no dia 11 de julho, às 21:00, na sala 1 do Teatro Municipal.
Com esta programação valerá a pena perguntar: “o que seria o mundo sem o cinema português?” Esta é, precisamente, a questão que se levanta no debate a acontecer no próximo 14 de julho no Teatro Municipal de Vila do Conde, onde se reunirão alguns dos protagonistas da realização, produção e crítica de cinema portugueses.

É, também, uma questão que reflete as duas décadas que compõem a história do festival, que se propôs em abrir um espaço dedicado exclusivamente às curtas-metragens. 20 anos passados o que se possibilitou com o Curtas? É o que tentam saber o livro a exposição no Teatro Municipal (que exibe um vasto arquivo fotográfico da história da organização), o livro Puro Cinema – Curtas Vila do Conde 20 anos depois, que agrega textos de reflexão e entrevistas a autores que passaram pelo festival, e o documentário de José Vieira Mendes Gerações Curtas!?, que foi ontem exibido às 18:30 (Sala 2).

Mas não é só de cinema português que a 20.º edição do Curtas Vila do Conde vai viver. Na verdade, o Curtas comissionou um programa de quatro filmes realizados por quatro realizadores distintos e que têm com o festival: Thom Andersen, Helvécio Marins Jr. (que também apresentará uma retrospetiva da sua obra), Sergei Loznitsa e Yann Gonzalez.

O reconhecido cineasta francês Olivier Assayas (de quem pudemos ver, no ano passado e nas salas portuguesas, a versão cinematográfica de Carlos) merecerá uma retrospetiva do seu trabalho, acompanhando ainda uma masterclass que o realizador dará no próximo dia 8. De igual modo, o realizador experimental e artista visual norte-americano Robert Todd estará em Vila do Conde para apresentar as suas “curtas” e uma masterclass (dia 12).

É, no entanto, o cineasta Stanley Kubrick que merecerá grande parte da atenção pelos visitantes do festival. 2012 Odisseia Kubrick é o nome da exposição inaugurada na galeria Solar (a permanecer até 11 de novembro) e que nos apresenta obras que refletem o trabalho e espírito do génio norte-americano. Para além disto, serão projetados alguns filmes do realizador (como Laranja Mecânica, ontem às 17:30) e sobre a sua obra (como o documentário Room 237, de Rodney Ascher).

Este texto adapta o artigo publicado no Diário de Notícias a 7 de julho de 2012. Acompanharei o festival a partir de segunda-feira (9 de julho) na edição papel e e-paper do Diário de Notícias e no blogue do DN Sessões Contínuas.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Assine, sempre que possível, o seu comentário.