segunda-feira, agosto 29, 2011

Os dois fantasmas do cinema português

Pouco depois de ter passado em Vila do Conde e em Locarno, 'Alvorada Vermelha' reforça a coesão do trabalho entre os dois realizadores. Este artigo foi publicado originalmente no dia 20 de Agosto de 2011, no Diário de Notícias.
Por coincidência (ou talvez não), a primeira imagem de Odete é um grande plano de duas personagens chamadas nada mais, nada menos que Pedro e Rui. Nesse filme, João Pedro Rodrigues esteve envolvido na realização e no argumento, enquanto João Rui Guerra da Mata assinou a direcção artística e o guarda-roupa. A cooperação entre ambos, que se pode equiparar à parceria dos realizadores António Reis e Margarida Cordeiro no pós-25 de Abril, já vem de antes de Odete e parece não ter sido acidental.

João Pedro Rodrigues, depois de ter frequentado a Escola Superior de Teatro e Cinema, no final dos anos 80 (onde realizou, em 1988, O Pastor e onde hoje João Rui Guerra da Mata é professor da cadeira de Art Direction) e após ter trabalhado como assistente de realização com diversos cineastas, decidiu lançar, em 1997, a sua primeira curta-metragem, Parabéns!. De certa maneira, esta obra, levada ao Festival de Cinema de Veneza, onde recebeu uma menção especial do júri, apresentaria as marcas principais do seu cinema: os temas do amor e do desejo, a homossexualidade e a colaboração com a produtora Rosa Filmes e, como não podia deixar de ser, com João Rui Guerra da Mata, que a protagonizou.

"Comecei a trabalhar em cinema porque o João Pedro me convidou", admite João Rui Guerra da Mata ao DN, que antes de Parabéns! tinha trabalhado em Corte de Cabelo (1995), de Joaquim Sapinho, fundador da Rosa Filmes (em que, curiosamente, Rodrigues foi assistente de casting e responsável pelo guarda-roupa). "Trabalhei em todos os seus filmes como art director e ajudei-o na escrita dos argumentos."

A visibilidade de ambos é lançada em definitivo em 2000 quando O Fantasma, primeira longa-metragem, fez carreira (com tanta aclamação como controvérsia) no circuito internacional. Escrito e realizado por João Pedro, o filme tem uma invisível omnipresença de João Rui: além de ser responsável pela decoração, pelo guarda-roupa, pela caracterização e por um papel secundário, O Fantasma é-lhe dedicado. Seleccionado para competição em Veneza e vencedor do prémio para Melhor Filme Estrangeiro no Festival de Belfort, João Pedro Rodrigues passou a estar nas bocas do mundo.

"Assistimos à chegada de um realizador fundamental", advertia na altura J. S. Chauvin na revista de referência Cahiers du Cinéma. Por sua vez, João Pedro tem a consciência da sua projecção: "Todos os meus filmes foram exibidos nos mais importantes festivais internacionais, todos estrearam comercialmente e foram editados em DVD em vários países, inclusive nos EUA e em Hong-Kong, mercados tradicionalmente difíceis", reconhece ao DN. "Se os portugueses têm consciência disto? Sinceramente acho que não", considera João Rui.

Com a chegada de Odete, melodrama lançado em 2005 e que percorreu festivais em diferentes locais, como Cannes, Belfort, Rio de Janeiro, Milão, Banguecoque ou Seattle, João Pedro Rodrigues foi reconhecido como uma das figuras-chave do cinema LGBT (apesar de já ter considerado redutor o rótulo de realizador gay). Nesta obra, João Pedro retoma uma exploração evidente do corpo masculino e dos afectos entre pessoas do mesmo sexo, aspecto que permanece visível na longa-metragem seguinte, Morrer como Um Homem (2009).

Candidato português à nomeação para a categoria de Melhor Filme Estrangeiro nos Óscares e exibido em Cannes, Nova Iorque, Toronto, Los Angeles ou Istambul, Morrer como Um Homem (que "vai ser editado em DVD pela Strand Releasing nos EUA no próximo dia 21 de Agosto", diz-nos João Pedro) voltou a contar a colaboração de João Rui Guerra da Mata no argumento e direcção artística. Debruçando-se sobre o universo do espectáculo travesti, o filme tocou em problemáticas profundas como a identidade, a fé e a morte - presente em grande parte do seu trabalho, como na "curta" China, China, lançada em 2007, ou no recente Alvorada Vermelha, co-dirigidos por ambos.

"Quando decidi escrever um argumento para uma curta-metragem do João Pedro, a história que quis contar tinha a ver com a China e com chineses, porque era isso que me interessava", declara João Rui. "O João Pedro convidou-me a realizar China, China com ele porque compreendeu o meu envolvimento na história. Penso que Alvorada Vermelha continua esse nosso caminho de cumplicidades", acaba por reconhecer.

De facto, Alvorada Vermelha, apresentada no Curtas de Vila do Conde e na Suíça, no Festival de Locarno, é o resultado evidente de um trabalho cuja parceria só poderia resultar partindo de uma visão convergente e proporcionada. Filme sobre o mercado vermelho em Macau, "a câmara de Rodrigues e Guerra da Mata emerge como uma força motriz que nos dá o exacto balanço entre o que existe e o que vemos", escreveu Miguel Valverde, o programador da passada edição do IndieLisboa, onde a obra foi exibida.

Mas o trabalho desta dupla não termina aqui; preparam o lançamento do documentário A Última Vez Que Vi Macau, que co-assinam. E há pouco tempo, João Pedro Rodrigues acabou de rodar Manhã de Santo António, curta que "trata do regresso a casa de um grupo de quarenta jovens, rapazes e raparigas, depois de uma noite passada nas festas de Santo António em Lisboa" e que "irá estrear na escola Le Fresnoy, perto de Lille, onde leccionei uma cadeira de Realização no ano lectivo de 2010/11, em Outubro deste ano", diz o realizador. Guerra da Mata encontra-se a filmar aquela que é a sua "primeira curta, O Que Arde Cura, em que o João Pedro está a colaborar".

O realismo como parte da encenação

João Rui Guerra da Mata não se sentiu um estrangeiro em Macau quando filmou Alvorada Vermelha. Vivendo lá grande parte da sua infância nos anos 70 e viajando pela Ásia, partilhou com João Pedro Rodrigues as suas recordações: "sempre pensei que aquelas histórias tinham um tom de filme de aventuras", admite o realizador de Morrer como Um Homem.

"Voltei a Macau 30 anos depois e estivemos a lá filmar durante quase seis meses", diz-nos Guerra da Mata. "O Mercado Vermelho era uma das mais fortes recordações que eu tinha e fazia parte dos nossos planos filmá-lo. Ele é, neste momento, o mais antigo mercado de Macau. E o último mercado onde os animais são vendidos vivos e depois mortos em frente aos clientes."

Por sua vez, Rodrigues considera Alvorada Vermelha "mais como uma continuação dos meus trabalhos anteriores", onde "há sempre um olhar quase "documental" sobre os actores e os décors, apesar de ser tudo muito encenado - há uma espécie de crença no realismo que depois tento transfigurar". Com um lado violento e implacável, Alvorada Vermelha transcende por isso o seu realismo de uma forma muito particular, filmando... uma sereia. "Acho que o lado encenado do filme vem da forma como filmámos aquelas pessoas a trabalhar, é a isso que me refiro quando falo da transfiguração do real. Introduzimos os elementos de fantasia (como a sereia) porque o filme também é uma homenagem a Jane Russell, a protagonista de Macao de Josef von Sternberg, que morreu enquanto estávamos a filmar em Macau."

Produzida pela Blackmaria, a curta-metragem teve ainda "o apoio do Instituto Cultural de Macau", que, na opinião de Rodrigues, "foi fundamental em todo este processo. Tivemos autorização para filmar em todo o território excepto dentro dos casinos, onde essa autorização nos foi recusada. Estranhamente, e ao contrário do que aconteceria nos mercados ocidentais, os trabalhadores do Mercado Vermelho ignoraram-nos quase sempre, deixando-nos filmar como se não estivesse ali uma câmara."

O filme marcará presença em Viena, em Outubro, e em Copenhaga em Novembro.

Uma filmografia entre colaborações

Parabéns | 1997
Escrito e realizado por João Pedro Rodrigues, abre-nos as persianas e apresenta-nos João Rui Guerra da Mata como Chico, um homem comprometido com uma mulher que o acorda, no dia do trigésimo aniversário, com um telefonema. Ao lado de Chico, há uma nova presença na sua cama: João (Eduardo Sobral), com quem passou a noite.

O Fantasma | 2000
Longa-metragem debutante de João Pedro Rodrigues, que a realizou e escreveu, conta com João Rui Guerra da Mata na direcção artística, no guarda-roupa e no papel secundário de um polícia. A história de Sérgio (Ricardo Meneses), que trabalha para a companhia de limpeza urbana em Lisboa e que é obcecado por sexo e pelo corpo do homem. [Trailer]

Odete | 2005
Considerada pelo crítico do DN João Lopes "como uma fábula sobre a pluralidade do amor", Odete, escrito e realizado por João Pedro Rodrigues e com os décors e guarda- -roupa assinados por João Rui Guerra da Mata, acompanha a forma como Sónia (Ana Cristina Oliveira) finge estar grávida do falecido vizinho, namorado de Rui (Nuno Gil). [Trailer]

China, China | 2007
Escrito por João Rui Guerra da Mata, que co-realizou com João Pedro Rodrigues e comandou a direcção artística, explora a demanda de uma jovem imigrante em Portugal a quem chamam de China (Chen Jialiang) na procura de uma liberdade que, depois, se apresenta inalcançável. Marcou presença em Cannes. [Trailer]

Morrer como um Homem | 2009
Candidato português aos Óscares, realizado por João Pedro Rodrigues e escrito em colaboração João Rui Guerra da Mata (que assinou, mais uma vez, a direcção artística) traz-nos a história decadente de Tónia (Fernando Santos), um travesti que se sente pressionado a realizar uma operação de mudança de sexo, embora perante Deus sinta que será sempre um homem. [Trailer]

Alvorada Vermelha | 2011
Co-realizado e escrito por João Rui Guerra da Mata e João Pedro Rodrigues (que tratou da fotografia), debruça-se sobre o Mercado Vermelho em Macau, onde os animais são brutalmente mortos, e grande parte deles à frente dos clientes. Impressionante, realista e, ao mesmo tempo, lírico, este filme é, no final, dedicado à actriz Jane Russell.

A Última Vez que Vi Macau | 20??

O próximo filme que a dupla lançará é uma longa-metragem que ambos co-realizam. Tendo mais de 150 horas de filmagem para montar, é "uma espécie de ficção em off, mas que tenha um ritmo e uma história - aliás, várias histórias que desembocam umas nas outras", admitiu Rodrigues ao jornal macaense Ponto Final.

João Pedro Rodrigues
Nascido em 1966, João Pedro Colaço do Rosário Godinho Rodrigues especializou-se em montagem na Escola Superior de Teatro e Cinema, em Lisboa, após ter frequentado um curso de Biologia (onde desejava ser ornitólogo). Entre 1989 e 1996 foi assistente de realização de Jorge Silva Melo, João Guerra e Alberto Seixas Santos, e assistente de montagem de figuras como Manuela Viegas (ao lado do colega Joaquim Sapinho, com quem colaborou como actor na sua curta-metragem de final de curso À Beira Mar). Frequentador cinéfilo da Cinemateca, foi realizador de Parabéns! e Esta é a Minha Casa (1997), Viagem à Expo (1999), O Fantasma (2000), Odete (2005) e Morrer como um Homem (2009), onde grande parte do trabalho trespassa o tema da morte e da sexualidade não-normativa. Co-assinou China, China (2007) e Alvorada Vermelha (2011) com Guerra da Mata. Prepara-se para estrear a curta Manhã de Santo António e, para o ano, A Última Vez que Vi Macau, onde volta a co-assinar a realização. 

João Rui Guerra da Mata
Actualmente professor na Escola Superior de Teatro e Cinema, a infância de João Rui Guerra da Mata passou por Macau, onde voltaria para filmar as curtas-metragens (co-assinadas com João Pedro) Alvorada Vermelha (dedicada a Jane Russell, protagonista de Macao (1952), cujo plano inicial do filme contém a casa onde viveu João Rui) e o documentário A Última Vez que Vi Macau, que será lançado futuramente. Foi, também ao lado de João Pedro, autor de China, China (2007). Trabalhou como director artístico e responsável pelo guarda-roupa em grande parte dos filmes do parceiro, surgindo como protagonista da primeira curta-metragem de João Pedro – Parabéns! Trabalhou ainda com Joaquim Sapinho e Carlos Conceição.

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