segunda-feira, outubro 24, 2011

O cinema português não existe

Se a tentativa de definição daquilo que é (ou, para alguns, deve ser) o cinema português já tinha gerado um debate violento e inconcludente entre profissionais do cinema, política e público, surge agora uma obra que aviva os fantasmas desta questão e tem tudo de pertinente e de provocador – “Um Filme Português”, um não-filme integrado no projecto de investigação “Principais Tendências no Cinema Português Contemporâneo” assinado por seis ex-estudantes da Escola Superior de Teatro e Cinema (Levi Martins, Vitor Alves, Miguel Cipriano, Jorge Jácome, Vanessa Sousa Dias e Carlos Pereira). 

Composto por seis segmentos (cada um de 17 minutos), são filmadas as extraordinárias (algumas mais do que outras) reflexões dos críticos de cinema João Lopes e Luís Miguel Oliveira, dos argumentistas Possidónio Cachapa e Regina Guimarães, do director e programador do Festival IndieLisboa Miguel Valverde, do produtor Luís Urbano, e dos realizadores Graça Castanheira, António-Pedro Vasconcelos, Manuel Mozos, Paulo Rocha, Jorge Silva Melo, Joaquim Sapinho, Saguenail, João Canijo, João Botelho, João Pedro Rodrigues, João Rui Guerra da Mata, Marco Martins, Manuela Viegas, Rita Azevedo Gomes, Cláudia Varejão, João Salaviza e Gabriel Abrantes. Em busca de respostas mas também de novas questões, “Um Filme Português” oferece as possibilidades de discutirmos o sistema de produção e financiamento de cinema em Portugal e, sobretudo, de olharmos um país sem identidade cultural colectiva (ou, melhor escrevendo pela positiva, com uma multiplicidade de identidades estéticas e, nalguns casos, também narrativas), confirmando a evidência de que o cinema, apesar dos seus paradigmas e variantes geográficos, não pertence a um país nem a um só indivíduo – pertence-nos, apenas. 

“Um Filme Português” (que é exibido, em sessão especial, na próxima sexta-feira dia 28 de Outubro, no Cinema Londres, numa sessão especial fora da competição oficial do doclisboa 2011) suscita também um apelo à “resistência” (cita-se João Salaviza) do cinema relativamente à televisão e o seu falso sistema de imagem – o que não significa, como Gabriel Abrantes demonstrou (dando o exemplo do seu “Visionary Iraq”, inspirado nos moldes da série norte-americana para adolescentes “The O.C.”), que não possam juntar forças, criando obras absolutamente singulares e anti-registo televisivo.


Um dos maiores exemplos disso mesmo e que, nos últimos tempos, têm surgido em território nacional não nos é estranho, tendo sido um pequeno grande sucesso conciliador dos espectadores (já é o filme português mais visto do ano) e da crítica da imprensa escrita (pelo menos 5 profissionais atribuíram a nota máxima). Chama-se “Sangue do meu Sangue” e é a oitava longa-metragem de João Canijo, que a co-escreveu com o seu elenco de forças armadas (o documentário “Trabalho de Actriz, Trabalho de Actor”, lançado recentemente em DVD pela Midas Filmes, expõe o processo original de como a história, as personagens e as suas relações foram discutidas e definidas pelos próprios actores em coordenação com o realizador). 

Este invulgar acontecimento multi-plataformas apresenta em público três versões distintas: a primeira, que tem a duração de 2 horas e 20 minutos e estreou em 15 salas de cinema (Lisboa, Porto, Gaia, Alfragide, Almada, Aveiro, Braga, Cascais, Coimbra, Funchal, Guia, Leiria, Vila Real e Viseu); a segunda, que acrescenta mais 50 minutos ao filme (3 horas e 10 minutos), podendo ser vista no Cinema Classic Alvalade (Lisboa); e a terceira, que é dirigida especificamente para a televisão e é apresentada em três episódios, cada um com 52 minutos. 

A curiosidade recai, mais do que na versão longa, na mini-série para televisão (ainda sem data de estreia definida), que nos propõe a reflectir como é que este “filme sobre o amor incondicional, o amor de uma mãe pela sua filha, o amor de uma tia pelo seu sobrinho e de como elas estão dispostas a sacrificar tudo para os salvar” (de acordo com as palavras de Canijo na sua nota de intenções) se poderá enquadrar ao lado daquilo que são os produtos de ficção mais anti-cinematográficos de todos (falamos, em particular, das telenovelas), cuja manipulação dos sentimentos, apesar de mais apelativo para muitos dos espectadores mais passivos, nada tem que ver com a transparência de “Sangue do meu Sangue” (e aqui aproveito para sublinhar a opinião de Manuel Mozos, que considera que os portugueses não gostam de se ver a si mesmos). 

A sedução de “Sangue do meu Sangue” provém, por isso, da criação de um microcosmos (o Bairro Padre Cruz e, se quisermos ser mais particulares, a família que lá vive) que nos obriga, apesar de toda a familiaridade cómica e trágica daqueles comportamentos, a criar uma distância sobre nós – como portugueses e como seres humanos. Evidentemente, essa distância sempre foi, desde o seu nascimento, um perigo que a televisão e os seus consumidores tentaram evitar confrontar. Mas o filme está repleto da omnipresença da televisão e, naquela que é porventura a melhor cena do filme, acompanhamos três personagens (Rita Blanco, Marcello Urgeghe e Beatriz Batarda) numa troca nervosa de tensões e revelações (expressas em palavras e olhares) e tudo observamos, num único plano-sequência, atrás de… uma moldura! Portanto: o que são o futebol, o telejornal e a telenovela ao lado dos dramas, das conquistas e da vida que partilhámos e nos une? É aí que reside a irresistível luminosidade de “Sangue do meu Sangue”: obriga-nos com que não nos esqueçamos da matéria de que somos feitos.

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