sábado, setembro 03, 2011

Queer cinema (3/30): Um visionário entre contradições

Sendo, lado de Werner Herzog ou de Wim Wenders, um dos representantes daquela que seria reconhecida mais tarde como a geração de cineastas de um Novo Cinema Alemão, Rainer Werner Maria Fassbinder foi, também e provavelmente, uma das vozes mais originais e destemidas desta nova vaga. 

Apesar de ter morrido com apenas 37 anos de idade, Fassbinder, nascido no estado da Baviera a 31 de Maio de 1945, dirigiu 44 filmes e, para além do trabalho realizado, marcou desde a sua contemporaneidade com uma personalidade implacável. Enfant terrible dentro do meio burguês onde cresceu e mais tarde criticou duramente, o cineasta viveu familiarizado com rumores e controvérsias promovidos pela imprensa de então. Acusado não raras vezes de ser contraditório (ainda que homossexual assumido, foi casado e amante de várias mulheres), misógino, anti-semista, pessimista e (até) homofóbico (com Fox and His Friends, 1975, que referiu em Cannes como sendo o primeiro filme com homossexuais sem tornar a sua orientação sexual como uma problemática), Fassbinder mostrou uma sensibilidade homo-erótica em várias dos seus filmes e um apreço pelos rejeitados da sociedade e pelos dramas vividos no interior das suas personagens. 

Tendo conhecido Douglas Sirk na Suíça, o realizador alemão rompe com a influência da nouvelle vague (ainda que não se desligando dela) e internacionaliza-se, em 1972, com As Lágrimas Amargas de Petra von Kant. 

Influenciado nomes do cinema actual como Gus Van Sant, Pedro Almodóvar, Béla Tarr, François Ozon ou Todd Haynes, o filme pelo qual Fassbinder ficou reconhecido em definitivo para a posterioridade não foi visto por si na data de estreia. Falecido no dia 10 de Junho de 1982 (pouco depois da conclusão do último filme), morreu de um ataque cardíaco provocado pela mistura letal de comprimidos e cocaína. 

Querelle: Um Pacto com o Diabo deve ser entendido, por isso e antes de mais, como uma despedida do Novo Cinema Alemão. Adaptado do livro Querelle de Brest assinado pelo escritor e realizador francês Jean Genet, Querelle (que deve o título ao nome do belo protagonista, Brad Davis) centra-se num microcosmo surreal carregado pelo desejo sentido entre homens. 

Melodrama profundamente irrealista, caricaturado e estilizado (resultado da mistura da fotografia de Xaver Schwarzenberger e da direcção artística inspirada em pintores contemporâneos como Salvador Dalí), Querelle é ao mesmo tempo uma trágica história de amor, de desejo e de morte, cujas qualidades estéticas o edificaram rapidamente como um dos maiores exemplos do cinema queer alguma vez realizados.

Em Portugal, encontra-se disponível à venda aqui.

4 comentários:

  1. Não percebi a relação entre o facto de ser acusado de homofóbico e o parênteses que vem a seguir.

    Apesar disso, gosto de ver a presença (quase obrigatória, diga-se) de Fassbinder neste mês do Cinema queer.

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  2. Ricardo, várias publicações referem que o filme Fox and His Friends foi apontado como homofóbico, apesar de podermos não concordar (eu não vi, mas não acredito que o seja).

    Obrigado e folgo em saber que lês o blogue :-)

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  3. Se tiveres essas fontes, gostava de pôr as vistas em cima... Mas, obrigado pelo esclarecimento.

    Leio, pois. Gosto especialmente dos "meses dedicados", como aconteceu com o Malick. E, quanto a este, ainda espero Ozon, Almodóvar, Jarman, Waters, Akerman, Eytan Fox ou Cameron Mitchell. ;)

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  4. Ricardo, as fontes são da Internet:

    http://jclarkmedia.com/fassbinder/fassbinder23.html

    http://www.slantmagazine.com/film/review/fox-and-his-friends/700

    http://www.raco.cat/index.php/bells/article/viewFile/102867/149212 - esta é uma análise chamada "Homosociality, Sexism and Homophobia" realizada a 2 filmes de Fassbinder (incluindo Fox and his Friends)

    Fico feliz nesse caso. Espero contar contigo no futuro no blogue.

    E quanto a esses nomes não me vou pronunciar para já :-)

    Um abraço.

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