quarta-feira, setembro 07, 2011

Queer cinema (7/30): Muito para além da figura pública

Dirigiu apenas um filme e encontra-se a preparar uma obra que, nas suas palavras, será apenas rodada daqui a dezoito meses. Ele é Tom Ford, nascido no Texas a 27 de Agosto de 1967, uma das mais respeitadas figuras da moda, responsável pela revitalização da Gucci, por uma fragrância com o seu próprio nome e por campanhas publicitárias (uma fotografada por Terry Richardson) que não raras vezes o exibem a ele (nu e vestido) ou à sua “musa” Jon Kortajarena (e que surge no seu filme como Carlos, um prostituto espanhol captado com a mesma lasciva e voluptuosa sensualidade que são filmados os corpos masculinos noutras cenas). 

O caso da celebridade de Um Homem Singular, adaptação do romance de Christopher Isherwood, é de tal forma invulgar (por se tratar de uma primeira obra com irrepreensíveis qualidades propriamente cinematográficas vinda de alguém que não reconhece a dita sétima arte como o seu terreno predilecto) que os seus atributos fazem com que mereça destaque nesta rubrica. 

Acompanhando aquele que fica desde logo determinado como o último dia de um professor universitário desiludido que não encontra mais razões para viver (Colin Firth, que com este papel venceu o prémio para melhor actor na 66.ª edição do Festival de Veneza, que galardoou A Single Man com o Queer Lion), Tom Ford filma, com exímia destreza e com um sentido fotográfico e estético que segue a evolução da tensão dramática nas personagens, uma despedida fundamental de um mundo em estado de pressão (será curioso relacionar os EUA da narrativa – situados em plena época de Guerra Fria e de terror nuclear – com os EUA do lançamento do filme – localizado num período de medo do terrorismo) e, sobretudo, uma verdadeira elegia a um amor separado pela morte e pela tragédia. 

Sem dúvida um melodrama adequado a uma espécie de fluxo de consciência vindo do protagonista (o próprio romance de Isherwood é assim escrito), devemos destacar o sentimento que A Single Man realça e que Tom Ford se encarregou de ajustar à sua própria intimidade. Figura pública, sim, mas Ford parece reconhecer o cinema como a forma completa de revelar aquilo quem é (curiosamente, introduz, como parte da história, elementos da sua vida, como os seus fox terriers). Assumidamente homossexual, o realizador passou pela difícil experiência de quase ter perdido o seu parceiro de longa data, Richard Buckley (foto em cima), ex-editor da Vogue, que em 1989 viu ser-lhe diagnosticado um tipo de cancro.

Não nos admira, por isso, que seja exacerbada uma noção idealista e hiperbólica de profunda beleza e perfeição ligada à consciência da proximidade da morte (reparemos na utilização da música, na expressividade do slow motion e na alteração cromática em determinadas sequências do filme, que lembram as do cinema mais recente de Wong Kar-Wai). 

Assim se torna fundamentado o facto de o filme ter sido dedicado a Buckley. E, face a isto, só nos resta reconhecer A Single Man como uma das mais poderosas cartas de amor que alguma pudemos ver em cinema.

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