quinta-feira, setembro 01, 2011

Queer cinema (1/30): Um autor entre dois mundos

Que significa ver um filme de Gus Van Sant? Realizador “experimentador”, tanto autor extremista como reprimido pelos ditames do blockbuster, parece difícil localizar o terreno onde pertence o norte-americano, nascido em 1952 no Kentucky, mas com Portland (Oregon) sempre no pensamento. 

Se nos propuséssemos a desenhar a linha da filmografia de Van Sant entre o grande público (Finding Forrester) e o anti-público (Psycho) encontraríamos, passe-se a redundância, uma constante inconstância. Tendo feito música, fotografia, escrito um romance (Pink) e dirigido uma série de curtas-metragens (poucas foram tornadas públicas e as que nos são disponibilizadas nenhuma merece particular destaque – excepto, provavelmente, Le Marais, que integra o Paris Je T’Aime) e telediscos, conhecemos mais Gus Van Sant pelas longas-metragens e, sobretudo, por aquela que marcou o reconhecimento definitivo do seu talento: a obra-prima Elephant (que seguiu o controverso Gerry, belo objecto metacinematográfico dedicado a Béla Tarr) e que, em 2003, lhe valeu a Palma de Ouro e o Prémio de melhor realizador no Festival de Cinema de Cannes. 

Depois da “ressaca” de Last Days e a adaptação literária de Paranoid Park, Gus Van Sant regressou, uma década depois do aclamado O Bom Rebelde (um produto melodramático sem qualidades merecedoras de atenção), ao mercado mainstream, com Milk, longa-metragem onde Gus Van Sant estabeleceu uma ponte entre uma perspectiva de “autor” dirigida a um grande público. Nomeado para 8 Óscares, Milk, curiosamente, retoma os temas principais da filmografia do cineasta: a morte (aliás, a recente longa-metragem Restless, a estrear no próximo dia 10 de Novembro, toma-a como assunto principal), a solidão (como pude aqui reflectir), a juventude e os homossexuais (e outras espécies de comunidades que fujam à normalidade). 

Assumidamente gay, Gus Van Sant tratou a homossexualidade, com inalterável melancolia, em vários dos seus filmes, colocando-a como característica em diversas personagens (desde a evidência nos protagonistas de Mala Noche ou de Milk à sugestão nos assassinos em série de Elephant ou Last Days). 

A sua mais ilustre tentativa de a destacar com admirável pessoalidade foi, sem dúvida, A Caminho de Idaho (ou, no seu original, My Own Private Idaho). Lançado em 1991, este drama shakesperiano protagonizado pelos inesquecíveis River Phoenix (Mike) e Keanu Reeves (Scott), expõe, com ousada liberdade formal, o universo da prostituição masculina, a desagregação familiar e, sobretudo, o amor nutrido por alguém do mesmo sexo, mostrando uma das imagens mais recorrentes no cinema de Van Sant: a estrada (vide Mala Noche).

A sua energia estética e narrativa colocou-o rapidamente na frente do surgimento do movimento que, mais tarde, viria a ser conhecido como o New Queer Cinema

Há 6 anos, a colecção da Criterion lançou uma edição de dois DVDs de My Own Private Idaho. Em Portugal, encontra-se disponível uma edição especial no mesmo formato da Lusomundo / Warner.

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