segunda-feira, setembro 26, 2011

Queer Lisboa 2011 (7-9): O pai, as crianças e o par de botas

Este texto inclui a adaptação de dois textos publicados no Diário de Notícias - Brasileiros vencem 15.º Queer Lisboa (25/Setembro/2011) e Queer Lisboa 15 acaba hoje (25/Setembro/2011).

“Foi uma decisão muito difícil”, começou o júri por admitir, em comunicado oficial, que ontem à noite anunciou “Rosa Morena” (crítica aqui) como vencedor do prémio para melhor filme de ficção do Queer Lisboa 15. Primeira longa-metragem de Carlos Oliveira, a história acompanha Thomas, um arquitecto bem-sucedido dinamarquês que, após lhe ter sido negada a adopção de uma criança no seu país por ser homossexual, viaja para o Brasil com o intuito de comprar a gravidez de Maria, uma jovem das favelas de São Paulo. “Rosa Morena” conta com interpretações de caras conhecidas da televisão brasileira, como Vivianne Pasmanter. 

“Acabámos por decidir reconhecer o filme que mais nos desafiou e que levantou o maior número de complexas questões morais”, declarou o júri composto pelos actores Albano Jerónimo e Beatriz Batarda e pelo editor da revista de cinema Little Joe, Sam Ashby.

Os jurados atribuíram ainda, para o chileno Roberto Faria, o prémio de menção para melhor actor (pela sua interpretação como pugilista em “Mi Último Round”, crítica), e, para a alemã Corinna Harfouch (que protagonizou “Auf der Suche”, crítica), o prémio para melhor actriz. 

Por sua vez, “I Am” (crítica) foi o grande vencedor da secção competitiva para melhor documentário, que recebeu três mil euros da RTP2. Segundo as palavras do júri, composto pelo realizador de “José e PilarMiguel Gonçalves Mendes, Claudia Mauti e Franck Finance-Madureira, este é um “filme forte e ao mesmo tocante” que segue a crónica de viagem da realizadora Sonali Gulati que, no seu regresso à Índia, filma uma carta póstuma de amor à sua mãe a quem nunca se assumiu como lésbica, acompanhando várias famílias com filhos homossexuais. 

A ficção brasileira “Eu Não Quero Voltar Sozinho” (primeira foto), realizada por Daniel Ribeiro, e que versa a simples, bela e comovente história de amor entre um miúdo cego e o seu colega de escola, foi a escolha (justa) do público para a melhor curta-metragem. 

O Queer Lisboa projectou, durante nove dias, mais de 80 filmes (entre os quais se destaca o belo “Stadt Land Fluss” - crítica - que, aliás, foi, segundo o quadro de notas dos jornalistas afixado na área de imprensa do Cinema São Jorge, o favorito de quem votou) e encerrou ontem o seu 15.º aniversário celebrando o tema da transgressão com “Taxi Zum Klo” (1980, foto em cima), longa-metragem alemã de Frank Ripploh que, para além de a ter realizado, foi produtor, argumentista e interpretou o papel de protagonista. O filme, que é uma referência da cinematografia queer, é um acompanhamento agridoce das aventuras sexuais de Ripploh, descurando o papel do amor na sua vida. Apesar de relevante, ficámos com a sensação de que “Taxi Zum Klo” não foi a escolha mais acertada para encerrar o festival (ou qualquer outro). 

O último dia do Queer Lisboa 15 foi também assinalado pelo signo da família e das múltiplas possibilidades e formas do amor. E foi “Miss Kicki” (fora de competição, foto em baixo), projectado na sala Manoel de Oliveira do Cinema São Jorge pelas 17.00 horas, quem fez as honras de abrir o programa. 

Assinado por Håkon Liu (que esteve presente na sessão), o filme retrata a ida a Taipei (em Taiwan) de Kicki, uma mulher sueca, na companhia de Viktor, o filho de 16 anos que mal viu crescer. Quando este se apercebe da verdadeira motivação da mãe (surpreender Mr. Chang, o seu namorado virtual e um homem de negócios que só conhece do que viu no ecrã do seu computador), a viagem atinge contornos inesperados.

Filme sobre o reaprender do amor (entre Kicki e Viktor), o seu desmoronamento (Kicki e Mr. Chang) e também a sua descoberta (Viktor e Didi, um jovem taiwanês), “Miss Kicki” vale sobretudo pela direcção artística absolutamente extraordinária (da responsabilidade de Chin Shih-wei e Liao Bing-yi) e pela notável interpretação de Pernilla August, a protagonista. De ressaltar, muito para além disso, a proximidade dos cenários com o próprio realizador, que em “Miss Kicki” se estreia no campo das longas-metragens (encontrando-se a preparar agora um segundo fime, “Kill me, Fuck me, Hug me”). Filho de uma norueguesa e de um chinês, Håkon Liu cresceu em Taiwan e estudou em Oslo, sendo actualmente professor de representação para cinema em Gotemburgo (Suécia). Numa edição anterior, o Queer Lisboa apresentou já “Lucky Blue” (2007), uma curta-metragem do mesmo realizador. 

Após um segundo programa de curtas-metragens inserido na secção “Queer Art” (às 17h00, na sala 3) e de “William S. Burroughs: A Man Within” (às 19.30 na sala 3), um documentário sobre o escritor de “O Festim Nú”, da autoria de Yoni Leyser, o festival gay e lésbico de Lisboa apresentou, às 18h00 e na sala 2, o terceiro episódio do “Queer Pop”, que dedicou as atenções ao cantor David Bowie e à sua androginia invulgar e característica, numa retrospectiva comentada pelos autores do blogue Sound + Vision de telediscos produzidos entre 1972 e 1999. 

Nos últimos três dias do Queer Lisboa importa destacar, de igual modo, a repetição de “Die Jungs vom Bahnhof Zoo”, documentário sobre prostitutos em Berlim que, apesar da sua importância social e política, não deixa de transparecer um fraco tratamento das imagens e dos factos; a projecção (antecedida por um teledisco que tudo tem de gratuito – “Revolving Door – New Fuck New York”) do extraordinário documentário “The Advocate for Fagdom”, que realiza uma retrospectiva comentada e bem montada da obra de Bruce LaBruce; e a exibição de “Contracorriente”, longa-metragem latino-americana que peca pelo seu sentimentalismo, interpretações e narrativa romântica e formatada, como se estivéssemos diante de uma absoluta telenovela. 

Relativamente às curtas-metragens, ressaltamos “Uniformadas”, filme espanhol de Irene Zoe Alameda sobre a solidão e a descoberta da sexualidade em tempos de infância com uma direcção artística e fotografia espantosas. Já “Vibratum Vitae” (foto em cima), escrito e realizado por Pedro Barão, deixou-nos com a impressão, não obstante de se encontrarem presentes algumas ideias cinematográficas fortes, de que o filme resultaria se não fosse o carácter hermético dos diálogos ou a tentativa de situar a dramaturgia em finais do século XIX (com uma fotografia e uma direcção artística que se anulavam entre si). 

O momento maior do Queer Lisboa 15 foi, no entanto, “The Life and Death of Celso Junior”, fundador do festival que fez uma apresentação inesquecível de si mesmo (foto em baixo) após a projecção do documentário grego de Panayotis Evangelidis, e pondo-nos a questionar sobre aquele que, afinal, é um dos grandes problemas do homem e que a maior parte dos filmes do festival tratou – a identidade.

3 comentários:

  1. Olá Flávio,

    Sou leitor do O Sétimo Continente e sou cinéfilo de carteirinha. Eu estou mandando esse email porque estou trabalhando numa empresa que desenvolveu um portal sobre cinema - o Cinema Total (www.cinematotal.com). Um dos atrativos do site é que você cria uma página dentro do site, podendo escrever textos de blog e críticas de filmes. Então, gostaria de sugerir que você também passasse a publicar seus textos no Cinema Total - assim você também atinge o público que acessa o Cinema Total e não conhece o O Sétimo Continente.

    Se você gostar do site, também peço que coloque um link para ele no O Sétimo Continente.

    Se você quiser, me mande um email quando criar sua conta que eu verifico se está tudo ok.

    Um abraço,

    Marcos
    www.cinematotal.com
    marcos@cinematotal.com

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  2. Olá Boa Noite,

    Fui o produtor e Director de Fotografia do "Vibratum Vitae", realizador por Pedro Barão. Gostei da crítica que fizeste e é bom de vez em quando ler uma crítica honesta. Assim sendo passo a dizer que respeito a tua opinião como crítico, e é como tal que te peço que expliques melhor aquilo que dizes: "com uma fotografia e uma direcção artística que se anulavam entre si". Penso que percebo o que queres dizer, mas gostava que aprofundasses um bocado.

    Um abraço

    João Nunes,
    Pipoca Filmes

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  3. Viva, João.

    Muito basicamente e tentando ser sintético a responder ao que muito gentilmente me pediste, penso que a art direction / direcção artística (que é sobretudo, para mim, o defeito do filme, ao misturar elementos eminentemente contemporâneos - como a caracterização dos dois rapazes e da música - com outros de época - como a presença das velas) está desadequada com a fotografia, cuja forma de ver e de filmar se liga a um cinema mais moderno, mais próximo de nós. Assim, o problema da anulação tem que ver com a tentativa de fazer um filme de época e que nunca é atingida.

    Um abraço.

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