domingo, abril 01, 2012

Descobrir os afetos
— um breve balanço do 26th BFI London Lesbian & Gay Film Festival

Terminou hoje a 26.ª edição do London Lesbian & Gay Film Festival, festival de cinema queer que decorreu no BFI (British Film Institute) na capital inglesa. Iniciado em 1986 como um conjunto de projeção de vários filmes que abordassem sexualidades não-normativas (entendam-se: homo/bi/transsexualidade), foi renomeado em 1988 e sofreu um ajustamento na duração nos dois últimos anos (em 2011, de duas semanas o festival passou a ter uma e, em 2012, passou a ter 10 dias). Após a redução do orçamento no ano passado, o festival gay e lésbico de Londres viu um aumento feliz de 30% que permitiu que fossem programados ao todo 53 longas-metragens e 67 “curtas” (não há secções competitivas). Este ano tive a oportunidade de fazer uma breve (embora não total) cobertura do festival (que iniciou a 23 de março) e do qual farei um breve apanhado.

Digamos de imediato que a estreia nas longas-metragens do realizador belga Bavo Defurne (conhecido por ter assinado nove curtas nos anos 90) ficará recordada como a mais interessante do programa. O nome é curioso: North Sea Texas (título original: Noordzee, Texas), e esteve programado para ser hoje exibido como filme de encerramento do festival. Compreendemos porquê.

Ao recuperar, sem medos, a linha de construção narrativa do melodrama, Bavo Defurne (que também co-escreveu o filme com o produtor Yves Verbraeken) traz-nos um olhar sobre o primeiro amor (tema de sempre difícil abordagem, tal será a facilidade de cair nos clichés mais simplistas) entre dois rapazes, entre a puberdade e o cume da adolescência. Através de uma estrutura convencional e, a dado momento, algo previsível, Defurne ataca-nos com a complexidade do amor (tanto que o trata não só através da relação dos miúdos como também a partir da mãe do protagonista, que representa o falhanço romântico e familiar, e da irmã do seu amado, que por sua vez… é apaixonado pelo herói). 

Filme de múltiplos cruzamentos, portanto, que parece querer comprovar que a matéria de que somos unidos é feita de algo que não é material (o facto do protagonista viver com a mãe na mesma casa não os faz unidos), mas que é da ordem do sentimental e do contraditório. Apesar desta convicção forte, são raras as vezes que Bavo Defurne consegue exalar a energia própria das primeiras paixões — resultado de uma atração sexual mal resolvida (do herói por um cigano que o vem visitar a casa), da própria configuração do protagonista (quase sempre perdido dentro do seu próprio pensamento, quase nunca exteriorizando o que sente…) e, talvez sobretudo, das fracas interpretações (sobretudo a de Jelle Florizoone, o referido herói). Defurne demonstra também um gosto evidente em filmar interiores (tudo está no lugar certo, tudo exprime uma vontade de controlo absoluto), interiores que, por sua vez, não demonstram ponta de naturalismo (e nisso não vemos mal nenhum). A direção artística é da responsabilidade de Merijn Sep, cujo gosto pelos contrastes de cor foi registada pela destreza de Anton Mertens, diretor de fotografia já experiente.


Por sua vez, Notre Paradis (última fotografia do post), sexta longa-metragem do francês Gaël Morel, começa por surpreender com essa potência da paixão cega (entre dois prostitutos, encarnados por sedutores Stéphane Rideau, que pudemos ver em Presque Rien de Sébastien Lifshitz, e Dimitri Durdaine, que faz com este filme a sua estreia no cinema), energia essa que está ausente em North Sea Texas. Contudo, surpreende também, a partir da saída de Paris, pela sua assustadora vulgaridade que nos remete para soluções dramáticas e formais características de uma telenovela (e que vão desde introdução a personagens que nada tem de verosímeis – mas que querem ter – a assassinatos gratuitos e mal justificados…).

Ora, se vimos Notre Paradis a querer fugir às convenções mais gastas do cinema queer (a saber: descoberta da sexualidade, o coming out ou a discriminação social negativa como obstáculo de um relacionamento amoroso), o também francês American Translation segue o mesmo objetivo e, curiosamente, através de afinidades dramatúrgicas com o primeiro. Desde logo porque anda em volta do sempre estimulante tema da obsessão sexual — em ambos os casos ligado à necrofilia. Se Notre Paradis quis entrar no terreno lamacento da “morte moral” (um prostituto que, consciente de que por causa da sua idade já não pode exercer a sua atividade, assassina clientes como vingança…), American Translation (fotografia em cima) parece assumir com felicidade que a pulsão pela morte (de prostitutos gay) por parte do protagonista é da ordem do estritamente animal.

Tal como o protagonismo se divide em dois (extraordinários Lizzie Brocheré e Pierre Perrier), a realização é também da responsabilidade de dois olhares: Pascal Arnold (que escreveu o argumento) e Jean-Marc Barr (ator, entre diversos outros filmes, de Dogville e de Manderlay, de Lars von Trier). Admire-se a frontalidade desta relação atípica e heterossexual, marcada pelo sexo e por uma desregulada paixão, sim, mas é de lamentar que American Translation não consiga sair do seu núcleo narrativo vazio e repleto de cenas assimétricas entre si (em credibilidade e utilidade à progressão dramática).


Já a Palma Queer do Festival de Cannes Beauty (título original: Skoonheid, fotografia em cima), segunda longa-metragem do sul-africano Oliver Hermanus, será recordada como um caso notável do festival — uma extraordinária obra de repressão social e sexual (neste caso de um homem conservador, homofóbico e casado atraído… pelo filho de um amigo). Partindo de duas magníficas interpretações (Deon Lotz, o protagonista, e Charlie Keegan, o objeto de atração sexual), Hermanus filma a vida em sociedade com uma contenção e obsessão hitchcockiana — por outras palavras: situando-nos sempre na iminência da violência e da tragédia de cairmos para o abismo. Filme de forte formalismo (o enquadramento de Hermanus é sempre pensado a rigor e fixado para se restar mais uns segundos do que pensamos ser necessário), sim, e também de perturbante realismo.

Nas curtas-metragens não houve nada de assinalavelmente bom: se não contarmos com a brasileira Eu Não Quero Voltar Sozinho (que pode ser vista aqui e foi opinada aqui), Deep End, do canadiano Bretten Hannam, e Coming Out, do sueco Jerry Carlsson, desiludiram por surgirem como anúncios panfletários pró-aceitação; por sua vez, Prora, do suíço Stéphane Riethauser, cansa pela sua banalidade (nem a provocação nazi, que lá está de modo forçado, salva o filme); e, por fim, Yearbook, do norte-americano Carter Smith, pretende personificar a câmara de uma sessão fotográfica para o livro de finalistas de liceu e a testemunha dos segredos dos estudantes que fotografa (segredos que estão ligados ao descuido pelos métodos contracetivos) — “curta” que acaba por nos marcar pelo seu tom surrealista (na reta final), mas que não convence por causa da sua brevidade. Recordaremos Performance Anxiety (trailer), do norte-americano Reid Waterer, como a mais despretensiosa (divertida mas razoável) curta-metragem, já que explora o momento em que dois atores heterossexuais se deparam com o facto de que terão que... simular sexo gay.

O festival exibiu também quatro longas-metragens que tivemos já a oportunidade de ver em Portugal no ano passado: The Ballad of Genesis and Lady Jane (vencedor do IndieLisboa, crítica aqui), o documentário I Am (crítica) e as ficções The Mountain (crítica) e Ausente (crítica), as três projetadas na passada edição do Festival Queer Lisboa.

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